Era uma luz de vitral, uma luz quase verde, quase dourada, uma luz de montanha acesa, a desenhar os picos contra o azul do céu.
Estava um silêncio de templo, um silêncio de beijo, um silêncio de folhas a estalar sob os nossos pés.
Levávamos a alegria no cesto, misturada na massa que se acamava no molho, regada no vinho com que brindámos à vida,
- a nós.
E o brinde era à saúde, era à esperança, era ao agora daquele domingo, era a esta coisa boa de estarmos juntos e podermos fazer um piquenique.
Levávamos a juventude de antes, agarrada na gargalhada e no canto dos pássaros e na fruta que espalhámos sobre a toalha aos quadrados de antigamente.
E fomos felizes. Porque a felicidade é assim, feita de coisas pequenas - do frio da água a correr na levada, do desenho de filigrana dos fetos, do recorte fofo dos líquenes, da terra solta do chão.
Voltámos ao tempo das omeletas escondidas no pão da véspera, voltámos a sentir a terra e o cheiro verde das árvores. Voltámos, por um dia, a ser miúdos e a escutar o ritmo dos nossos passos.
Tão simples, afinal, a alegria. Às vezes, cabe num cesto de piquenique. E na luz imensa da serra. E no sorriso. Em nós.
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domingo, 9 de outubro de 2011
sábado, 8 de outubro de 2011
CRESPÚSCULO(S )
O pior do tempo que passa é o silêncio do que não se viveu. É isso que dói no espelho: a imagem baça de um olhar sem luz, os regos secos de uma pele sem brilho, a solidão noturna de uma janela fechada.
Passamos a vida a envelhecer. Sem nos darmos conta, estamos sentados à porta da vida, com o horizonte no chão. Sem que as horas nos avisem, as nossas mãos desmaiam no colo e a memória afoga-se dentro do peito. Sem nos apercebermos, estamos sós, dramaticamente abandonados ao fim, como se não houvesse futuro, como se não houvesse calor, como se de nada tivesse valido toda a luta, todos os sacrifícios, todo o amor.
De repente, meus amigos, o nosso calendário só tem ontens, o nosso mar fica vazio, as gaivotas já não acordam as nossas manhãs. De repente, o mundo fica confinado ao nosso quarto, as palavras ficam escondidas na garganta, o medo toma conta de nós. De repente, já não há ninguém para conversar, já não há ninguém para abraçar, já ninguém diz,
- tem cuidado, volta cedo,
porque já não há ninguém.
Por isso, esta é a hora. Em ponto. É a hora de olhar para quem já viveu, de beijar as mãos que já nos acariciaram, de beber os exemplos de quem andou a marcar os nossos caminhos.
Amanhã, se Deus quiser, há-de ser a nossa vez. E vamos gostar – certamente - que nos sorriam, que nos abracem, que cuidem de nós.
Hoje, agradecemos a vida. E pedimos que nunca, mas nunca, nos deixemos cair na tentação de nos esquecer de viver. Porque o pior do tempo que passa é quando o espelho só nos mostra o que não se fez.
Passamos a vida a envelhecer. Sem nos darmos conta, estamos sentados à porta da vida, com o horizonte no chão. Sem que as horas nos avisem, as nossas mãos desmaiam no colo e a memória afoga-se dentro do peito. Sem nos apercebermos, estamos sós, dramaticamente abandonados ao fim, como se não houvesse futuro, como se não houvesse calor, como se de nada tivesse valido toda a luta, todos os sacrifícios, todo o amor.
De repente, meus amigos, o nosso calendário só tem ontens, o nosso mar fica vazio, as gaivotas já não acordam as nossas manhãs. De repente, o mundo fica confinado ao nosso quarto, as palavras ficam escondidas na garganta, o medo toma conta de nós. De repente, já não há ninguém para conversar, já não há ninguém para abraçar, já ninguém diz,
- tem cuidado, volta cedo,
porque já não há ninguém.
Por isso, esta é a hora. Em ponto. É a hora de olhar para quem já viveu, de beijar as mãos que já nos acariciaram, de beber os exemplos de quem andou a marcar os nossos caminhos.
Amanhã, se Deus quiser, há-de ser a nossa vez. E vamos gostar – certamente - que nos sorriam, que nos abracem, que cuidem de nós.
Hoje, agradecemos a vida. E pedimos que nunca, mas nunca, nos deixemos cair na tentação de nos esquecer de viver. Porque o pior do tempo que passa é quando o espelho só nos mostra o que não se fez.
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segunda-feira, 26 de setembro de 2011
outonos

Dantes, escrevíamos o outono com o amarelo das folhas que as árvores semeavam no chão; falávamos no adeus dos pássaros, no cheiro da terra molhada ainda cansada de sol, no primeiro dia de escola e no futuro que isso trazia.
Dantes, o outono era uma estação poética de uma luz (ainda) quente, de um mar (ainda) manso, do resto das uvas e do amanhecer das maçãs que começavam a luzir nos quintais.
Hoje, o outono escreve-se de outro modo. Reveste-se da metáfora da vida, de um tempo que passa, que voa, que acaba.
Do verão, fica a saudade, na dor (recente) do que já acabou. Ficam migalhas trigueiras das férias, ficam retratos fechados, calados no computador, ficam as horas que correm, loucas, para o inverno. Porque é lá, nesse tempo de lágrimas brancas e de marés ventosas e de casacos pesados, que afogamos os nossos olhos.
Somos passado ou futuro. Nunca presente. E, por essa razão, não vemos, agora, a poesia clara desta estação. Não ouvimos os segredos do vento que bate na vidraça. Não sentimos o amor dos que (ainda) estão connosco. Não olhamos o tapete castanho que Deus pôs a nossos pés, para podermos passar.
Temos de amar este outono. Porque ele é agora. Mesmo que as folhas do nosso corpo estejam a amarelecer, mesmo que as nossas asas andem a procurar outros mares, mesmo que
Só temos de perceber - mesmo que doa! – que é preciso ir para se poder regressar; que é preciso chorar para se poder rir; que é preciso inverno para ser verão, outra vez.
Há muitos outonos na nossa vida. Este é um deles. E é preciso espreitar a poesia que mora na mansidão quentinha da sua luz e entender a liquidez redonda do tempo que vai e volta diferente, que morre para nascer outra vez.
O outono, meus amigos, é o alimento da primavera, o húmus do amanhã.
sábado, 24 de setembro de 2011
as minhas memorias
(exposição de fotografias Madeira Shopping)
Empresta-me as tuas memórias. Esqueci as minhas, no virar da vida, entre o tempo e o nada, num (quase) silêncio de quem já fui.
Conta-me de ti e do amor que te tinha. Acende os meus olhos com a luz dos teus e faz-me lembrar do tempo em que éramos felizes e estávamos juntos e eu te falava da vida e do futuro e do sol que acorda a esperança em cada manhã.
Aperta-me a mão. Dá-lhe, de novo, a vontade de te acariciar o rosto, como se o teu rosto fosse o meu ninho, a coragem de limpar as tuas lágrimas, a habilidade de voltar a enfeitar de flores a tua mesa. Fala-me de do que as minhas mãos sabiam fazer, antes de me perder de mim. Explica-me como nos aconchegávamos no nosso abraço e nos deixávamos levar a galope no bater do nosso coração.
Empresta-me as tuas memórias, meu amor. Diz o meu nome baixinho. Chama-me, outra vez, mãe, pai, amigo, companheira. Mostra-me o mapa de nós. Pode ser que assim…
Constrói comigo a nossa casa, aquela onde fomos nós, na abrangência do que éramos, corpo, espírito, vontade, futuro. Escreve comigo o dia de ontem, a hora que acabou, o poema que não revimos, o romance que não terminámos, o livro que ficou marcado numa página do meio.
Toca a música daquele dia (qualquer um dos nossos dias), como se isso fosse o último canto dos pássaros. Traz-me a tua voz. Preciso dela para me ouvir. Há-de chegar; eu sei que há-de chegar.
Traz-me a mim. Lembra-me o nome que a minha mãe me deu. Lembra-me a forma dos sorrisos e dos sentires. Lembra-me de nós. E não me deixes cair na tentação de te esquecer.
Abraça-me. Só um bocadinho. Diz-me que me amas, mesmo assim.
Não me lembro do teu nome. Mas nunca, nunca me deixes esquecer que moras dentro de mim.
A minha memória és tu.
Empresta-me as tuas memórias. Esqueci as minhas, no virar da vida, entre o tempo e o nada, num (quase) silêncio de quem já fui.
Conta-me de ti e do amor que te tinha. Acende os meus olhos com a luz dos teus e faz-me lembrar do tempo em que éramos felizes e estávamos juntos e eu te falava da vida e do futuro e do sol que acorda a esperança em cada manhã.
Aperta-me a mão. Dá-lhe, de novo, a vontade de te acariciar o rosto, como se o teu rosto fosse o meu ninho, a coragem de limpar as tuas lágrimas, a habilidade de voltar a enfeitar de flores a tua mesa. Fala-me de do que as minhas mãos sabiam fazer, antes de me perder de mim. Explica-me como nos aconchegávamos no nosso abraço e nos deixávamos levar a galope no bater do nosso coração.
Empresta-me as tuas memórias, meu amor. Diz o meu nome baixinho. Chama-me, outra vez, mãe, pai, amigo, companheira. Mostra-me o mapa de nós. Pode ser que assim…
Constrói comigo a nossa casa, aquela onde fomos nós, na abrangência do que éramos, corpo, espírito, vontade, futuro. Escreve comigo o dia de ontem, a hora que acabou, o poema que não revimos, o romance que não terminámos, o livro que ficou marcado numa página do meio.
Toca a música daquele dia (qualquer um dos nossos dias), como se isso fosse o último canto dos pássaros. Traz-me a tua voz. Preciso dela para me ouvir. Há-de chegar; eu sei que há-de chegar.
Traz-me a mim. Lembra-me o nome que a minha mãe me deu. Lembra-me a forma dos sorrisos e dos sentires. Lembra-me de nós. E não me deixes cair na tentação de te esquecer.
Abraça-me. Só um bocadinho. Diz-me que me amas, mesmo assim.
Não me lembro do teu nome. Mas nunca, nunca me deixes esquecer que moras dentro de mim.
A minha memória és tu.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
carta de quem se esqueceu

Não me lembro do teu nome, mas conheço o amor que me tens. E isso basta para que eu fique em paz, sossegada pelo aconchego dos teus beijos, embalada por essa toada antiga que me deixa adormecer, sorrindo para os anjos.
Sou agora tua filha, quando me chamas,
-mãe,
e me abraças, na ternura do teu cuidado e no teu gesto suave de tratar de mim.
A tua mão doce-doce aveluda-me o corpo que não é meu, porque já não sei para que serve. E fico bem, menina, outra vez, num jogo de faz de conta que já não tem príncipes, nem princesas, nem dragões escondidos nos castelos das florestas.
Peço-te hoje ( sabendo que te peço o mundo!) que não desistas de mim e do meu amor antigo porque é um amor muito mais velho do que tu e te construiu como és.
Deixa-me ficar no teu colo. Assim. No contrário do que é natural. Guarda-me a dor de não saber o teu nome, ou a cor dos teus olhos, ou quem és e o que fazes na minha casa.
Garanto-te que nada (nem mesmo esta doença de esquecer) me fará esquecer cada olhar teu, cada abraço que me dás, cada palavra doce que inventas para me impedir de morrer.
Não me lembro o nome que te dei quando nasceste. Dentro de mim, chamas-te, apenas
- meu amor.
E, mesmo que não saiba pronunciar as palavras, lê nos meus olhos a minha gratidão.
domingo, 18 de setembro de 2011
11 de setembro
Há dez anos, o coração do mundo tremeu. De espanto. De medo. Nesse dia, os olhos do mundo inundaram-se. Com a água das bombas. Com a água do peito. Nesse dia, as mãos do mundo levantaram-se. Incrédulas. E caíram. Desalentadas. E levantaram-se, outra vez. Lutadoras.
Ainda me dói a memória desse dia de lume e morte. Dói-me o grito que se prendeu na garganta da terra.
O meu mundo [como o de toda a gente] centrou-se na televisão da sala. Como estivéssemos a ver um filme. Como se fossemos, nós próprios, protagonistas do que víamos, em directo. O medo coube nesses instantes e a tarde escureceu.
As torres eram um lego e as pessoas bonecos em fuga para o nada, folhas de outono antes do tempo.
Não sei em nome de quê se mata assim. Sei que, nesse dia, os homens ficaram suspensos e o mundo nunca mais foi o mesmo.
Dez anos depois, a escrever à luz da memória e das imagens que não se pode deixar esquecer, pergunto-me o que aprendemos. Talvez que tudo é breve e frágil e susceptível de acabar. Talvez que o coração do homem é capaz de tudo. E que nada é seguro. Aprendemos que se mata e se morre, como se matar e morrer fosse apenas um jogo de computador.
Aprendemos pouco. Muito pouco. Continuamos a inventar explicações para a nossa crueldade. Continuamos a viver como se a morte nos passasse ao largo. Continuamos a não dar valor às coisas pequenas como as flores e as gargalhadas e o azul do céu em dias de calmaria. Continuamos a acreditar na inexpugnabilidade das torres que, todos os dias, construímos para mostrar o nosso poder. Aprendemos pouco. Tão pouco. Aquele ground zero também existe, às vezes, dentro de nós.
Talvez daqui a dez anos, a Historia se conte doutra maneira: que a água que corre na fundura daquele chão se transformou em vida, lavou o terror e se travestiu de esperança. Porque naquele lugar, também, [e não nos podemos esquecer disto] homens deram a vida para salvar outros homens. Porque naquele lugar, todos os dias, alguém reza e chora e acredita.
Talvez daqui a dez anos. Não. Hoje. É hoje que começa a transformação do mundo.
Ainda me dói a memória desse dia de lume e morte. Dói-me o grito que se prendeu na garganta da terra.
O meu mundo [como o de toda a gente] centrou-se na televisão da sala. Como estivéssemos a ver um filme. Como se fossemos, nós próprios, protagonistas do que víamos, em directo. O medo coube nesses instantes e a tarde escureceu.
As torres eram um lego e as pessoas bonecos em fuga para o nada, folhas de outono antes do tempo.
Não sei em nome de quê se mata assim. Sei que, nesse dia, os homens ficaram suspensos e o mundo nunca mais foi o mesmo.
Dez anos depois, a escrever à luz da memória e das imagens que não se pode deixar esquecer, pergunto-me o que aprendemos. Talvez que tudo é breve e frágil e susceptível de acabar. Talvez que o coração do homem é capaz de tudo. E que nada é seguro. Aprendemos que se mata e se morre, como se matar e morrer fosse apenas um jogo de computador.
Aprendemos pouco. Muito pouco. Continuamos a inventar explicações para a nossa crueldade. Continuamos a viver como se a morte nos passasse ao largo. Continuamos a não dar valor às coisas pequenas como as flores e as gargalhadas e o azul do céu em dias de calmaria. Continuamos a acreditar na inexpugnabilidade das torres que, todos os dias, construímos para mostrar o nosso poder. Aprendemos pouco. Tão pouco. Aquele ground zero também existe, às vezes, dentro de nós.
Talvez daqui a dez anos, a Historia se conte doutra maneira: que a água que corre na fundura daquele chão se transformou em vida, lavou o terror e se travestiu de esperança. Porque naquele lugar, também, [e não nos podemos esquecer disto] homens deram a vida para salvar outros homens. Porque naquele lugar, todos os dias, alguém reza e chora e acredita.
Talvez daqui a dez anos. Não. Hoje. É hoje que começa a transformação do mundo.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Setembro
Setembro era enorme. Já tínhamos a pele cansada do sol e a Barreirinha já tinha perdido o interesse do princípio. No intervalo da nossa ansiedade, tínhamos as festas, as vindimas, os pés azuis do lagar, as tardes na Gulbenkian, as conversas no quintal.
Às vezes, sentávamo-nos nos portais a fazer projectos de ano novo: professores novos, colegas diferentes, uma vontade de crescer.
Era um mês de futuro, Setembro. Porque tudo era novo: o corte do cabelo, a roupa para o primeiro dia de escola, o cheiro dos livros, as folhas coladas dos cadernos e, se o ano tivesse sido razoável, uma pasta nova para nos dar confiança e atrair notas boas.
A mãe forrava os livros na mesa da cozinha, ao serão, depois do jantar (O plástico [não aderente] protegia-os das mãos sujas da manteiga da merenda.) sob o nosso olhar atento. Desse gesto cuidadoso parecia depender o sucesso do ano lectivo.
Líamos os textos do livro de Português, na ânsia [antiga] de conhecer histórias novas
(- tem cuidado com as folhas. Lavaste as mãos?)
e espreitávamos o estojo e abríamos os cadernos
1ª período
e deixávamo-nos levar pelas ilustrações e pela novidade.
Olhávamo-nos ao espelho a espreitar as mudanças – cresceste tanto, estas férias! – na ânsia de sermos grandes.
Setembro era um mês estranho: ao mesmo tempo que queríamos que as férias se despachassem e que a escola abrisse, tínhamos pena de perder as aventuras que imitávamos dos Cinco e dos Sete e de deixar ouvir a campainha para o desafio,
- vamos brincar?
Tínhamos tão pouco e não precisávamos de nada. Éramos uns dos outros nessa altura.
Já não se vêem miúdos na minha rua. Estão presos ao computador a viver vidas que não são suas. Já não conhecem o cheiro de Setembro: um cheiro a uvas vindimadas e a livros por estrear. Já não têm sonhos para partilhar com os amigos e já não fazem projectos para as brincadeiras dos recreios.
Agora, Setembro passa depressa. Como a vida. E não temos tempo para nada. Servimo-nos, então das lembranças – memórias boas de um tempo em que tínhamos o futuro ao alcance das nossas mãos.
Às vezes, sentávamo-nos nos portais a fazer projectos de ano novo: professores novos, colegas diferentes, uma vontade de crescer.
Era um mês de futuro, Setembro. Porque tudo era novo: o corte do cabelo, a roupa para o primeiro dia de escola, o cheiro dos livros, as folhas coladas dos cadernos e, se o ano tivesse sido razoável, uma pasta nova para nos dar confiança e atrair notas boas.
A mãe forrava os livros na mesa da cozinha, ao serão, depois do jantar (O plástico [não aderente] protegia-os das mãos sujas da manteiga da merenda.) sob o nosso olhar atento. Desse gesto cuidadoso parecia depender o sucesso do ano lectivo.
Líamos os textos do livro de Português, na ânsia [antiga] de conhecer histórias novas
(- tem cuidado com as folhas. Lavaste as mãos?)
e espreitávamos o estojo e abríamos os cadernos
1ª período
e deixávamo-nos levar pelas ilustrações e pela novidade.
Olhávamo-nos ao espelho a espreitar as mudanças – cresceste tanto, estas férias! – na ânsia de sermos grandes.
Setembro era um mês estranho: ao mesmo tempo que queríamos que as férias se despachassem e que a escola abrisse, tínhamos pena de perder as aventuras que imitávamos dos Cinco e dos Sete e de deixar ouvir a campainha para o desafio,
- vamos brincar?
Tínhamos tão pouco e não precisávamos de nada. Éramos uns dos outros nessa altura.
Já não se vêem miúdos na minha rua. Estão presos ao computador a viver vidas que não são suas. Já não conhecem o cheiro de Setembro: um cheiro a uvas vindimadas e a livros por estrear. Já não têm sonhos para partilhar com os amigos e já não fazem projectos para as brincadeiras dos recreios.
Agora, Setembro passa depressa. Como a vida. E não temos tempo para nada. Servimo-nos, então das lembranças – memórias boas de um tempo em que tínhamos o futuro ao alcance das nossas mãos.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
A casa [de lava e de livros] de José Saramago
“Procurar o outro lado de tudo” – foi o que fui fazer à Casa, Calle los Topes, Tias, Lanzarote.
Entrei na casa de Saramago como se entrasse num universo que, de algum modo, também me pertencia. Bebi a atmosfera familiar que se estampa em cada canto, como se José [permita-me chamá-lo assim, neste contexto] fosse voltar a cada instante, mudar uma peça de sítio, pegar num livro do escritório e se sentar no cadeirão da sala a ler poesia, depois do jantar e a ouvir o vento a gemer na vidraça.
Pisei o chão negro de basalto que serve de tapete de entrada e senti-me personagem de livro. Olhei para as paredes e reconheci a força de Blimunda, o caminho lento do Elefante. Senti o poder das palavras escritas em cada objecto, na família africana que ficou depois dele ter partido, nas fotografias espalhadas pela sala, na vida que ficou parada numa cama branca guardada numa ilha negra, beijada, em cada manhã, pelos ventos alísios que lhe adoçam o ar.
Senti-lhe o espírito inquieto de homem do mundo que espalha por toda a casa o sagrado da arte, em crucifixos e mistérios e Meninos Jesus que se cruzam com o dia a dia e as montanhas e o mar azul azul e as romãzeiras do quintal.
Passei a mão pela mesa, a mesma que terá recebido as linhas do Memorial do Convento, do Evangelho segundo Jesus Cristo, ou do Ensaio sobre a Cegueira. E sentei-me à mesa da cozinha e tomei um café [Delta] português, porque os amigos são sempre convidados para um café na cozinha. Com Pilar.
Desci depois ao jardim. Abracei a oliveira e mordi uma alfarroba que me tocou na mão.
Sentei-me, então, na pedra negra a olhar o mar. Como ele. Como se ele estivesse ali e me dissesse,
- olha o mar sente o vento inventa o entardecer e pensa que és apenas um grão dessa cinza que o vulcão vomitou
Assim, sem pontuação. De um fôlego. Prendendo no peito o ar. Porque o resto, as letras, as palavras, a manta vermelha, o computador, os últimos livros estavam na biblioteca. Teria ficado ali, a contemplar a fotografia do homem mais sábio do mundo que não sabia ler nem escrever ou, simplesmente, a pensar nas palavras sem medo de um Português que escolheu Lanzarote para ser feliz e que mandou parar todos os relógios nas quatro, porque foi a hora em que redescobriu o amor.
Graça Alves
sábado, 3 de setembro de 2011
Cronica de Lanzarote
Todas as ilhas são especiais. Concentram em si todos os elementos – o fogo do vulcão, a força da terra, os ventos brumosos de outros lugares e a vastidão azul do oceano. As ilhas têm um valor sacral, como se guardassem o mundo inteiro e nos aproximassem mais do universo.
Um ilhéu vive no mar. E isso dá-lhe a ilusão de ser marinheiro e andar, livre, num mundo que se abre todas as manhãs às portas da praia. Talvez por isso, as ilhas me atraem tanto. Talvez por isso também, quando posso, vou à procura de ilhas-irmãs, de lugares que, como o meu, me mostrem miniaturas do mundo, numa espécie de puzzle que vou montando na minha inteligência e que vai ajudando a desenhar os contornos do meu entendimento da vida.
Cada ilha tem uma cor diferente. Porque veste a cor do espírito que a habita. A minha, por exemplo, é verde e tem água a correr-lhe nas veias. É iluminada de flores e de sol e tem a alegria do bailinho e o perfume do vinho e a arquitetura dos vimes e a delicadeza dos bordados. Fez-se mulher muito depressa a minha ilha. E cresceu. Depressa, também.
Este ano, conheci outra, com cores negras de lava e fogo. É um lugar mágico, onde a terra se abre no chão e se percorrem os caminhos que o vulcão desenhou. É um lugar onde a mão do homem se deixou guiar pela mão da natureza e deixou que Deus fizesse o resto. É a ilha de Manrique temperada com as palavras de Saramago. É a pedra-magma que de tão negra parece azul [como diria Baudelaire]. É o mar ali ao pé. E os ventos alísios. E o sossego. E o redondo das videiras, enterradas no chão.
Voltei, agora para casa. Trago os olhos mais cheios de mundo. Mais quentes, talvez. Mais conscientes também da possibilidade de ser dos outros sem perdermos a nossa identidade.
Lanzarote recebe o mundo. Como nós. Mas soube preservar a sua personalidade. A alma do vulcão ainda queima na ilha. Derrama-se no orgulho nas casas baixas e caiadas, nas madeiras verdes e azuis, na luz dos lagos subterrâneos, nos pés de aloé que curam as dores, no sol que, todos os dias a faz sorrir.
Este ano, acrescentei esta ilha ao meu arquipélago interior e agradeci a Deus porque vivi para a conhecer.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
NOVOS MARINHEIROS
Dizem que sim. Que vão sem olhar para o que ficou na margem da vida. Que hão-de partir para onde for preciso estar, na entrega total de quem são, na verdade de cada um.
Hão-de derramar-se no chão e deixar, nesse despojamento, os desejos do mundo. Hão-de vestir-se de Deus e deixar que Ele faça o resto. Vão. Mesmo que as lágrimas teçam cortinas nos seus olhos. Mesmo que o medo lhes prenda as liberdades. Mesmo que a dor grite, ensurdecendo os silêncios necessários para escutar os sussurros da brisa aos ouvidos das árvores ou a doçura dos rouxinóis a enfeitiçar as manhãs.
O mar. Estes rapazes procuram o Mar. E o Mar tem nome de irmão, de esperança e de coragem. O Mar tem nome de entrega e veste uma túnica limpa e tem abraço de Pai e uma lei que aponta futuros novos, mais azuis.
O mar. Estes rapazes têm o Mar no peito, pendurado numa cruz que guardam no colo e que é arma de luz e essência de vida.
Hão-de conhecer a direcção dos ventos e a força dos mares. Hão-de lançar a âncora muitas vezes. Hão-de desencalhar as canoas que derem à costa no calhau. Hão-de partir e regressar muitas vezes . Hão-de ir. Estes rapazes hão-de ir. Muitas vezes. E voltar. Muitas vezes também.
Dizem que sim. Que o Mar os inspira, porque são do Mar. E o Mar é esse infinito com voz de Deus, a mesma voz que, um dia, os chamou pelo nome e pediu a cada um:
- Vem. Segue-me.
Dizem que sim. Como terão de fazer todos os dias das suas vidas.
Que o Mar [imagem do infinito de Deus] os guarde. Que eles saibam ser marinheiros fiéis. E se façam à Distância. Porque nesse longe mora o coração dos homens.
E se precisarem, há muitas canoas no mar. As nossas. Dentro delas, temos braços para ajudar a remar.
Hão-de derramar-se no chão e deixar, nesse despojamento, os desejos do mundo. Hão-de vestir-se de Deus e deixar que Ele faça o resto. Vão. Mesmo que as lágrimas teçam cortinas nos seus olhos. Mesmo que o medo lhes prenda as liberdades. Mesmo que a dor grite, ensurdecendo os silêncios necessários para escutar os sussurros da brisa aos ouvidos das árvores ou a doçura dos rouxinóis a enfeitiçar as manhãs.
O mar. Estes rapazes procuram o Mar. E o Mar tem nome de irmão, de esperança e de coragem. O Mar tem nome de entrega e veste uma túnica limpa e tem abraço de Pai e uma lei que aponta futuros novos, mais azuis.
O mar. Estes rapazes têm o Mar no peito, pendurado numa cruz que guardam no colo e que é arma de luz e essência de vida.
Hão-de conhecer a direcção dos ventos e a força dos mares. Hão-de lançar a âncora muitas vezes. Hão-de desencalhar as canoas que derem à costa no calhau. Hão-de partir e regressar muitas vezes . Hão-de ir. Estes rapazes hão-de ir. Muitas vezes. E voltar. Muitas vezes também.
Dizem que sim. Que o Mar os inspira, porque são do Mar. E o Mar é esse infinito com voz de Deus, a mesma voz que, um dia, os chamou pelo nome e pediu a cada um:
- Vem. Segue-me.
Dizem que sim. Como terão de fazer todos os dias das suas vidas.
Que o Mar [imagem do infinito de Deus] os guarde. Que eles saibam ser marinheiros fiéis. E se façam à Distância. Porque nesse longe mora o coração dos homens.
E se precisarem, há muitas canoas no mar. As nossas. Dentro delas, temos braços para ajudar a remar.
domingo, 10 de julho de 2011
NEGOCIOS

Hoje, sou eu que lhe empresto o meu sorriso. É pelas vezes que me emprestou o seu. Entrego-lhe aquilo que sei fazer e que é o melhor de mim. Em troca, peço-lhe que esteja comigo, na contemplação deste sol e deste mar que abraça esta ilha onde moramos e que nos habita, também.
Fazemos assim, esta semana: trocamos abraços por palavras. Eu conheço palavras doces: palavra amor, palavra amigo, palavra ficar. Trocamos sonhos antigos de futuros por segredos de um tempo bom em que nos bastava viver para ser feliz. Trocamos apertos de mão por esperança e ameixas amarelas por flores do campo.
Tenho silêncios pequeninos para troca. Preciso daquele Silêncio com voz de Deus, aquele que acende as noites mendigas de lua.
Preciso de frases brancas e metáforas novas. Dou em troca o trabalho das minhas mãos e a vontade de mudar alguma coisa, também dentro de mim.
Hoje, ofereço-lhe as minhas palavras. Faça-as suas, se isso lhe der jeito para completar a caderneta de cromos que é a vida. Precisamos uns dos outros. Todos. Uns têm os sentidos, outros os não-ditos; uns têm a ideia, outros a vontade; uns têm a esperança, outros a coragem; uns têm a música, outros os instrumentos.
Tenho alguns cromos repetidos. Faltam-me ainda muitos para completar a caderneta. E há uns raros… se alguém tiver…
Preciso de si, portanto. E das suas histórias. E das suas lembranças. E da verdade da sua leitura.
Entretanto, empresto-lhe o sorriso das minhas palavras. É pelas vezes que me sorriu. E me deu ânimo. E me abraçou.
Fico à espera. Tenho cromos para troca. Mas tenho, também, muitos quadradinhos da caderneta por completar.
Um abraço.
sábado, 2 de julho de 2011
cartas, carteiros, mulheres
A rua da minha infância era uma rua de mulheres, na parte da manhã. Todos os dias, por volta das onze, enquanto o almoço ganhava corpo no fogão e a roupa da cama se arejava à janela, as portas entreabriam-se e elas esperavam o carteiro no caminho.
Era a hora de todas as esperanças, de alguns medos, de sonhos eternamente adiados. O Sr. Agostinho tinha os olhos da cor da distância, claros de mar e de saudades e uma voz doce, um pouco enrouquecida do sol e da chuva, dos subires e desceres das ruas daquele tempo.
Na bolsa de couro do Sr. Agostinho, guardavam-se segredos que as folhas de linhas azuis revelavam , no rasgar cuidadoso do envelope, no estalar do papel, na nota que vinha dobrada em quatro e que cheirava às venezuelas e aos brasis dos sonhos velhos,
“Minha querida e sempre lembrada Maria”
na eterna vontade de ter casa sua, de trazer anéis nos dedos ou um dente de ouro a iluminar o sorriso.
O Sr. Agostinho parava a rua da minha infância, por volta das onze: era a carta de chamada que preparava outras partidas, era a prova de vida do soldado que tinha ido lutar pela pátria, em nome de um dever juvenil nas picadas do ultramar, era a saudade molhada de sal de outros mares de quem tinha ido à procura de mundos, de vidas, de quem tinha fugido da tropa, de quem não estava. Simplesmente.
Os ausentes faziam pontes de papel com os que tinham ficado na rua da minha infância:
- Vizinha, recebi carta do meu António.
E a vizinha lia as palavras e os silêncios e os não-ditos e as perguntas e as respostas e as promessas,
- adeus, adeus, até ao meu regresso,
que alimentava as semanas das mulheres da rua da minha infância.
- Então, Sr. Agostinho?
- Hoje, não há nada.
E o silêncio. E o medo. E a angustia de receber uma carta com a tarja preta do luto.
O Sr. Agostinho já não distribui as cartas e os postais de paisagens de neve que chegavam em pleno Agosto. Guardo dele, os olhos e a voz. Guardo o sorriso. E a imensa curiosidade de criança de conhecer os futuros que abrigava dentro do saco.
Já ninguém espera o carteiro na minha rua. O coração já não bate à vista do selo. Já ninguém limpa as lágrimas ao ponto final,
“Adeus até ter notícias tuas”.
E é pena.
Era a hora de todas as esperanças, de alguns medos, de sonhos eternamente adiados. O Sr. Agostinho tinha os olhos da cor da distância, claros de mar e de saudades e uma voz doce, um pouco enrouquecida do sol e da chuva, dos subires e desceres das ruas daquele tempo.
Na bolsa de couro do Sr. Agostinho, guardavam-se segredos que as folhas de linhas azuis revelavam , no rasgar cuidadoso do envelope, no estalar do papel, na nota que vinha dobrada em quatro e que cheirava às venezuelas e aos brasis dos sonhos velhos,
“Minha querida e sempre lembrada Maria”
na eterna vontade de ter casa sua, de trazer anéis nos dedos ou um dente de ouro a iluminar o sorriso.
O Sr. Agostinho parava a rua da minha infância, por volta das onze: era a carta de chamada que preparava outras partidas, era a prova de vida do soldado que tinha ido lutar pela pátria, em nome de um dever juvenil nas picadas do ultramar, era a saudade molhada de sal de outros mares de quem tinha ido à procura de mundos, de vidas, de quem tinha fugido da tropa, de quem não estava. Simplesmente.
Os ausentes faziam pontes de papel com os que tinham ficado na rua da minha infância:
- Vizinha, recebi carta do meu António.
E a vizinha lia as palavras e os silêncios e os não-ditos e as perguntas e as respostas e as promessas,
- adeus, adeus, até ao meu regresso,
que alimentava as semanas das mulheres da rua da minha infância.
- Então, Sr. Agostinho?
- Hoje, não há nada.
E o silêncio. E o medo. E a angustia de receber uma carta com a tarja preta do luto.
O Sr. Agostinho já não distribui as cartas e os postais de paisagens de neve que chegavam em pleno Agosto. Guardo dele, os olhos e a voz. Guardo o sorriso. E a imensa curiosidade de criança de conhecer os futuros que abrigava dentro do saco.
Já ninguém espera o carteiro na minha rua. O coração já não bate à vista do selo. Já ninguém limpa as lágrimas ao ponto final,
“Adeus até ter notícias tuas”.
E é pena.
sábado, 18 de junho de 2011
rouxinois

Eles cantam para acordar o dia que acende, todos os dias, a luz à ilha. Por causa deles, as flores arranjam o cabelo e alimentam o lume colorido das fogueiras dos jardins. Por causa deles, os olhos das casas abrem cedo e espreguiçam os braços dos tapassóis para deixar entrar a vida que amanhece.
Ouça-os comigo. Só um bocadinho. Beba comigo cada nota do seu cantar, como se se tratasse de um refresco do céu. Há os rouxinóis das árvores e os outros, os de Deus, os que nos são enviados para encantar as manhãs, os que nos iluminam os instantes com sorrisos, os que nos seguram as mãos nas dores, os que nos aliviam o medo, os que conhecem as palavras que o coração precisa, os que vivem connosco a normalidade da vida e comungam das nossas horas, do nosso pão, dos nossos risos e das nossas lágrimas.
Temos de os escutar. Os rouxinóis têm asas na voz. Quando pousamos na melodia poética do seu canto, abrem-se as portas do mar e partimos com eles à procura da esperança. Vamos à descoberta das palavras-beijo que o seu canto nos inspira. Vamos e, neste ir, arrastamos possibilidades de futuro, de alegria, de regressos diferentes.
Está a ouvir? Os rouxinóis de Deus estão a cantar para si, agora. Esteja atento aos olhares, aos sorrisos, às palavras, aos silêncios. Os rouxinóis de Deus andam aí. Muitas vezes, só sentimos a sua falta quando eles se calam.
Deixe-se embalar pela música. Deixe-se ir. Deus inventou os rouxinóis para iluminar a sua vida.
sábado, 4 de junho de 2011
NOS
Vestimos a camisola? Está nela marcado o símbolo que nos une, um grito comum, o mesmo clube, a mesma ideologia, a mesma voz.
Quando vestimos a mesma camisola, somos um, apesar das nossas diversidades, das diferenças das nossas vozes. Ficamos juntos num lugar só nosso. Como se o mundo fosse a nossa casa e nós fôssemos capazes de entoar o refrão do mesmo hino.
A camisola irmana. Tem a função da bata da nossa meninice: esconde a marca da nossa riqueza e da nossa pobreza; esconde o valor do que vestimos para mostrar aquilo por que lutamos.
Vestir a camisola implica morrer por ela, viver em função do que ela significa. Com ela vestida, vibramos pelo nosso clube, mesmo que ele nunca ganhe a taça; gritamos o nome dos candidatos, mesmo que ele nunca se eleja; damos as mãos para rezar ao mesmo Deus, calamos os mesmos medos, amparamos as mesmas quedas.
Às vezes, porém, vestimos a camisola para dormir. Nessas noites, vestimo-las separados. Sentimo-nos confortáveis, porque, numa casa qualquer, alguém terá vestido uma camisola semelhante à nossa. Talvez sonhemos sonhos semelhantes.
Vestir a camisola significa estar junto. Apesar das diferenças do coração. E isso é muito bom!
Quando vestimos a mesma camisola, somos um, apesar das nossas diversidades, das diferenças das nossas vozes. Ficamos juntos num lugar só nosso. Como se o mundo fosse a nossa casa e nós fôssemos capazes de entoar o refrão do mesmo hino.
A camisola irmana. Tem a função da bata da nossa meninice: esconde a marca da nossa riqueza e da nossa pobreza; esconde o valor do que vestimos para mostrar aquilo por que lutamos.
Vestir a camisola implica morrer por ela, viver em função do que ela significa. Com ela vestida, vibramos pelo nosso clube, mesmo que ele nunca ganhe a taça; gritamos o nome dos candidatos, mesmo que ele nunca se eleja; damos as mãos para rezar ao mesmo Deus, calamos os mesmos medos, amparamos as mesmas quedas.
Às vezes, porém, vestimos a camisola para dormir. Nessas noites, vestimo-las separados. Sentimo-nos confortáveis, porque, numa casa qualquer, alguém terá vestido uma camisola semelhante à nossa. Talvez sonhemos sonhos semelhantes.
Vestir a camisola significa estar junto. Apesar das diferenças do coração. E isso é muito bom!
domingo, 29 de maio de 2011
UMA HISTÓRIA DE MIM

Era uma vez
e a minha história começa num tempo em que havia tempo para ser feliz. Os miúdos conheciam a alegria de estar juntos e de brincar, descalços no terreiro, e de jogar ao pião nos quintais e de saltar à fogueira nos caminhos, nas noites de S. João.
Eram tempos de liberdade, os tempos da nossa meninice: subíamos às árvores para apanhar as cerejas que pendurávamos nas orelhas, como se fossem brincos de rubis doces; esfolávamos os joelhos e chorávamos depressa, que o tempo era de rir; fazíamos os deveres na mesa da cozinha, depois do
- cala-te, agora, um bocadinho. Vai dar Simplesmente Maria,
que era uma radionovela que fazia sentar a minha avó e a Maria, iguais na manifestação de solidariedades à protagonista, à frente de uma xícara de café, a partilhar lágrimas e comentários.
Lanchávamos, depois, pão com manteiga na mesa de vime do quintal, antes da retoiça e dos gritos e das aventuras, rua abaixo, fazendo voar a bola de quintal para quintal. Quando chovia, guardávamo-nos dentro das casas, no beijo de um livro – muitas vezes requisitado na carrinha da Gulbenkian, que o dinheiro não dava para esses luxos – ou de um jogo da glória ou de cartas que animava as tardes, antes do hino que iniciava a emissão da televisão. Já estava na 4ª classe, quando ela chegou à nossa casa. A preto e branco. Os bonecos animados de plasticina da Polónia e a voz de Vasco Granja acordavam a minha adolescência.
Mas era à noite, depois de um banho e do jantar que a magia tomava conta de nós e enrolávamo-nos nos braços da mãe ou no colo do pai e ouvíamos o Se Bem me Lembro do Vitorino Nemésio e contávamos o dia ou ficávamos, assim, calados, envolvidos no amor daquele abraço, a beber a força que haveria de nos levantar, no dia seguinte.
Passávamos assim o tempo no tempo do
- era uma vez.
E éramos felizes. Tínhamos a vida aos nossos pés.
terça-feira, 24 de maio de 2011
A curva da felicidade
A felicidade mora ali. Tem forma de sorriso e perfumes de campo quando as flores pequeninas explodem do chão. Tem sabor de coisa conquistada. Tem palavras vestidas pelo sol da manhã. Põe-se ao peito como um colar e contagia-se, porque queima e ilumina e enfeitiça. Está ali. Na curva do hoje, escondida debaixo das pedras do medo, da desconfiança, da doença.
Temos de a descobrir. Ela está ao alcance da nossa mão. Está nas coisas pequeninas que compõem as horas dos nossos dias, nos silêncios iluminados dos olhares que incendeiam os nossos, naqueles momentos de gelo que nos impedem de olhar os céus. Está no abraço apertado dos amigos, no aconchego doce das casas, no sabor antigo da sopa de couve que fumega na mesa, no beijo que nos espera ao fim do dia.
A felicidade está em nós: em nós connosco, em nós com os outros, em nós com Deus – tenha Ele o nome que tiver.
Ao virar da curva da nossa solidão, está a pista para a encontrar. Fácil, fácil. Talvez por isso não valha a pena nos fixarmos nos negrumes da noite, nas pequenezes dos nossos egoísmos, nas palavras-pedras que atiramos para matar, nas coisas-poucas que nos fazem sofrer e chorar e lutar contra nadas que tomam conta de nós.
A felicidade mora aqui. (Está a ver o meu dedo apontado para mim, para si, para o mundo?) Bem no centro de nós.
Às vezes, iludimo-nos nas formas de a encontrar. A sua verdadeira ajuda está mesmo aí, nessa mãos que vive no fundo do seu braço, nesses pés que suportam o seu corpo, nesse coração que teima em bater, nesses olhos capazes de se embriagar com a beleza das coisas.
Se quiser, vou consigo. Precisamos um do outro para encontrar a curva certa, sem nos perdermos no caminho.
Vamos ser felizes? Diga que sim. A vida fica tão mais simples.
Temos de a descobrir. Ela está ao alcance da nossa mão. Está nas coisas pequeninas que compõem as horas dos nossos dias, nos silêncios iluminados dos olhares que incendeiam os nossos, naqueles momentos de gelo que nos impedem de olhar os céus. Está no abraço apertado dos amigos, no aconchego doce das casas, no sabor antigo da sopa de couve que fumega na mesa, no beijo que nos espera ao fim do dia.
A felicidade está em nós: em nós connosco, em nós com os outros, em nós com Deus – tenha Ele o nome que tiver.
Ao virar da curva da nossa solidão, está a pista para a encontrar. Fácil, fácil. Talvez por isso não valha a pena nos fixarmos nos negrumes da noite, nas pequenezes dos nossos egoísmos, nas palavras-pedras que atiramos para matar, nas coisas-poucas que nos fazem sofrer e chorar e lutar contra nadas que tomam conta de nós.
A felicidade mora aqui. (Está a ver o meu dedo apontado para mim, para si, para o mundo?) Bem no centro de nós.
Às vezes, iludimo-nos nas formas de a encontrar. A sua verdadeira ajuda está mesmo aí, nessa mãos que vive no fundo do seu braço, nesses pés que suportam o seu corpo, nesse coração que teima em bater, nesses olhos capazes de se embriagar com a beleza das coisas.
Se quiser, vou consigo. Precisamos um do outro para encontrar a curva certa, sem nos perdermos no caminho.
Vamos ser felizes? Diga que sim. A vida fica tão mais simples.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Escolhe a vida e viverás
Não há outra escolha. Não há outro meio para sobreviver à angústia, ao desalento, à noite destes tempos que estão velhos. Não há alternativa para lutar contra a(s) morte(s) de cada dia.
Escolher a vida é descobrir que há sorrisos atrás do véu das lágrimas que, tantas vezes, nos impede de ver o que fica para além do que se vê. É encontrar a fonte de luz que as nuvens coam e que luta, tantas vezes, para abrir brechas nos céus; é perceber a música que o vento compõe nas cordas das árvores.
Não há outra escolha senão a da vida. De contrário, a tristeza toma conta dos nossos silêncios, ensurdecemos com os gritos suicidas do desespero, dos erros que cometemos, porque dói menos, porque é mais fácil, porque sim. Apenas porque está na moda, porque é de velhos e de beatos defender os valores antigos.
Estamos sós, cada vez mais longe dos outros, cada vez mais longe de nós. Perdemo-nos das nossas famílias, perdemo-nos nos caminhos que nós próprios traçámos, fechámo-nos dentro do nosso condomínio interior.
Esvaziámos as palavras. Dizemos,
- amo-te,
sem nada dentro, um verbo sem alma, sem para ti, sem amorizar os gestos, o coração, os olhares.
Lembrar-se da vida é escolhê-la. É fazer dela nossa, mas para os outros. É descobrir-lhe o sentido na verdade de quem queremos ser.
“Escolhe a vida e viverás”. Teremos nós outra escolha?
Escolher a vida é descobrir que há sorrisos atrás do véu das lágrimas que, tantas vezes, nos impede de ver o que fica para além do que se vê. É encontrar a fonte de luz que as nuvens coam e que luta, tantas vezes, para abrir brechas nos céus; é perceber a música que o vento compõe nas cordas das árvores.
Não há outra escolha senão a da vida. De contrário, a tristeza toma conta dos nossos silêncios, ensurdecemos com os gritos suicidas do desespero, dos erros que cometemos, porque dói menos, porque é mais fácil, porque sim. Apenas porque está na moda, porque é de velhos e de beatos defender os valores antigos.
Estamos sós, cada vez mais longe dos outros, cada vez mais longe de nós. Perdemo-nos das nossas famílias, perdemo-nos nos caminhos que nós próprios traçámos, fechámo-nos dentro do nosso condomínio interior.
Esvaziámos as palavras. Dizemos,
- amo-te,
sem nada dentro, um verbo sem alma, sem para ti, sem amorizar os gestos, o coração, os olhares.
Lembrar-se da vida é escolhê-la. É fazer dela nossa, mas para os outros. É descobrir-lhe o sentido na verdade de quem queremos ser.
“Escolhe a vida e viverás”. Teremos nós outra escolha?
sexta-feira, 13 de maio de 2011
eu vou
- Eu vou.
É esta a chave desta semana. O verbo ir reveste-se de um significado maior, porque coragem, porque serviço, porque caminho que se faz, acertando os passos com o coração.
Os jovens entendem esta linguagem. Sabem que as mãos servem para dar, que os braços servem para abraçar e que as palavras têm o poder de salvar e perdoar e beijar e mudar a ordem do universo.
Alguns são chamados. Especiais. Os fortes respondem,
- presente,
mesmo sabendo o que isso significa de entrega, de despojamento, de escolhas. Procuram, então, o seu lugar, a melhor maneira de seguir as pegadas que Deus deixou na areia do chão. Deixam as redes arrumadas na praia, libertam-se do que não vai ser preciso e deitam fora tudo o que pesa. Sabem que a vida vai ser outra e que o caminho é para lá, sempre para lá, para mais perto das gentes, para mais perto de si.
Quem aceita o desafio, levanta a âncora, prepara a luz para alumiar as noites, põe a esperança na bagagem, deixa no cais a saudade do que fica e vai. Segue o caminho que escolheu. Porque nesta viagem, é possível escolher: entre carismas e talentos, entre silêncios e palavras, entre o amor e o amor. Esta é a escolha definitiva. Igual para todos os serviços, igual para todas as marés.
- Eu vou
é a decisão da generosidade, o grito jovem de quem não tem medo da voz do vento que chama pelo seu nome, de quem não tem medo de arrumar os passos, de arrumar a vida, de procurar a razão para a sua felicidade.
Quem vai, vai. Mesmo sabendo das tempestades e da intensidade dos sóis que parecem derreter as coragens. Mesmo sabendo que, às vezes, será um navegador solitário que luta contra a indiferença do mar.
Quem fica prepara o mar. Alisa as ondas para facilitar o caminho. Fica às portas dos regressos para poder ajudar.
É preciso não ter medo de escutar. O seu nome é o mais bonito de todos os nomes. Vá. A decisão de ir é sua. Leve um abraço para o caminho.
É esta a chave desta semana. O verbo ir reveste-se de um significado maior, porque coragem, porque serviço, porque caminho que se faz, acertando os passos com o coração.
Os jovens entendem esta linguagem. Sabem que as mãos servem para dar, que os braços servem para abraçar e que as palavras têm o poder de salvar e perdoar e beijar e mudar a ordem do universo.
Alguns são chamados. Especiais. Os fortes respondem,
- presente,
mesmo sabendo o que isso significa de entrega, de despojamento, de escolhas. Procuram, então, o seu lugar, a melhor maneira de seguir as pegadas que Deus deixou na areia do chão. Deixam as redes arrumadas na praia, libertam-se do que não vai ser preciso e deitam fora tudo o que pesa. Sabem que a vida vai ser outra e que o caminho é para lá, sempre para lá, para mais perto das gentes, para mais perto de si.
Quem aceita o desafio, levanta a âncora, prepara a luz para alumiar as noites, põe a esperança na bagagem, deixa no cais a saudade do que fica e vai. Segue o caminho que escolheu. Porque nesta viagem, é possível escolher: entre carismas e talentos, entre silêncios e palavras, entre o amor e o amor. Esta é a escolha definitiva. Igual para todos os serviços, igual para todas as marés.
- Eu vou
é a decisão da generosidade, o grito jovem de quem não tem medo da voz do vento que chama pelo seu nome, de quem não tem medo de arrumar os passos, de arrumar a vida, de procurar a razão para a sua felicidade.
Quem vai, vai. Mesmo sabendo das tempestades e da intensidade dos sóis que parecem derreter as coragens. Mesmo sabendo que, às vezes, será um navegador solitário que luta contra a indiferença do mar.
Quem fica prepara o mar. Alisa as ondas para facilitar o caminho. Fica às portas dos regressos para poder ajudar.
É preciso não ter medo de escutar. O seu nome é o mais bonito de todos os nomes. Vá. A decisão de ir é sua. Leve um abraço para o caminho.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
FESTA DA FLOR
Venha comigo beijar a cidade. Deixe-se enfeitiçar pela beleza das flores que enfeitam as ruas. Deixe-se embebedar pelo aroma doce dos miúdos que desfilam nas ruas despidas de angústia. Deixe que o seu coração arda no abraço da festa. Deixe que o tempo se espreguice na meiguice dos olhos que se espalham nas montras, que se derramam nos jardins inventados da praça, que se pousam nas mãos que pegam ao colo o que a natureza oferece.
Deixe-se ir. Olhe para cada sorriso que se cruza com o seu. Sorria também. Talvez assim a dor fique mais branda. Talvez assim a primavera amanheça neste maio que arde no peito como se fosse Emaús, como se os caminhos não estivessem despidos de passos, como se o dinheiro ainda desse até ao fim do mês, como se
A rir, como se a vida fosse só isso – rir – duas crianças. A mais velha tem flores na mão. São flores pobres daquelas que não se compram nas floristas, são flores das que se apanham no chão dos jardins dos outros, são flores básicas, daquelas que qualquer menino sabe desenhar na inocência branca da folha da escola. Trá-las em punhado, ensolarando a mão. Trá-las assim: apertadas, como se ali se escondesse o futuro, apertado, ele também.
Não tem nome. A menina da minha história não tem nome. Nem idade. Nem mais nada. Tem, ao colo, um menino que lhe chama
- mãe.
Mãe é o nome da menina da minha história. Deixou os sonhos floridos de rosas vermelhas, no dia em que acreditou na ilusão de um amor menino que lhe oferecia um ursinho de peluche no dia dos namorados.
Traz flores brancas na mão. E ri. Como se a vida fosse de rir. Há-de fingir que vai para a festa. Há-de falar ao menino e dizer-lhe,
- meu amor,
como se isso fosse o bastante, como se as flores da festa fossem para eles, como se
Venha. Vamos deixá-los acreditar que amanhã ainda vai ser melhor, porque amanhã. Só por isso. Por ser amanhã.
Escolha a sua flor. Já escolhi a minha. Ponha-a na lapela, ou no cabelo ou no peito. Deixe que ela perfume a sua vida.
Ouça a música que a natureza lhe oferece. É para si. Ouça-a. Deixe-se ser feliz. A cidade tem um beijo escondido para lhe dar. Aceite-o, por si, por mim, pela esperança que o riso da menina da minha história nos traz.
Deixe-se ir. Olhe para cada sorriso que se cruza com o seu. Sorria também. Talvez assim a dor fique mais branda. Talvez assim a primavera amanheça neste maio que arde no peito como se fosse Emaús, como se os caminhos não estivessem despidos de passos, como se o dinheiro ainda desse até ao fim do mês, como se
A rir, como se a vida fosse só isso – rir – duas crianças. A mais velha tem flores na mão. São flores pobres daquelas que não se compram nas floristas, são flores das que se apanham no chão dos jardins dos outros, são flores básicas, daquelas que qualquer menino sabe desenhar na inocência branca da folha da escola. Trá-las em punhado, ensolarando a mão. Trá-las assim: apertadas, como se ali se escondesse o futuro, apertado, ele também.
Não tem nome. A menina da minha história não tem nome. Nem idade. Nem mais nada. Tem, ao colo, um menino que lhe chama
- mãe.
Mãe é o nome da menina da minha história. Deixou os sonhos floridos de rosas vermelhas, no dia em que acreditou na ilusão de um amor menino que lhe oferecia um ursinho de peluche no dia dos namorados.
Traz flores brancas na mão. E ri. Como se a vida fosse de rir. Há-de fingir que vai para a festa. Há-de falar ao menino e dizer-lhe,
- meu amor,
como se isso fosse o bastante, como se as flores da festa fossem para eles, como se
Venha. Vamos deixá-los acreditar que amanhã ainda vai ser melhor, porque amanhã. Só por isso. Por ser amanhã.
Escolha a sua flor. Já escolhi a minha. Ponha-a na lapela, ou no cabelo ou no peito. Deixe que ela perfume a sua vida.
Ouça a música que a natureza lhe oferece. É para si. Ouça-a. Deixe-se ser feliz. A cidade tem um beijo escondido para lhe dar. Aceite-o, por si, por mim, pela esperança que o riso da menina da minha história nos traz.
terça-feira, 3 de maio de 2011
ÀS MÃES. À MINHA
Há um lugar no coração dos homens que tem a forma de colo. Redondo. Quase uterino. É feito do amor das mães, muito maior do que se escreve na tatuagem do braço, porque desenhado a fogo na vida da gente.
Nesse lugar, ficam guardados os beijos que beberam as nossas lágrimas, acalmaram as nossas dores, calaram os nossos gritos e refrescaram as nossas testas. Esse lugar foi a semente do que somos: gente com ternura dentro.
Abrigámos lá os nossos sonhos-meninos, depositámos lá as nossas esperanças, escondemos lá as desilusões e arquitetámos o futuro no mundo que os olhos delas nos mostravam.
Desse lugar, partimos à procura do sul, do sol e do sal, porque foi lá que nasceu para nós, só para nós, o calor, a alegria e a vontade. Porque é lá que os anjos dormem, enredados nas contas que as mães desfiam por nós. Ali, Deus colocou a semente da força, num berço – braço – abraço que nos embala no silêncio das nossas vigílias. Um aconchego, ora andorinha, ora papoila, ora folha caída no chão, nunca geada.
No coração dos homens mora o que fica das mães, depois que elas se vão embora: o segredo dos sorrisos, a ternura das mãos, o calor infinito do abraço. Nesse lugar, somos eternamente meninos, eternamente amados, eternamente filhos.
O retrato das mães fica sempre descoberto nesse lugar que Deus criou no coração dos homens. Imenso. Doce. É que Deus inventou as mães para nos explicar o amor. E elas, generosas, aceitaram a missão.
É assim com todas as mães. Com a minha.
Nesse lugar, ficam guardados os beijos que beberam as nossas lágrimas, acalmaram as nossas dores, calaram os nossos gritos e refrescaram as nossas testas. Esse lugar foi a semente do que somos: gente com ternura dentro.
Abrigámos lá os nossos sonhos-meninos, depositámos lá as nossas esperanças, escondemos lá as desilusões e arquitetámos o futuro no mundo que os olhos delas nos mostravam.
Desse lugar, partimos à procura do sul, do sol e do sal, porque foi lá que nasceu para nós, só para nós, o calor, a alegria e a vontade. Porque é lá que os anjos dormem, enredados nas contas que as mães desfiam por nós. Ali, Deus colocou a semente da força, num berço – braço – abraço que nos embala no silêncio das nossas vigílias. Um aconchego, ora andorinha, ora papoila, ora folha caída no chão, nunca geada.
No coração dos homens mora o que fica das mães, depois que elas se vão embora: o segredo dos sorrisos, a ternura das mãos, o calor infinito do abraço. Nesse lugar, somos eternamente meninos, eternamente amados, eternamente filhos.
O retrato das mães fica sempre descoberto nesse lugar que Deus criou no coração dos homens. Imenso. Doce. É que Deus inventou as mães para nos explicar o amor. E elas, generosas, aceitaram a missão.
É assim com todas as mães. Com a minha.
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