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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

POR CAUSA DO AMOR

“Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante…”
Saint-Exupéry, O Principezinho
Falamos de amor. Dizemos
- amo-te
e envolvemos as palavras em corações de giz, enfeitamo-las com rosas vermelhas sempre em botão, cobrimo-las de chocolate e pomos-lhe uma fita à volta.
Escrevemos “amor” nas esquinas da nossa juventude e acreditamos que basta que as mãos se encontrem e os lábios desenhem, baixinho, juras de fidelidade eterna. Fazemo-lo, olhando o mar que explode em espumas no corpo das rochas. Fazemo-lo, bebendo as estrelas que penduram alegrias na noite. Fazemo-lo, no aconchego – concha dos braços que nos protegem do frio.
Pensamos “amor” e dizemos “nós” como se o futuro fosse simples, fosse apenas a soma de eu+tu, assim, como se não houvesse mais nada, como se mais nada fosse preciso, como se isso bastasse.
Sentimos “amor”, porque amor é palavra de se sentir. Tem vida e sofrimento colados a cada sílaba. Porque compromisso. Porque entrega. Porque disponibilidade. Porque para o outro.
Talvez Deus tenha oferecido as asas ao Amor. Talvez este Valentim que o mundo festeja e que tem asas também, signifique mais do que um dia. Talvez seja o tempo [porque o tempo também tem asas] de levar a sério cada olhar que se derrama noutro, cada mão que se encontra e se enlaça e se entrelaça, cada abraço que mistura dois corações e os fazem bater em coro. Talvez seja a hora [porque a vida é um instante] de entender que quem ama transfere a sua felicidade para a felicidade do outro.
Lembram-se da rosa d’O Principezinho? Foi preciso regá-la, tratar dela, protegê-la. Foi preciso dar-lhe espaço para crescer por si. Foi preciso matar as lagartas que ameaçavam as folhas novas que despontavam do chão. Foi preciso pensar nela como se ela fosse aquilo que de mais importante havia no mundo.
É assim o amor. Tal como a rosa, passa a precisar de outro coração para ajudar o seu a bater.
“- Sou responsável pela minha rosa… - repetiu o Principezinho, para nunca mais se esquecer”.
Agora, sim: uma flor, um chocolate, o mar, o pôr-do-sol. A vida tem uma fita à volta. O futuro, também. Um presente para quem se ama.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Dia Mundial do Doente - Oração


Senhor,
sinto-Te aqui, à beira da minha cama, segurando as minhas mãos, limpando as minhas lágrimas, aconchegando-me os lençóis, quando a solidão quer deitar-se comigo. Tenho sentido, também, aqui comigo, a Tua Mãe que me tem velado o sono e aquecido o peito. Sei que lhe pediste que ficasse à minha cabeceira, para me ajudar a lutar contra o medo.
Sei que conheces esta angústia que, às vezes, entra no meu quarto sem bater à porta. Sei que entendes esta dificuldade que tenho em depender de outras mãos, em precisar de outros braços – abraços , de olhar para a parede branca e não ver nela senão uma parede branca.
Por isso, meu Amigo, fica comigo esta noite. Porque a noite é feita de um tempo que não passa e que dói de imobilidade. Manda a manhã acordar mais cedo e trazer um bocadinho da vida que já nasceu lá fora. Pede ao sol que se levante e me aqueça o quarto, só um bocadinho.
Olha para a pequenez do meu corpo encolhido pela doença. Olha para a minha fragilidade. Toma a minha dor nas Tuas mãos. Ajuda-me a levar a cruz que se derramou na minha vida e a saber encarar a escuridão com o sorriso que as estrelas me ensinaram a desenhar, quando eu era pequena.
Fica comigo. Faz-me entender o significado deste sofrimento que, hoje, me dói no corpo e na alma. Segura a minha vida e não permitas que me perca de mim, da minha esperança. Não me deixes cair na tentação de obedecer ao abismo que me puxa e me traz aos olhos este mar que me salga as palavras.
Cuida dos que cuidam de mim. Abençoa as suas vidas. Agradece-lhes, por mim, cada momento que me oferecem, cada sorriso que me dá confiança, cada palavra, cada gesto, cada silêncio. Dá-me coragem para vencer este cansaço e força para continuar a sorrir.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

No Hospital

Deixe a luz acesa. Talvez as noites fiquem menos escuras e o medo não doa tanto na cama do hospital.
Deixe a porta encostada. Talvez a solidão se escape pela fresta e os barulhos da vida entrem mais cedo na enfermaria.
Fique mais um bocadinho. Assim: a aquecer a frieza da mão que se apaga sobre os lençóis imaculadamente engomados, cruelmente brancos. Conte do mundo, dos carros que engolem as estradas, da pressa de fazer as coisas, dos miúdos que vão bem na escola, do frio que faz tremer as madrugadas, dos próximos capítulos da novela. Fale do mar e das marés e dos segredos que as ondas dizem à praia, quando a cidade se cala e se prepara para dormir. Diga que vai haver futuro, que o sol vai voltar a aquecer os ossos cansados da mesma posição, que a alegria vai chegar porque, quem hoje está aqui, amanhã [o mais tardar, para a semana), vai voltar para casa.
Olhe para eles – são médicos, enfermeiros e cuidadores. Trazem a esperança presa à brancura da bata; prescrevem possibilidades em cada remédio, emprestam uma bengala em cada palavra e, em cada olhar, uma nova razão para não morrer.
Vê a mão de Deus atrás das deles? Talvez nem eles A vejam. Mas Ela está lá, no carinho que oferecem a quem sofre, aconchegando quem não se levanta, na ternura com que compõem o cabelo de quem o tem colado à almofada, no beijo, no olhar que fixa o aparelho que ajuda a viver, na mão que ajuda a partir.
Fique mais um bocadinho. Quem está no hospital precisa muito de si, da sua atenção, da voz da vida que se colou à sua voz, da saúde que o seu corpo traz, do seu silêncio, da sua força.
Tem de se ir embora? Está bem. Volta amanhã?
Não se importa de deixar a luz acesa? E, por favor, deixe também a porta entreaberta. Pode ser que assim a dor doa menos e a noite pareça mais curta.
Muito obrigada por ter vindo. Até amanhã.