Às vezes, acontece: a Festa não coincide com o Natal. E, nesta altura, quando a dor chega, dói mais fundo e o sol demora mais tempo a aparecer.
Às vezes, parece que a alegria da rua ofende as tristezas de dentro de casa. As luzes queimam os olhos que se fazem maré por estes dias. A música perturba os silêncios dos lutos que se choram e se guardam no Natal, também no Natal.
Há casas onde A Festa se vai atrasar. E não será fácil, eu sei. Nunca disse que ia ser fácil ouvir o Glória dos Anjos e chorar, ser Natal e ver o chão a abrir-se, olhar para a estrela e vê-la a apagar-se, mudando o nome da noite e chamando-lhe medo e solidão.
Hoje, gostava que as minhas palavras tivessem algum valor e se revestissem de um pouco de ânimo. Gostava de dizer que, mesmo que, este ano, a Festa se atrase um bocadinho, o Menino Jesus há-de trazer coragem, a Senhora há-de embalar as nossas dores no aconchego do seu manto, S. José há-de cuidar de nós, os pastores hão-de pôr-se a caminho do lugar onde mora a felicidade, a estrela há-de voltar a incendiar o nosso riso.
Se soubesse, escrevia, hoje, palavras de abraço; pendurava um pouco da minha Festa nas árvores que vão ficar vazias este ano; ensinava a ouvir o silêncio que cura e a fixar o olhar na meiguice doce do Menino; mostrava a melhor forma de construir os presépios que vão ficar sem nada.
Se soubesse, escrevia “Amanhã” e enchia a palavra de “vai ser melhor do que hoje”; escrevia “alívio” e a dor doía um bocadinho menos; escrevia “sol” e o nevoeiro derretia-se nas linhas que me sobrassem; escrevia “paz” e uma ternura branca e branda curaria as feridas de quem está a sofrer este Natal.
Não disse que ia ser fácil, não. A Festa vai chegar. Talvez venha este ano um pouco atrasada. Mas, enquanto a dor não passa, vamos deixando que os sinos abram clareiras de Natal na noite de cada um.
Às vezes, acontece: a Festa atrasa-se um bocadinho, mas o Natal acontece na nossa vida, se o deixarmos acontecer.
in Jm 12/12/10