Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta ilha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ilha. Mostrar todas as mensagens

sábado, 3 de setembro de 2011

Cronica de Lanzarote


Todas as ilhas são especiais. Concentram em si todos os elementos – o fogo do vulcão, a força da terra, os ventos brumosos de outros lugares e a vastidão azul do oceano. As ilhas têm um valor sacral, como se guardassem o mundo inteiro e nos aproximassem mais do universo.
Um ilhéu vive no mar. E isso dá-lhe a ilusão de ser marinheiro e andar, livre, num mundo que se abre todas as manhãs às portas da praia. Talvez por isso, as ilhas me atraem tanto. Talvez por isso também, quando posso, vou à procura de ilhas-irmãs, de lugares que, como o meu, me mostrem miniaturas do mundo, numa espécie de puzzle que vou montando na minha inteligência e que vai ajudando a desenhar os contornos do meu entendimento da vida.
Cada ilha tem uma cor diferente. Porque veste a cor do espírito que a habita. A minha, por exemplo, é verde e tem água a correr-lhe nas veias. É iluminada de flores e de sol e tem a alegria do bailinho e o perfume do vinho e a arquitetura dos vimes e a delicadeza dos bordados. Fez-se mulher muito depressa a minha ilha. E cresceu. Depressa, também.
Este ano, conheci outra, com cores negras de lava e fogo. É um lugar mágico, onde a terra se abre no chão e se percorrem os caminhos que o vulcão desenhou. É um lugar onde a mão do homem se deixou guiar pela mão da natureza e deixou que Deus fizesse o resto. É a ilha de Manrique temperada com as palavras de Saramago. É a pedra-magma que de tão negra parece azul [como diria Baudelaire]. É o mar ali ao pé. E os ventos alísios. E o sossego. E o redondo das videiras, enterradas no chão.
Voltei, agora para casa. Trago os olhos mais cheios de mundo. Mais quentes, talvez. Mais conscientes também da possibilidade de ser dos outros sem perdermos a nossa identidade.
Lanzarote recebe o mundo. Como nós. Mas soube preservar a sua personalidade. A alma do vulcão ainda queima na ilha. Derrama-se no orgulho nas casas baixas e caiadas, nas madeiras verdes e azuis, na luz dos lagos subterrâneos, nos pés de aloé que curam as dores, no sol que, todos os dias a faz sorrir.
Este ano, acrescentei esta ilha ao meu arquipélago interior e agradeci a Deus porque vivi para a conhecer.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Povo Marinheiro

A bordo da ilha, navego pela vida à procura de novos horizontes. Sou marinheiro do tempo e vou dobrando os Bojadores, na ilusão de encontrar a felicidade que se esconde atrás da linha azul do oceano.
Se a brisa é branda, tenho saudades do vento que me despenteia o cabelo; se o vento é forte, as minhas mãos cansadas perdem a força de lutar. Se o sol me aquece a cabeça, tenho vontade de uma nuvem que me proteja da bebedeira de luz que me tolhe a vontade. Se a pele me seca, tenho saudades da chuva mas, se chove, tenho medo que a tempestade me faça perder o leme. Se o barco avança, não tenho tempo de apreciar o azul do céu e os gritos das gaivotas, mas quando a marcha é lenta, sinto que adio o mundo que me falta ver. E não sou feliz.
Salto, muitas vezes, no cais. E fico à espera de outras ilhas, perdidas também, à procura do que não têm. Somos muitas, dispersas por esse mar com saudades de um lugar que não existe, de um momento que já passou, de uma vontade impraticável.
Partilhamos, então, a nossa solidão. Falamos das nossas procuras, das nossas pressas de amanhã, da nossa fome de ir embora, das nossas marés, de nós. Temos as nossas ilhas amarradas no pontão. Passamos as cordas e fazemos com elas uma jangada.
A minha ilha torna-se passagem para outra ilha que é caminho para outra. Partilhamos quem somos: rocha ou areal, flor ou borboleta, brisa ou calor. Partilhamos o que sabemos: que os rios correm sempre para o mar, que as flores se enfeitam para o beijo do sol, que a noite se acende para que o luar a abrace, que as nuvens se encontram para conversar.
Nesses momentos, temos saudades de Deus. Dizem que Ele é a tal linha que divide o mar. Dizem que Ele guarda o segredo dos continentes. Dizem que é Lá que está a Felicidade. E vamos.
A bordo da Ilha, iço as velas. Levo as outras ilhas comigo. As outras ilhas levam-me consigo. E vamos, devagarinho, ao sabor da vida. Se a brisa é branda, ouvimos o silêncio. Se o vento é forte, não nos arrasta, porque não vamos sós.
Quando anoitece, lançamos as âncoras. Juntamo-nos na ilha maior, a do coração. Aconchegamo-nos à esperança e dizemos baixinho à ilha do lado,
- Cuida de mim!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

da ilha e de mim


Quando me sento na boca do vulcão, olho para dentro da ilha. O seu ventre de fogo e magma guarda os segredos da força que rasga a terra em partos de verde. É daqui que caseio o mundo. Cada ponto do meu bordado esconde as raízes que me prendem a este lugar. Bordo a minha vida, embalada pelas palavras do vento que vem do chão onde me plantei.
Conta-me histórias antigas de lágrimas do céu que caíram em chuva e afogaram o fogo do princípio dos tempos. Fala-me de homens que vieram do mar e desbravaram os gritos calados da floresta. Fala-me da bravura das mãos que abriram rugas na terra e subiram as encostas e construíram as casas no abraço das vides. Fala-me do arrepio das paredes da serra, quando a água escorre em cascatas, riscando os montes de branco.
Derramo o bordado sobre o colo. Calo o bater do meu peito para ouvir o silêncio da ilha. E olho para o horizonte, porta de entrada de gente, porta de saída de sonhos. Está lá o mar, a abraçar de azul e futuro a minha vida. Há mais mundo para além da praia. Muito mais.
Agora, deixo falar as marés. E elas contam de um mar branco de açúcar, enfunando as velas das caravelas. Contam de regressos e de desenhos sagrados da Flandres, guardados em arcas e depositados na beira do vulcão. Falam de saques de piratas, de fomes e de lutos. Falam de um tempo que já não é, porque as gaivotas o levaram.
Estou sentada na boca do vulcão, mesmo à porta do mar. E sei que viver aqui é ter o mundo dentro de mim e tê-lo também a meus pés, imenso, à minha espera.
Tenho o bordado no colo, os olhos no horizonte. Da varanda da ilha, vejo a vida. Do alto do Monte, a Senhora sorri. E eu sou feliz.

terça-feira, 30 de março de 2010

O(S) PARTO(S) DA ILHA

O céu derramou-se em estrondos líquidos sobre a cidade. Na manhã desse dia 20, rebentaram as águas à terra e a montanha pariu o desamparo num leito de dor e de morte.
A água, feiticeira, desceu a serra, invadiu as casas e as almas, marcou de sangue o que antes era verde e sereno e feliz. Um instante. Uma eternidade.
De joelhos, a ilha entregava ao mar os restos do parto da terra. De joelhos, lutava para não morrer. De joelhos, pedia à chuva que parasse, ao vento que se calasse e ao tempo que deixasse de ser infinito. Um instante. Uma eternidade.
Foi um instante para que as sirenes se sobrepusessem ao grito das ribeiras e rasgassem a ilha. Foi então que as mãos se encontraram e a abraçaram. Foi então que as noites foram dias e a força dos braços trataram das dores, reanimaram os desencantos, restauraram a esperança. Uma eternidade. Um instante.
Um mês depois, a cidade espreguiça-se, devagar. A Primavera, envergonhada, vai acordando do medo. A minha terra também. E eu. Talvez seja, então, tempo de lembrar: que ninguém se esqueça das mãos. Nem do trabalho. Nem da coragem. Que ninguém se esqueça dos que não voltaram a casa. Nem dos que, à procura de alguma coisa, se tornaram húmus desta terra, grávida outra vez. Que ninguém se esqueça dos que, com as mãos cheias de lama, limparam as lágrimas e acreditaram no milagre. Que ninguém se esqueça que a angústia dura um instante. Uma eternidade. Exactamente como a felicidade. Como a morte. Como a vida.
Há um mês, os olhos da ilha choraram no mundo inteiro. Hoje, o mundo inteiro tomou a ilha nos seus braços e ajudou a levantá-la do chão. Connosco dentro. Com a serra, imponente outra vez, a olhar o céu. Com o mar a querer ser de novo azul e porta aberta de entrada.
Há um mês, rebentaram as águas à terra. Hoje, rebentam flores nos beirais da lama.
Há um mês, a manhã do dia 20 anoiteceu. Hoje, a manhã é quase amanhã. Porque futuro. Porque luz. Porque a ilha está grávida, de novo. Mas, desta vez, as andorinhas já anunciaram que o parto será feliz. As janelas estão abertas. O sol já vem.