E pronto. O dia de Natal acabou: levantou-se a mesa, arrumou-se os presentes, guardou-se a louça da festa, apagou-se a lareira e o que ela implica de gente à volta. De repente, escondeu-se o abraço e perdeu-se a alegria, no meio dos papéis de embrulho que sobraram.
Já se voltou ao trabalho, às contas, à correria da cidade. Os olhos lambem, gulosos, os saldos que as lojas anunciam. Os sinos calaram-se, um pouco assustados com as bombas que prepararam o fim do ano. Os meninos já espalharam os brinquedos pelo chão da sala, porque os brinquedos só têm interesse no momento em que os laços são arrancados e lhes dão a ilusão de que são felizes porque têm tudo o que pediram.
O que ficou, então? As roupas que, afinal, não são o que pareciam nos manequins das montras? As sobras da comida que se deita fora, a pensar na fome dos outros? O buraco que fica no ar quando as gargalhadas se calam? O eco azul das vozes dos anjos que já não há tempo de ouvir? A cabeleira verde das searinhas que é preciso aparar?
Dentro de nós, talvez tivesse ficado o cheiro das tangerinas que importámos da nossa meninice, o brilho doce das purpurinas coladas ao tapete, o som das palmas do Menino acabadinho de nascer, o calor do beijo da mãe,
- Boas festas, meu amor!
que se guarda para sempre, junto do silêncio protector do pai.
Ficou o momento cristalizado do abraço que se segue ao presente que custou tanto a comprar, a lágrima que deslizou para a mão do doente que alguém velou no hospital, o beijo na mão de quem estendeu o prato de sopa a quem ficou só, neste Natal.
E agora? A verdade é que a lapinha ainda está montada, as luzes ainda rasgam de cores a noite das ruas, o tempo ainda cheira a perfume. Portanto, a proposta é guardar o Natal dentro de nós, naquele sítio onde se guarda o que é bom, onde se deposita a esperança e o sorriso gaiato de quem acredita no futuro. Depois, quando os dias de luz acabarem, vamos ao fundo do peito buscar o que falta: a ternura do Menino, o aconchego da Mãe, a serenidade do Pai, a alegria dos pastores, a paz dos anjos.
Preciso de si, agora. Ajude-me, por favor, a não deixar morrer o Natal. Conto consigo!
- Boas Festas!