Setembro era enorme. Já tínhamos a pele cansada do sol e a Barreirinha já tinha perdido o interesse do princípio. No intervalo da nossa ansiedade, tínhamos as festas, as vindimas, os pés azuis do lagar, as tardes na Gulbenkian, as conversas no quintal.
Às vezes, sentávamo-nos nos portais a fazer projectos de ano novo: professores novos, colegas diferentes, uma vontade de crescer.
Era um mês de futuro, Setembro. Porque tudo era novo: o corte do cabelo, a roupa para o primeiro dia de escola, o cheiro dos livros, as folhas coladas dos cadernos e, se o ano tivesse sido razoável, uma pasta nova para nos dar confiança e atrair notas boas.
A mãe forrava os livros na mesa da cozinha, ao serão, depois do jantar (O plástico [não aderente] protegia-os das mãos sujas da manteiga da merenda.) sob o nosso olhar atento. Desse gesto cuidadoso parecia depender o sucesso do ano lectivo.
Líamos os textos do livro de Português, na ânsia [antiga] de conhecer histórias novas
(- tem cuidado com as folhas. Lavaste as mãos?)
e espreitávamos o estojo e abríamos os cadernos
1ª período
e deixávamo-nos levar pelas ilustrações e pela novidade.
Olhávamo-nos ao espelho a espreitar as mudanças – cresceste tanto, estas férias! – na ânsia de sermos grandes.
Setembro era um mês estranho: ao mesmo tempo que queríamos que as férias se despachassem e que a escola abrisse, tínhamos pena de perder as aventuras que imitávamos dos Cinco e dos Sete e de deixar ouvir a campainha para o desafio,
- vamos brincar?
Tínhamos tão pouco e não precisávamos de nada. Éramos uns dos outros nessa altura.
Já não se vêem miúdos na minha rua. Estão presos ao computador a viver vidas que não são suas. Já não conhecem o cheiro de Setembro: um cheiro a uvas vindimadas e a livros por estrear. Já não têm sonhos para partilhar com os amigos e já não fazem projectos para as brincadeiras dos recreios.
Agora, Setembro passa depressa. Como a vida. E não temos tempo para nada. Servimo-nos, então das lembranças – memórias boas de um tempo em que tínhamos o futuro ao alcance das nossas mãos.
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segunda-feira, 12 de setembro de 2011
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
ANO NOVO
O toque para a primeira aula arruma os passos em direcção às salas. O tempo é de ir. E ir, nestes primeiros dias, tem sabor de coisas novas aprendidas na esperança de que este será um ano bom.
Há muito que se prepara este começo. E o resto. Setembro é o mês de sonhar as aulas no papel, é o mês de procurar as soluções para os problemas que se adivinham, é o mês de desenhar as estratégias do ano escolar.
As escolas estão prontas. Ou quase. Desenha-se a vontade nos tampos das mesas. Preparam-se os discursos de abertura, pendurando a crise nas palavras. Talvez falte o dinheiro para fotocópias. Talvez ainda não seja este ano que as novas tecnologias sejam parte efectiva do material escolar. Talvez se tenha de ressuscitar o quadro e o giz branco e de cor que marcaram o nosso tempo. Talvez se tenha de reinventar o valor das palavras velhas que falavam de trabalho, de deveres, de livros.
O professor já chegou. Tem um nome. Tem uma história de vida para contar. Não quer calar as palavras no silêncio porque sabe quem já foi: saber, pilar, abraço. Hoje, sabe que, nas suas mãos, guarda o futuro. Às vezes, tem medo. Outras, grava no peito o orgulho de ser quem é: veículo de saber, de saber-fazer, de saber-ser.
Já tocou. Os alunos povoam as salas. O exame de Junho tem de começar a ser preparado a partir do primeiro toque do primeiro dia. É preciso voltar a acreditar no valor da escola, reconhecer o significado maiúsculo da palavra que as férias adormeceram no colo: Trabalho.
Já tocou. O professor apresenta-se. Os alunos também. Marcam no mapa os mesmos caminhos. Têm de saber o nome uns dos outros. Têm de respeitar o lugar uns dos outros. Têm de amar o tempo em que estão juntos, porque o tempo é de estar.
A Escola sorri. Os pátios humanizam-se.
Conheço bem esta ansiedade. Muito bem. E peço, na pequenez dos meus desejos, que, este ano, em todas as escolas, professores, alunos, encarregados de educação e toda a comunidade trabalhem juntos, no sentido de acordar a esperança de um País que anda demasiado triste para sonhar.
Por favor, que os professores nunca desistam de lutar, que os alunos ponham, de novo, a escola na moda, que os pais participem da vida que há-de ser de todos, amanhã. E que ninguém, em nenhum momento deste ano, fique perplexo sem saber o que fazer do seu abraço.
Um bom ano lectivo!
Há muito que se prepara este começo. E o resto. Setembro é o mês de sonhar as aulas no papel, é o mês de procurar as soluções para os problemas que se adivinham, é o mês de desenhar as estratégias do ano escolar.
As escolas estão prontas. Ou quase. Desenha-se a vontade nos tampos das mesas. Preparam-se os discursos de abertura, pendurando a crise nas palavras. Talvez falte o dinheiro para fotocópias. Talvez ainda não seja este ano que as novas tecnologias sejam parte efectiva do material escolar. Talvez se tenha de ressuscitar o quadro e o giz branco e de cor que marcaram o nosso tempo. Talvez se tenha de reinventar o valor das palavras velhas que falavam de trabalho, de deveres, de livros.
O professor já chegou. Tem um nome. Tem uma história de vida para contar. Não quer calar as palavras no silêncio porque sabe quem já foi: saber, pilar, abraço. Hoje, sabe que, nas suas mãos, guarda o futuro. Às vezes, tem medo. Outras, grava no peito o orgulho de ser quem é: veículo de saber, de saber-fazer, de saber-ser.
Já tocou. Os alunos povoam as salas. O exame de Junho tem de começar a ser preparado a partir do primeiro toque do primeiro dia. É preciso voltar a acreditar no valor da escola, reconhecer o significado maiúsculo da palavra que as férias adormeceram no colo: Trabalho.
Já tocou. O professor apresenta-se. Os alunos também. Marcam no mapa os mesmos caminhos. Têm de saber o nome uns dos outros. Têm de respeitar o lugar uns dos outros. Têm de amar o tempo em que estão juntos, porque o tempo é de estar.
A Escola sorri. Os pátios humanizam-se.
Conheço bem esta ansiedade. Muito bem. E peço, na pequenez dos meus desejos, que, este ano, em todas as escolas, professores, alunos, encarregados de educação e toda a comunidade trabalhem juntos, no sentido de acordar a esperança de um País que anda demasiado triste para sonhar.
Por favor, que os professores nunca desistam de lutar, que os alunos ponham, de novo, a escola na moda, que os pais participem da vida que há-de ser de todos, amanhã. E que ninguém, em nenhum momento deste ano, fique perplexo sem saber o que fazer do seu abraço.
Um bom ano lectivo!
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