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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Uma sopa ou um abraço?

Um prato de sopa pode calar a fome, um abraço alimenta a vida. Falo assim, saciada de sopa e de abraços, no calor de uma lareira que me aquece o inverno. Falo da sensação de não estar só e poder falar de mim e dos meus sonhos e poder ouvir dos outros e das suas vontades. Falo assim porque a vida me tem oferecido o dom da amizade, o milagre de poder partilhar o que tenho e o que sou.
- Está bem, eu conto.
Imaginem a serra despida no frio. Imaginem uma casa no meio da floresta. Uma lareira. Uma panela ao lume. Imaginem o cheiro da sopa de trigo, sempre que alguém a impede de pegar no fundo,
- Vê o sal.
Imaginem um copo de qualquer coisa a animar a gargalhada, a fatia de pão que se corta e que se passa, na intimidade de quem divide a vida.
- Para enxugar.
Imaginem as mãos geladas que a tigela aquece, as que serviram o vinho, as que passaram o pão,
- Queres que te leve alguma coisa?,
as mesmas mãos que, um dia, limparam as lágrimas, ampararam a queda e seguraram as fraquezas.
Imaginem as conversas, no redondo das cadeiras, na confluência dos pés, no aconchego do estalar da lenha. Imaginem uma viola a mandar calar o vento que, lá fora, despenteia as árvores do quintal. E as vozes, às vezes embargadas pelas dores de cada um. E as palmas que encobrem quem desafina ou quem se esquece da letra a meio da canção.
Imaginem a força que se bebe num encontro de amigos, dos que sabem respeitar as ausências, dos que sabem a importância dos silêncios, dos que se apresentam quando é preciso, dos que estão quando é preciso estar.
E é tão fácil! Basta a vontade. Basta uma panela de sopa temperada com a alegria de quem se quer bem. Basta a capacidade de ser de alguém, na generosidade de quem tem abraços para dividir.
E pronto. A memória guarda o momento. O coração vai buscá-lo quando for preciso. Então, o lume mantém-se mais tempo aceso na lareira, o trigo da sopa faz-se pão e a vida fica muito mais feliz.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Povo Marinheiro

A bordo da ilha, navego pela vida à procura de novos horizontes. Sou marinheiro do tempo e vou dobrando os Bojadores, na ilusão de encontrar a felicidade que se esconde atrás da linha azul do oceano.
Se a brisa é branda, tenho saudades do vento que me despenteia o cabelo; se o vento é forte, as minhas mãos cansadas perdem a força de lutar. Se o sol me aquece a cabeça, tenho vontade de uma nuvem que me proteja da bebedeira de luz que me tolhe a vontade. Se a pele me seca, tenho saudades da chuva mas, se chove, tenho medo que a tempestade me faça perder o leme. Se o barco avança, não tenho tempo de apreciar o azul do céu e os gritos das gaivotas, mas quando a marcha é lenta, sinto que adio o mundo que me falta ver. E não sou feliz.
Salto, muitas vezes, no cais. E fico à espera de outras ilhas, perdidas também, à procura do que não têm. Somos muitas, dispersas por esse mar com saudades de um lugar que não existe, de um momento que já passou, de uma vontade impraticável.
Partilhamos, então, a nossa solidão. Falamos das nossas procuras, das nossas pressas de amanhã, da nossa fome de ir embora, das nossas marés, de nós. Temos as nossas ilhas amarradas no pontão. Passamos as cordas e fazemos com elas uma jangada.
A minha ilha torna-se passagem para outra ilha que é caminho para outra. Partilhamos quem somos: rocha ou areal, flor ou borboleta, brisa ou calor. Partilhamos o que sabemos: que os rios correm sempre para o mar, que as flores se enfeitam para o beijo do sol, que a noite se acende para que o luar a abrace, que as nuvens se encontram para conversar.
Nesses momentos, temos saudades de Deus. Dizem que Ele é a tal linha que divide o mar. Dizem que Ele guarda o segredo dos continentes. Dizem que é Lá que está a Felicidade. E vamos.
A bordo da Ilha, iço as velas. Levo as outras ilhas comigo. As outras ilhas levam-me consigo. E vamos, devagarinho, ao sabor da vida. Se a brisa é branda, ouvimos o silêncio. Se o vento é forte, não nos arrasta, porque não vamos sós.
Quando anoitece, lançamos as âncoras. Juntamo-nos na ilha maior, a do coração. Aconchegamo-nos à esperança e dizemos baixinho à ilha do lado,
- Cuida de mim!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Vamos plantr a saudade?

Os olhos da ilha estão postos no mar. Os nossos também. Esticamos o nosso horizonte até à saudade. E percorremos a vida até chegarmos ao lugar exacto onde o tempo nos separou de alguém e fechou portas que, um dia, estavam abertas.
Um anjo sobrevoa o nosso olhar. Traz-nos gargalhadas penduradas nas asas, histórias antigas, canções de embalar. Traz-nos lembranças de Deus e da alegria de uma festa que já se arrumou nas caixas e se guardou no fundo do armário.
Temos saudade, sim. A nossa história ensinou-nos a definir as ausências, a acreditar nos regressos, a gerir os sentimentos que ficam no cais, quando o barco se afasta e os olhos chovem sobre o silêncio.
Temos saudades de quem já não está, do que já não se vive, do que já não se pode sentir. Temos pena de não ter aproveitado mais cada momento, cada beijo, cada aperto de mão, cada palavra que enfeitou o desespero, cada sorriso, cada manhã.
Os meus olhos sentaram-se, hoje, ao balcão e olharam a distância como se fossem os olhos da ilha. E perceberam como é bom isto da saudade, esta dor que não magoa, porque feita de amor, porque feita de beijos que a vida nos dá e nos permite ir buscar quando o mar é apenas água salgada.
E resolvi que havia de plantar saudades. Posso precisar delas qualquer dia. Posso precisar de sentir quanto valeu a pena viver a minha vida. Já temos o terreno – o coração. Falta apenas fazer a sementeira. Precisamos de sorrisos, de palavras boas, de gestos, de abraços. Precisamos de amigos, de amor, de entrega. Precisamos do sopro de Deus que os outros nos oferecem. Precisamos de coragem.
Esta semana, vamos plantar a saudade. Fazer da vida um milagre. Abrir as portas de ser feliz. Esta será uma semana para guardar na memória. Um dia, podemos vir a precisar dela, naqueles dias em que a poesia não se senta à mesa connosco e os olhos, debruçados no mirante, não conseguem ouvir a canção do mar.

sábado, 15 de janeiro de 2011

O FIM DA FESTA


Apagaram-se as luzes. De repente, a noite ficou mais noite e a cidade mais triste. Fica sempre no ar esta nostalgia, quando a Festa se quer ir embora, antes de se acabarem os jantares, as
- continuações!
ainda vestidas de janeiro e o varrer dos restos No Santo Amaro.
As lojas já guardaram o que sobrou e fazem saldos do que já não faz falta para este ano. Na minha casa, a lapinha ainda está montada, a árvore ainda me pinta os serões de saudades, os sinos ainda tocam, nos montes de papel pintado que a humidade fez descair.
Os Reis vieram, cantaram e regressaram às suas terras, levando com eles o cantar das janeiras, a alegria do ano novo, as broas e os licores que ainda havia nos armários. Voltámos à vida real, ao tempo quase sem tempo para se viver.
Os olhos do espelho perguntaram por mim. Queriam saber se os meus olhos tinham uma luz diferente. Os meus olhos responderam que não, que está tudo igual, que o meu mendigo continua na mesma esquina, com a mão estendida e o olhar cansado, que os meus braços continuam à procura de abraços, que não tive roupas novas para vestir as minhas palavras, que não quero desmanchar o presépio que comecei a construir dentro de mim.
Os olhos do espelho fixaram os meus. Queriam saber o que eles mostravam: se abismo, se medo, se esperança. Os meus olhos disseram que sim, que tinham aprendido a sobrevoar o medo e a olhar a escuridão, com a esperança do Menino que tinha adormecido no berço do meu olhar. Os olhos do espelho mostraram aos meus que, afinal, ainda havia muita coisa para fazer, antes de dar por terminada a Festa do Natal.
Lá fora, os colares das árvores e as gargantilhas das ribeiras já perderam o brilho, mas os olhos do espelho querem continuar a brilhar. Têm lá dentro a alegria. Guardam os sonhos brancos de Deus. Guardam a vontade de ser feliz. Guardam o silêncio das ruas que, dentro deles, se quer travestir de paz.

sábado, 8 de janeiro de 2011

SOBRE PALAVRAS

Deixem falar as palavras. Deixem-nas pousar no lugar certo, como se fossem borboletas à procura do sol. Há asas no corpo branco das sílabas que se aconchegam a outras sílabas para dizerem de si e do que significam.
Embrulhem as palavras no silêncio. Dêem-lhes espaço para serem voz e doçura e poema. Há lágrimas cristalizadas no vazio que as palavras não dizem. Segredos. Amanhãs por acordar. Mistérios.
Sintam o gosto feliz das palavras novas: esperança, coragem, alegria. As palavras desenham começos nas manhãs: são voos de liberdade, sol no chão preto e branco da calçada, luz derramada dos telhados. As palavras são abraços.
Deixem que elas se vistam com a sabedoria que o tempo lhes conferiu. Cada palavra guarda a alma do que significam – amor, amigo, saudade, gargalhada.
Agarrem o poder das palavras. Com elas se beija e se mata. Com elas se acolhe e se maltrata. Com elas se chama a vida, porque são elas que dão nome às coisas e às pessoas e a Deus que “no princípio era o Verbo” (Jo.1, 1-3).
Por elas se recebe o mundo e a felicidade. E se entrega o que temos, o que somos, o que queremos ser.
Deixem falar as palavras: as vossas e as de quem vos escuta. Descubram a poesia que dorme atrás do que não se diz.
Deixo-vos as duas primeiras:
-bom dia.
Contem, depois, quantos sorrisos conseguiram abrir.
[Não sentiram que a manhã ficou mais bonita?]
O resto é convosco.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

JANEIRO

Janeiro é o mês primeiro, o alicerce do resto que o ano há-de trazer. Por isso, vou falar de chão: de pedra ou de areia, de flores ou de cacos, mas chão.
Não pensei nisso quando olhei para o céu e o vi rebentar em cores, desenhando nos meus olhos os sonhos, os desejos e os projectos. Não pensei nisto quando senti os abraços de quem amo, de quem me ama, de quem continua por aqui, comigo.
Penso nisto agora que a vida recomeçou e que cada passo que dou me lembra que este é o tempo de começar de novo, de preparar o que me falta de vida para viver.
Por isso, chão: de rocha firme ou de pântano, campo seguro ou areal efémero.
Janeiro é a terra onde nascem as resoluções para o sempre: deixar de fumar, começar a dieta, marcar o ginásio, ir ao médico, poupar um bocadinho mais.
É o mês-chão onde se planta o futuro: ter cuidado com as pedras que a boca atira, chamar o silêncio para aplacar as tempestades, beber o sol e embebedar-se de luz, dizer que sim, que se precisa de mãos, que se quer um abraço, que se acredita, que se vai ter coragem para procurar a felicidade.
Escrevo chão, hoje. E nele ponho a vontade de fazer um ano bom. Escrevo chão e lanço nele as sementes das minhas palavras, o luar das minhas noites, o beijo das minhas solidões.
Escrevo chão porque é janeiro. Nele construo a nossa casa. Nele abraço a vida e espero. Nele quero ser feliz.