Número total de visualizações de página

sábado, 27 de novembro de 2010

Sobre a noite


É preciso acender uma lua redonda na noite deste céu. É preciso abrir buracos de luz no areal imenso do desespero. É preciso voltar a sentir o beijo do mar na orla da praia. É preciso plantar a esperança no que resta das cinzas da montanha que, apesar da raiva do lume, continua de cabeça levantada.
Andamos tão tristes, nas vésperas deste Natal! Estamos asfixiados no medo do futuro, na precariedade do trabalho, no vazio da carteira, na incapacidade de olhar o sol de frente, na (quase) impossibilidade de acreditar que, um dia, voltaremos a ser pessoas felizes.
Hoje, a minha voz quer ser um grito. Porque é urgente que se fale do milagre de acordar cada manhã, que se revele o segredo dos sorrisos, das gargalhadas, dos abraços, da amizade, que se ensine a pendurar gambiarras de alegria nas varandas das nossas casas.
Hoje, a minha voz quer ser um prado onde o olhar descanse na cama verde do chão ou um mar azul-coragem que lembre partidas e regressos, vontades e amanhãs. A minha voz quer ser o que não há: esperança, esperança, esperança.
A minha voz quer ser. Isso, simplesmente: voz. Dar vida às palavras que têm alma dentro: amor, solidariedade, justiça, verdade. A minha voz quer falar da Vida que nasce em cada momento e que, tantas vezes, se esconde atrás do que não vale a pena. Porque é urgente falar da vida.
Hoje, a minha voz é a voz de quem ainda acredita que é possível – que há-de ser possível! – voltar a acender a lua, uma lua redonda, na noite deste céu.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O MEU AMIGO

Abre-me o mundo num sorriso. Traz-me, cada dia, uma história nova, feita de pedaços de memória que vai regando com versos soltos de poetas que nunca li. Traz-me um tempo que eu nunca conheci, porque nunca precisei de trabalhar para ajudar a pagar a renda, nem de fugir de casa quando a chuva ameaçava romper o telhado, nas noites sem lua de invernos antigos.
Fala-me de outros homens que não tiveram tempo de ser meninos, de crescer no vagar que os rapazes precisam, para saber de que matéria é feita a vida. Fala-me da impossibilidade de seguir o caminho que o sonho lhe pedia, o de ser doutor. Fala-me dos livros que aprendeu a amar no impossível de os ler. Fala.
Sorri. O seu sorriso ilumina a minha tristeza. Nasceu no tempo da guerra. Lembra-se da fome e do medo de querer mais um bocado de pão. Lembra-se da vergonha que sentia, quando os buracos dos sapatos o impediam de se ajoelhar na igreja. Lembra-se de querer mais, muito para além da tipografia onde trabalhava, dos recados que fazia e do dinheiro que entregava à mãe no final da semana. Lembra-se do rol da venda,
- para a semana, vizinho, ponha na conta, por favor.
Fala muito, o meu amigo. E sorri. Como se a vida não o tivesse impedido de ter sido criança, de jogar à bola com os amigos, no caminho, de ir à escola e aprender a ser doutor. Como no sonho. O impossível.
- Estes rapazes não entendem. Tiveram tudo. Não sabem o que custa ser homem, lutar pelas coisas.
Sabe da vida, o meu amigo. E sorri. O seu sorriso faz-me pensar em tudo o que tenho e que não dependeu do meu esforço. Conta-me que os seus filhos são o que ele nunca pôde ser: doutores. E o orgulho do seu olhar derrama luz na nossa conversa. Fala-me deles e da casa que construiu e que é sua, porque amassou a areia com suor, sangue e algumas lágrimas. Fala-me do futuro e do medo dele.
- Nunca fui menino, nunca brinquei com carrinhos de lata, não estudei, não fui doutor, mas aprendi que a vida tem muito mais valor assim. Porque os miúdos de agora têm tudo, mas não têm nada.
O meu amigo tem, em cada manhã, uma história nova. E sorri. Tem a juventude que não viveu a iluminar-lhe os olhos que se acendem debaixo dos cabelos brancos.

domingo, 21 de novembro de 2010

Balada [ao que partiu daqui]

Podes vir, sem medo. Aqui, nesta casa de pedra, há lugar para ti. Temos a mesa posta e o coração pronto para um abraço, aquele que levaste contigo, quando bateste a porta, engoliste as lágrimas e foste à procura de mundo.
Podes vir. A ilha nunca mais foi a mesma na tua ausência. Nem nós. Andamos mais velhos, mais sós. Andamos mais longe de nós. As nossas mãos seguram o vazio que tem a forma oca das tuas. As nossas pernas prendem-se cada vez mais ao chão, árvores desertas de verde. Os nossos olhos estão presos ao balcão donde vigiamos o horizonte.
Podes vir, sem medo das palavras. Nem dos silêncios. Nem dos intervalos entre as palavras e os silêncios. Quando nos avistares, as aves hão-de ensinar-te a melodia para a palavra que esperamos:
-voltei.
Quando chegares, o vento há-de pendurar nas ramagens o perfume do perdão, da alegria, dos sorrisos que guardámos no fundo das arcas para o momento de voltar a ver os teus olhos, líquidos de mar. A saudade. Então, as marés hão-de deixar escritas no calhau, com a renda branca da espuma, a esperança de um tempo novo.
Quando chegares, a terra há-de ficar grávida de Primavera, mesmo que seja Outono. As andorinhas hão-de regressar sem medo do Inverno e cartografar o nosso futuro, no céu da nossa esperança. Vamos acender os balões de S. João nas parreiras castanhas de Novembro. E vamos ser felizes. Outra vez.
Podes vir, sem medo de chorar. Temos a mesa posta e o coração pronto.
Estamos à tua espera.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

SOBRE OS POETAS

Às vezes, as palavras queimam. Abrem lumes de prata na negrura da impossibilidade de as dizer. São lua que se derrete no mar. Luz. Música. Silêncio líquido.
Nasce, então, a poesia: poeira lírica do céu que a mão frágil do poeta semeia. Ousadia, talvez.
O poeta tem palavras enredadas nos dedos: rosários de amores e desencantos, de medos e de esperanças. Com elas, adoça a vida, escreve o mundo e partilha imagens como quem conta um segredo.
O poeta tem beijos na voz. E desenha com eles mapas de sentidos num tempo que não conta. Azul. Divinamente azul. Tecidos com fios de luz, bordados com o arrepio que o vento acende nas paredes dos olhos.
O poeta encanta a noite. Como Oriana, a fada boa da Sophia que, um dia, se esqueceu de si para se dar aos outros. Asas. O poeta tem asas na voz. Música. As palavras do poeta rezam na dança dos sons, na paz branca que deixam cair no silêncio das folhas.
O poeta é irmão dos seus irmãos de humanidade. Ama-os, na generosidade da sua entrega. Dá-se, na alegria de abrir o peito e de mostrar a luz que transmuta em palavras. Faz delas razão de ser quem é: artífice, grito, silêncio, mundo e vazio, tempo e eternidade, ilha e universo.

domingo, 7 de novembro de 2010

AMIGOS


Não preciso de dizer quem fala porque eles conhecem a minha voz, o tom da minha voz, a alegria ou a angústia que não preciso de dizer.
Não preciso de pedir que fiquem ao pé de mim, quando o mundo desmaia no meu peito e não tenho nenhum lugar para onde fugir.
Não preciso de procurar um lenço para que as suas mãos me enxuguem as lágrimas e me aqueçam a tristeza para que ela seja menos triste.
Falo de amigos, portanto. Dos que têm um bocado da minha alma dentro da deles. Dos que ficam comigo, nos momentos em que todos os outros têm mais que fazer. Dos que riem comigo, choram comigo, seguram as minhas mãos e me dizem que a vida vale sempre a pena. Dos que me ensinam a redefinir o caminho e me ajudam a usar as pedras do chão para fazer delas, degraus. Dos que me ligam apenas porque tinham saudades minhas. Dos que me ajudam a escrever a vida, todos os dias.
Falo dos que me iluminam as manhãs e as tardes e os silêncios que as noites sem anjos escurecem. Falo dos que têm tempo para mim, para me ouvir, para estar comigo, apenas para isso: ficar.
E falo de mim. Do nada que seria a minha vida sem amigos. Da solidão dos meus dias sem abraços. Do medo da noite sem luares. Da tristeza.
Não falo do facebook, não. Não falo da contabilidade dos que me visitam nos sítios da net. Não falo dos que se sentam ao meu lado no autocarro e conversam comigo sobre o tempo, sobre a crise, sobre a falta de valores, sobre qualquer coisa.
Falo de gente, dos poucos que partilham os meus sonhos, dos que me contam os seus, dos que não têm medo do que eu vá pensar se me disserem a verdade, dos que deixam que eu faça parte das suas vidas, dos que não têm medo do silêncio quando não há palavras para dizer.
Falo de nós. E guardo neste pronome todos os nomes. Ponho-lhe um coração à volta. Peço a Deus que os guarde, no para sempre que durar as nossas vidas.