Quando a noite se enrola nos nossos dedos e o luar apaga o que resta de luz, olhamos para o Céu, à procura das estrelas. Mas, às vezes, os nossos olhos têm uma cortina de bruma e não vemos nada. Absolutamente nada. São as sextas-feiras (ora santas , ora não) das nossas vidas: tempo de angústia e de dúvidas, tempo de solidões e de lágrimas; tempo de deserto e de vazios. Nesses dias, a cruz rasga os restos dos véus dos nossos templos. Implacável. Como se nada fizesse sentido.
Mas há um Homem abraçado à nossa Cruz. Quando damos conta da Sua presença, a dor fica mais branda e o rasgo do ar fica com a forma de um sorriso. Há-de ser o Sorriso Iluminado de Deus que aquece o nosso frio.
Aos poucos, a nossa cruz vai tomando a forma de um abraço e vai guardando o rio dos nossos olhos dentro do peito. O peito da cruz tem a forma de um coração. O coração do Homem está agarrado à nossa cruz. E segura nela como se o Seu coração fosse o colo da nossa mãe. É feito da essência do amor.
O silêncio faz-se grito, então. É um Aleluia florido de sinos, doce de amêndoas de chocolate, perfeito, tão perfeito que não cabe dentro da nossa alegria. Há vozes de mulheres iluminadas de vida que passam a palavra: Ressuscitou! Há esperança. Afinal, há espaço para a esperança dentro do nosso sofrimento.
É domingo. De manhã. Primavera. Há um anjo sentado à nossa espera. As asas cobrem o nosso medo. A nossa dor está em cacos, no chão, enrodilhada nas ligaduras. A morte também. Em pó.
E o mar abriu-se para nos deixar passar. As nossas cruzes servem de bordão. Somos muitos. É Páscoa. Deixámos a solidão no chão das três da tarde.
O Homem da Cruz afinal era Deus.
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sábado, 23 de abril de 2011
domingo, 17 de abril de 2011
A SEMANA MAIOR
O tempo tem asas. A vida passa a correr, entre o sol e o trabalho, deixando-nos as mãos cheias de coisa nenhuma. E estamos na Páscoa, outra vez. E, outra vez também, só temos um punhado de amêndoas na algibeira e a vontade do mar e do sono do feriado da sexta-feira.
Mas o tempo pousa. E uma voz antiga lembra-nos do tempo em que, por estes dias, não se podia varrer, não se vestia vermelho e íamos à igreja e participávamos de um Mistério que fascinava o nosso coração-menino.
Vamos lá, outra vez. Vamo-nos sentar à mesa e deixar que o Dono da Ceia nos lave os pés cansados de andar. Vamos comer e beber do que Ele nos oferece e participar dessa Vida que é para nós. Vamos usar dessa alegria sóbria da Quinta-Feira , porque sabemos o que vem a seguir, porque conhecemos o preço do amor. Terá a forma de cruz, no dia seguinte. Um Homem-Rei toma o patíbulo como trono. De braços abertos, nessa hora final das três da tarde, pede perdão por nós, promete-nos o Paraíso, entrega-nos a Mãe, sofre o abandono do Pai, bebe o vinagre da sede, cumpre, cumpre-se e entrega o Seu Espírito. Na Sexta-feira, sacerdote e templo unem-se na Cruz. Deus morreu. O resto é silêncio. Um silêncio dorido de morte. Calam-se os sinos. Os altares estão nus.
O Sábado acorda triste. Estamos vazios. Este é o dia da ausência. Um dia que só se levanta ao anoitecer, quando o fogo se acende, quando as luzes rompem a escuridão, quando a água renasce, pura, para libertar da escravidão, quando a Palavra rebenta a pedra do sepulcro, quando os sinos explodem, quando o Aleluia rasga a tristeza e a morte cai, derrotada, aos pés da Cruz.
Ouvimos, então, a voz do passado,
- Mãe, já se pode brincar?
E a mãe que sim. Porque é Domingo de Páscoa e os sinos enfeitam o ar que cheira a jasmins e a comida de forno. Porque a Vida ganhou a batalha. E a esperança. E a alegria.
Tínhamos um vestido às flores para estrear e uma fita de cetim a segurar o cabelo. E tínhamos a vida. E o tempo. E o mundo. Tudo o que se seguiria havia de ser bom: nem Deus estava morto, nem os pássaros tinham ficado sem voz. Afinal, ainda havia esperança.
Mas o tempo pousa. E uma voz antiga lembra-nos do tempo em que, por estes dias, não se podia varrer, não se vestia vermelho e íamos à igreja e participávamos de um Mistério que fascinava o nosso coração-menino.
Vamos lá, outra vez. Vamo-nos sentar à mesa e deixar que o Dono da Ceia nos lave os pés cansados de andar. Vamos comer e beber do que Ele nos oferece e participar dessa Vida que é para nós. Vamos usar dessa alegria sóbria da Quinta-Feira , porque sabemos o que vem a seguir, porque conhecemos o preço do amor. Terá a forma de cruz, no dia seguinte. Um Homem-Rei toma o patíbulo como trono. De braços abertos, nessa hora final das três da tarde, pede perdão por nós, promete-nos o Paraíso, entrega-nos a Mãe, sofre o abandono do Pai, bebe o vinagre da sede, cumpre, cumpre-se e entrega o Seu Espírito. Na Sexta-feira, sacerdote e templo unem-se na Cruz. Deus morreu. O resto é silêncio. Um silêncio dorido de morte. Calam-se os sinos. Os altares estão nus.
O Sábado acorda triste. Estamos vazios. Este é o dia da ausência. Um dia que só se levanta ao anoitecer, quando o fogo se acende, quando as luzes rompem a escuridão, quando a água renasce, pura, para libertar da escravidão, quando a Palavra rebenta a pedra do sepulcro, quando os sinos explodem, quando o Aleluia rasga a tristeza e a morte cai, derrotada, aos pés da Cruz.
Ouvimos, então, a voz do passado,
- Mãe, já se pode brincar?
E a mãe que sim. Porque é Domingo de Páscoa e os sinos enfeitam o ar que cheira a jasmins e a comida de forno. Porque a Vida ganhou a batalha. E a esperança. E a alegria.
Tínhamos um vestido às flores para estrear e uma fita de cetim a segurar o cabelo. E tínhamos a vida. E o tempo. E o mundo. Tudo o que se seguiria havia de ser bom: nem Deus estava morto, nem os pássaros tinham ficado sem voz. Afinal, ainda havia esperança.
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