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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

ONTEM, HOJE, AMANHÃ

Ontem, a ilha era verde; hoje, os esqueletos pretos das árvores rasgam o céu, cinzento de tristeza.
Ontem, os caminhos subiam a montanha fazendo das copas, túneis de frescura; hoje, o cheiro a lume inunda os pulmões de quem está lá, de quem está longe, de quem acompanha as imagens pela televisão.
Ontem, Agosto era mês dos piqueniques na serra, do cheiro a eucaliptos e a gargalhadas; hoje, Agosto é o mês da terra em fogo, da bola vermelha a incendiar o céu, da noite a descer cedo, sob a manta das cinzas.
Ontem, falava-se da beleza das nossas escarpas, do azul transparente do nosso mar, da gentileza das gentes, da paisagem impressionista dos jardins; hoje, fala-se da luta contra o fogo, da destruição da floresta, da descaracterização da terra.
Ontem, foi a água; hoje é o fogo. O ar está pesado de folhas de eucaliptos moribundas, choradas das árvores. A terra está dramaticamente negra e queimada.
Ontem, as mãos ressuscitavam as árvores cansadas do tempo; hoje, as mesmas mãos e outras mãos regam a desgraça do que é de todos e que já não é de ninguém, porque o fogo engoliu.
Ontem, as mãos. Hoje, as mãos. Queimadas. Fortes. Cansadas. Desanimadas. Corajosas. Dadas. Postas.
Ontem, a luz; hoje, o lume.
Ontem, a luta; hoje, o medo.
Ontem, a vida; hoje, a morte.
Amanhã, talvez amanhã, talvez já amanhã, se recomece.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

da ilha e de mim


Quando me sento na boca do vulcão, olho para dentro da ilha. O seu ventre de fogo e magma guarda os segredos da força que rasga a terra em partos de verde. É daqui que caseio o mundo. Cada ponto do meu bordado esconde as raízes que me prendem a este lugar. Bordo a minha vida, embalada pelas palavras do vento que vem do chão onde me plantei.
Conta-me histórias antigas de lágrimas do céu que caíram em chuva e afogaram o fogo do princípio dos tempos. Fala-me de homens que vieram do mar e desbravaram os gritos calados da floresta. Fala-me da bravura das mãos que abriram rugas na terra e subiram as encostas e construíram as casas no abraço das vides. Fala-me do arrepio das paredes da serra, quando a água escorre em cascatas, riscando os montes de branco.
Derramo o bordado sobre o colo. Calo o bater do meu peito para ouvir o silêncio da ilha. E olho para o horizonte, porta de entrada de gente, porta de saída de sonhos. Está lá o mar, a abraçar de azul e futuro a minha vida. Há mais mundo para além da praia. Muito mais.
Agora, deixo falar as marés. E elas contam de um mar branco de açúcar, enfunando as velas das caravelas. Contam de regressos e de desenhos sagrados da Flandres, guardados em arcas e depositados na beira do vulcão. Falam de saques de piratas, de fomes e de lutos. Falam de um tempo que já não é, porque as gaivotas o levaram.
Estou sentada na boca do vulcão, mesmo à porta do mar. E sei que viver aqui é ter o mundo dentro de mim e tê-lo também a meus pés, imenso, à minha espera.
Tenho o bordado no colo, os olhos no horizonte. Da varanda da ilha, vejo a vida. Do alto do Monte, a Senhora sorri. E eu sou feliz.