Era uma luz de vitral, uma luz quase verde, quase dourada, uma luz de montanha acesa, a desenhar os picos contra o azul do céu.
Estava um silêncio de templo, um silêncio de beijo, um silêncio de folhas a estalar sob os nossos pés.
Levávamos a alegria no cesto, misturada na massa que se acamava no molho, regada no vinho com que brindámos à vida,
- a nós.
E o brinde era à saúde, era à esperança, era ao agora daquele domingo, era a esta coisa boa de estarmos juntos e podermos fazer um piquenique.
Levávamos a juventude de antes, agarrada na gargalhada e no canto dos pássaros e na fruta que espalhámos sobre a toalha aos quadrados de antigamente.
E fomos felizes. Porque a felicidade é assim, feita de coisas pequenas - do frio da água a correr na levada, do desenho de filigrana dos fetos, do recorte fofo dos líquenes, da terra solta do chão.
Voltámos ao tempo das omeletas escondidas no pão da véspera, voltámos a sentir a terra e o cheiro verde das árvores. Voltámos, por um dia, a ser miúdos e a escutar o ritmo dos nossos passos.
Tão simples, afinal, a alegria. Às vezes, cabe num cesto de piquenique. E na luz imensa da serra. E no sorriso. Em nós.
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domingo, 9 de outubro de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Uma sopa ou um abraço?
Um prato de sopa pode calar a fome, um abraço alimenta a vida. Falo assim, saciada de sopa e de abraços, no calor de uma lareira que me aquece o inverno. Falo da sensação de não estar só e poder falar de mim e dos meus sonhos e poder ouvir dos outros e das suas vontades. Falo assim porque a vida me tem oferecido o dom da amizade, o milagre de poder partilhar o que tenho e o que sou.
- Está bem, eu conto.
Imaginem a serra despida no frio. Imaginem uma casa no meio da floresta. Uma lareira. Uma panela ao lume. Imaginem o cheiro da sopa de trigo, sempre que alguém a impede de pegar no fundo,
- Vê o sal.
Imaginem um copo de qualquer coisa a animar a gargalhada, a fatia de pão que se corta e que se passa, na intimidade de quem divide a vida.
- Para enxugar.
Imaginem as mãos geladas que a tigela aquece, as que serviram o vinho, as que passaram o pão,
- Queres que te leve alguma coisa?,
as mesmas mãos que, um dia, limparam as lágrimas, ampararam a queda e seguraram as fraquezas.
Imaginem as conversas, no redondo das cadeiras, na confluência dos pés, no aconchego do estalar da lenha. Imaginem uma viola a mandar calar o vento que, lá fora, despenteia as árvores do quintal. E as vozes, às vezes embargadas pelas dores de cada um. E as palmas que encobrem quem desafina ou quem se esquece da letra a meio da canção.
Imaginem a força que se bebe num encontro de amigos, dos que sabem respeitar as ausências, dos que sabem a importância dos silêncios, dos que se apresentam quando é preciso, dos que estão quando é preciso estar.
E é tão fácil! Basta a vontade. Basta uma panela de sopa temperada com a alegria de quem se quer bem. Basta a capacidade de ser de alguém, na generosidade de quem tem abraços para dividir.
E pronto. A memória guarda o momento. O coração vai buscá-lo quando for preciso. Então, o lume mantém-se mais tempo aceso na lareira, o trigo da sopa faz-se pão e a vida fica muito mais feliz.
- Está bem, eu conto.
Imaginem a serra despida no frio. Imaginem uma casa no meio da floresta. Uma lareira. Uma panela ao lume. Imaginem o cheiro da sopa de trigo, sempre que alguém a impede de pegar no fundo,
- Vê o sal.
Imaginem um copo de qualquer coisa a animar a gargalhada, a fatia de pão que se corta e que se passa, na intimidade de quem divide a vida.
- Para enxugar.
Imaginem as mãos geladas que a tigela aquece, as que serviram o vinho, as que passaram o pão,
- Queres que te leve alguma coisa?,
as mesmas mãos que, um dia, limparam as lágrimas, ampararam a queda e seguraram as fraquezas.
Imaginem as conversas, no redondo das cadeiras, na confluência dos pés, no aconchego do estalar da lenha. Imaginem uma viola a mandar calar o vento que, lá fora, despenteia as árvores do quintal. E as vozes, às vezes embargadas pelas dores de cada um. E as palmas que encobrem quem desafina ou quem se esquece da letra a meio da canção.
Imaginem a força que se bebe num encontro de amigos, dos que sabem respeitar as ausências, dos que sabem a importância dos silêncios, dos que se apresentam quando é preciso, dos que estão quando é preciso estar.
E é tão fácil! Basta a vontade. Basta uma panela de sopa temperada com a alegria de quem se quer bem. Basta a capacidade de ser de alguém, na generosidade de quem tem abraços para dividir.
E pronto. A memória guarda o momento. O coração vai buscá-lo quando for preciso. Então, o lume mantém-se mais tempo aceso na lareira, o trigo da sopa faz-se pão e a vida fica muito mais feliz.
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