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domingo, 10 de julho de 2011

NEGOCIOS


Hoje, sou eu que lhe empresto o meu sorriso. É pelas vezes que me emprestou o seu. Entrego-lhe aquilo que sei fazer e que é o melhor de mim. Em troca, peço-lhe que esteja comigo, na contemplação deste sol e deste mar que abraça esta ilha onde moramos e que nos habita, também.
Fazemos assim, esta semana: trocamos abraços por palavras. Eu conheço palavras doces: palavra amor, palavra amigo, palavra ficar. Trocamos sonhos antigos de futuros por segredos de um tempo bom em que nos bastava viver para ser feliz. Trocamos apertos de mão por esperança e ameixas amarelas por flores do campo.
Tenho silêncios pequeninos para troca. Preciso daquele Silêncio com voz de Deus, aquele que acende as noites mendigas de lua.
Preciso de frases brancas e metáforas novas. Dou em troca o trabalho das minhas mãos e a vontade de mudar alguma coisa, também dentro de mim.
Hoje, ofereço-lhe as minhas palavras. Faça-as suas, se isso lhe der jeito para completar a caderneta de cromos que é a vida. Precisamos uns dos outros. Todos. Uns têm os sentidos, outros os não-ditos; uns têm a ideia, outros a vontade; uns têm a esperança, outros a coragem; uns têm a música, outros os instrumentos.
Tenho alguns cromos repetidos. Faltam-me ainda muitos para completar a caderneta. E há uns raros… se alguém tiver…
Preciso de si, portanto. E das suas histórias. E das suas lembranças. E da verdade da sua leitura.
Entretanto, empresto-lhe o sorriso das minhas palavras. É pelas vezes que me sorriu. E me deu ânimo. E me abraçou.
Fico à espera. Tenho cromos para troca. Mas tenho, também, muitos quadradinhos da caderneta por completar.
Um abraço.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Uma sopa ou um abraço?

Um prato de sopa pode calar a fome, um abraço alimenta a vida. Falo assim, saciada de sopa e de abraços, no calor de uma lareira que me aquece o inverno. Falo da sensação de não estar só e poder falar de mim e dos meus sonhos e poder ouvir dos outros e das suas vontades. Falo assim porque a vida me tem oferecido o dom da amizade, o milagre de poder partilhar o que tenho e o que sou.
- Está bem, eu conto.
Imaginem a serra despida no frio. Imaginem uma casa no meio da floresta. Uma lareira. Uma panela ao lume. Imaginem o cheiro da sopa de trigo, sempre que alguém a impede de pegar no fundo,
- Vê o sal.
Imaginem um copo de qualquer coisa a animar a gargalhada, a fatia de pão que se corta e que se passa, na intimidade de quem divide a vida.
- Para enxugar.
Imaginem as mãos geladas que a tigela aquece, as que serviram o vinho, as que passaram o pão,
- Queres que te leve alguma coisa?,
as mesmas mãos que, um dia, limparam as lágrimas, ampararam a queda e seguraram as fraquezas.
Imaginem as conversas, no redondo das cadeiras, na confluência dos pés, no aconchego do estalar da lenha. Imaginem uma viola a mandar calar o vento que, lá fora, despenteia as árvores do quintal. E as vozes, às vezes embargadas pelas dores de cada um. E as palmas que encobrem quem desafina ou quem se esquece da letra a meio da canção.
Imaginem a força que se bebe num encontro de amigos, dos que sabem respeitar as ausências, dos que sabem a importância dos silêncios, dos que se apresentam quando é preciso, dos que estão quando é preciso estar.
E é tão fácil! Basta a vontade. Basta uma panela de sopa temperada com a alegria de quem se quer bem. Basta a capacidade de ser de alguém, na generosidade de quem tem abraços para dividir.
E pronto. A memória guarda o momento. O coração vai buscá-lo quando for preciso. Então, o lume mantém-se mais tempo aceso na lareira, o trigo da sopa faz-se pão e a vida fica muito mais feliz.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Vamos plantr a saudade?

Os olhos da ilha estão postos no mar. Os nossos também. Esticamos o nosso horizonte até à saudade. E percorremos a vida até chegarmos ao lugar exacto onde o tempo nos separou de alguém e fechou portas que, um dia, estavam abertas.
Um anjo sobrevoa o nosso olhar. Traz-nos gargalhadas penduradas nas asas, histórias antigas, canções de embalar. Traz-nos lembranças de Deus e da alegria de uma festa que já se arrumou nas caixas e se guardou no fundo do armário.
Temos saudade, sim. A nossa história ensinou-nos a definir as ausências, a acreditar nos regressos, a gerir os sentimentos que ficam no cais, quando o barco se afasta e os olhos chovem sobre o silêncio.
Temos saudades de quem já não está, do que já não se vive, do que já não se pode sentir. Temos pena de não ter aproveitado mais cada momento, cada beijo, cada aperto de mão, cada palavra que enfeitou o desespero, cada sorriso, cada manhã.
Os meus olhos sentaram-se, hoje, ao balcão e olharam a distância como se fossem os olhos da ilha. E perceberam como é bom isto da saudade, esta dor que não magoa, porque feita de amor, porque feita de beijos que a vida nos dá e nos permite ir buscar quando o mar é apenas água salgada.
E resolvi que havia de plantar saudades. Posso precisar delas qualquer dia. Posso precisar de sentir quanto valeu a pena viver a minha vida. Já temos o terreno – o coração. Falta apenas fazer a sementeira. Precisamos de sorrisos, de palavras boas, de gestos, de abraços. Precisamos de amigos, de amor, de entrega. Precisamos do sopro de Deus que os outros nos oferecem. Precisamos de coragem.
Esta semana, vamos plantar a saudade. Fazer da vida um milagre. Abrir as portas de ser feliz. Esta será uma semana para guardar na memória. Um dia, podemos vir a precisar dela, naqueles dias em que a poesia não se senta à mesa connosco e os olhos, debruçados no mirante, não conseguem ouvir a canção do mar.

domingo, 7 de novembro de 2010

AMIGOS


Não preciso de dizer quem fala porque eles conhecem a minha voz, o tom da minha voz, a alegria ou a angústia que não preciso de dizer.
Não preciso de pedir que fiquem ao pé de mim, quando o mundo desmaia no meu peito e não tenho nenhum lugar para onde fugir.
Não preciso de procurar um lenço para que as suas mãos me enxuguem as lágrimas e me aqueçam a tristeza para que ela seja menos triste.
Falo de amigos, portanto. Dos que têm um bocado da minha alma dentro da deles. Dos que ficam comigo, nos momentos em que todos os outros têm mais que fazer. Dos que riem comigo, choram comigo, seguram as minhas mãos e me dizem que a vida vale sempre a pena. Dos que me ensinam a redefinir o caminho e me ajudam a usar as pedras do chão para fazer delas, degraus. Dos que me ligam apenas porque tinham saudades minhas. Dos que me ajudam a escrever a vida, todos os dias.
Falo dos que me iluminam as manhãs e as tardes e os silêncios que as noites sem anjos escurecem. Falo dos que têm tempo para mim, para me ouvir, para estar comigo, apenas para isso: ficar.
E falo de mim. Do nada que seria a minha vida sem amigos. Da solidão dos meus dias sem abraços. Do medo da noite sem luares. Da tristeza.
Não falo do facebook, não. Não falo da contabilidade dos que me visitam nos sítios da net. Não falo dos que se sentam ao meu lado no autocarro e conversam comigo sobre o tempo, sobre a crise, sobre a falta de valores, sobre qualquer coisa.
Falo de gente, dos poucos que partilham os meus sonhos, dos que me contam os seus, dos que não têm medo do que eu vá pensar se me disserem a verdade, dos que deixam que eu faça parte das suas vidas, dos que não têm medo do silêncio quando não há palavras para dizer.
Falo de nós. E guardo neste pronome todos os nomes. Ponho-lhe um coração à volta. Peço a Deus que os guarde, no para sempre que durar as nossas vidas.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

PROJECTO PARA UM DIA DE VERÃO

O sol acorda a manhã que lava a cara no mar. A cidade levanta-se, no vagar das férias e procura ver o que não viu durante o ano: a brancura das casas que sobem a montanha, o remate branco do mar na orla da ilha, o bailado das gaivotas a namorar os beirais, o bordado a xadrez da calçada do chão.
E pensamos,
- vai ser hoje
porque o sol sorri lá em baixo no mar e temos mais tempo. Dentro de nós, fazemos a lista do que nos falta fazer: telefonar ao amigo que não vemos há muito tempo, visitar o que cala, sozinho, a sua solidão, sorrir para quem se cruza connosco no azul fresco das ruas.
Hoje, vamos dizer
- bom dia,
e obrigar quem leva os olhos no chão, a olhar para a nossa voz e a iluminar o seu olhar com a luz dos nosso.
Hoje, vamos criar clareiras de alegria. Vamos falar de esperança e de coragem. Vamos inventar tempo para ver, para escutar, para sentir o ar que nos sacode os cabelos. Vamos fazer a vida acontecer, como faz a natureza que explode em flores, rompendo a lama, iluminando a negrura das rochas, abrindo gargalhadas na dureza das coisas.
Hoje, vamos redescobrir o calor dos abraços. O Verão entra assim, dentro de nós, aconchegando o bater dos corações, um no outro. Vamos desfazer os abismos que nos separam. Vamos voltar a confiar no amigo, como dantes, como quando não tínhamos medo das traições ou das palavras que têm dois gumes e que cortam como se fossem facas.
Não custa nada: nem suor, nem dinheiro. Um instante, apenas. A eternidade guarda-se no silêncio de um abraço. Quando nos abraçamos, não somos dois nem estamos sós, somos felizes.
- Dá-me um abraço?
Então, será mesmo Verão. Mesmo que o sol não precise de ir ao mar lavar a cara, porque a chuva o molhou.