- Era uma vez.
Começou assim a minha história de amor: eu e os livros, eu e as florestas encantadas, eu e o tempo do
- foram felizes para sempre.
Cresci, assim, embalada no beijo que se seguia à história e me aconchegava o dia num sono reparador com mão de mãe:
- Dorme bem, meu amor.
E eu dormia. Porque os anjos e as fadas velavam os meus sonhos e impediam que as bruxas e os dragões me acordassem o medo. Depois, cresci. Os livros cresceram comigo e trouxeram – me as aventuras dos Cinco e dos Sete, os lanches que apeteciam comer, a liberdade de um mundo sem adultos, a alegria do dever cumprido.
Mas a vida (a minha vida, meus amigos) precisou de outras palavras, de outras histórias, de outros lugares, de descobertas de coisas reais. Percebi, então, que eu vivia dentro dos livros, que as histórias que eu lia eram as minhas histórias que alguém tinha passado a limpo. Lê-las era recebê-las de presente.
- É tua. Foi por ti que a escrevi.
Com os livros, ri e chorei. Foram eles que me aqueceram o peito quando a noite me encontrou triste ou cansada. Com eles, ouvi a música das palavras, fui à lua, olhei directamente para o sol e acreditei que a felicidade era possível.
A vida, porém, levou-me a guardar as fadas e os príncipes no fundo de mim. Escondi as palavras no baú do que fui. E fiquei mais só. Esqueci-me de que o lugar dos livros é no coração e que o tempo para ler é um tempo roubado ao tempo social de viver, de trabalhar, de estar na moda. Onde é que eu perdi aquela espécie de feitiçaria em que o escritor se encontrava comigo e éramos felizes?
Mas, a verdade é que, todos os dias, somos os protagonistas da nossa própria historia. Todos os dias, lemos e escrevemos a nossa vida. Mas, só nos livros, podemos escolher sonhar ou sofrer, partir ou ficar, voltar para trás, reler, saltar páginas, ou simplesmente, suspender a viagem.
Os livros querem morar dentro de nós. Querem construir connosco um amor para a vida. No silêncio que guardam as palavras. Na saudade do tempo em que o
- era uma vez
tinha voz de mãe ou de professora, voz de mel e de cerejas.
Eu gostava muito de tentar. Outra vez.
Ajudem-me, então, a acordar as fadas que dormem nos livros e que nos enfeitavam as noites de antigamente. Ajudem-me a restaurar as minhas asas para irmos, juntos, à floresta encantada das personagens de papel, à clareira onde se esconde o beijo com que o Príncipe acordou a Bela Adormecida. Preciso de gente de boa vontade. É urgente restaurar o sonho que se perdeu de nós numa das ruas da nossa vida.
(texto publicado na página da DRE- Baú de leitura)
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quarta-feira, 20 de maio de 2009
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Vamos acordar as fadas?
Não me perguntem porquê, mas a minha relação com os livros é (quase) uma história de amor. De amores, talvez. Um lugar de encontros e desencontros, de procuras e de descobertas, de memórias minhas que alguém passou a limpo e delas fez uma história que, no momento em que a leio, é minha.
Isto é assim desde que me lembro de mim, desde o tempo do
- era uma vez
que coroava os dias da minha meninice. Lembro-me ainda do beijo que se seguia ao
- e foram felizes para sempre,
um beijo que curava todos os males que as tropelias do dia tinha trazido. Todos.
Depois, cresci. E como todos os adolescentes, guardei as fadas e os príncipes no fundo de mim e fui à procura de outras coisas. Elas também estavam nos livros: a aventura, a liberdade, o amor, o desencanto. Com os livros, ri e chorei, descobri que havia muito mundo para além da minha janela, descobri o encantamento das palavras, percebi que não tenho de ter medos, porque o meu caminho já foi pisado por outros.
Só mais tarde percebi que o lugar dos livros é no coração. Uma espécie de feitiçaria em que o escritor e o leitor se encontram e são felizes. A vida ensinou-me que os bons livros aquecem o peito quando a noite chega e nós estamos tristes. Os bons livros permitem que os nossos olhos ouçam as palavras e nos convidem a ir com elas, numa viagem em que se pode chegar perto do sol sem nos queimarmos ou roubar a lua, apenas pelo prazer de a guardar no bolso. Os bons livros escondem os beijos que não damos, as palavras que escondemos, a vida que gostaríamos de ter. Um dia. Qualquer dia.
Todos os dias somos os protagonistas da nossa própria historia. Todos os dias, lemos e escrevemos a nossa vida. Mas, só nos livros, podemos escolher sonhar ou sofrer, partir ou ficar, voltar para trás, reler, saltar páginas, ou simplesmente, suspender a viagem.
É por isso que me entristece saber que há gente que ainda não descobriu a magia de ler, gente que, simplesmente, matou as fadas que enfeitavam as noites de antigamente.
Os livros querem morar dentro de nós. Querem construir connosco um amor para a vida. No silêncio que guardam as palavras. Na saudade do tempo em que éramos felizes.
E mais: quando todos falham, quando os amigos se vão embora, quando as estrelas se apagam na noite, é lá que encontramos abrigo, porque é lá que dorme o beijo com que o Príncipe acordou a Bela Adormecida e os sonhos que desejam morar no corpo de quem tem coragem de aceitar o convite que um livro nos faz:
- Dança comigo esta dança?
Isto é assim desde que me lembro de mim, desde o tempo do
- era uma vez
que coroava os dias da minha meninice. Lembro-me ainda do beijo que se seguia ao
- e foram felizes para sempre,
um beijo que curava todos os males que as tropelias do dia tinha trazido. Todos.
Depois, cresci. E como todos os adolescentes, guardei as fadas e os príncipes no fundo de mim e fui à procura de outras coisas. Elas também estavam nos livros: a aventura, a liberdade, o amor, o desencanto. Com os livros, ri e chorei, descobri que havia muito mundo para além da minha janela, descobri o encantamento das palavras, percebi que não tenho de ter medos, porque o meu caminho já foi pisado por outros.
Só mais tarde percebi que o lugar dos livros é no coração. Uma espécie de feitiçaria em que o escritor e o leitor se encontram e são felizes. A vida ensinou-me que os bons livros aquecem o peito quando a noite chega e nós estamos tristes. Os bons livros permitem que os nossos olhos ouçam as palavras e nos convidem a ir com elas, numa viagem em que se pode chegar perto do sol sem nos queimarmos ou roubar a lua, apenas pelo prazer de a guardar no bolso. Os bons livros escondem os beijos que não damos, as palavras que escondemos, a vida que gostaríamos de ter. Um dia. Qualquer dia.
Todos os dias somos os protagonistas da nossa própria historia. Todos os dias, lemos e escrevemos a nossa vida. Mas, só nos livros, podemos escolher sonhar ou sofrer, partir ou ficar, voltar para trás, reler, saltar páginas, ou simplesmente, suspender a viagem.
É por isso que me entristece saber que há gente que ainda não descobriu a magia de ler, gente que, simplesmente, matou as fadas que enfeitavam as noites de antigamente.
Os livros querem morar dentro de nós. Querem construir connosco um amor para a vida. No silêncio que guardam as palavras. Na saudade do tempo em que éramos felizes.
E mais: quando todos falham, quando os amigos se vão embora, quando as estrelas se apagam na noite, é lá que encontramos abrigo, porque é lá que dorme o beijo com que o Príncipe acordou a Bela Adormecida e os sonhos que desejam morar no corpo de quem tem coragem de aceitar o convite que um livro nos faz:
- Dança comigo esta dança?
terça-feira, 21 de abril de 2009
Sobre o livro Leituras Soltas
Entro, primeiro, na taberna, apenas para fazer uma festa ao gato que, vindo do nada, se instalou na prateleira e dela fez um altar. Não bebo a esta hora. Quero embalar-me com a ternura da lenda que fez nascer a ilha, esta: uma lágrima, uma pérola e o fogo que a ilumina na noite de S. Silvestre, que esventra a terra e explode entre mar e céu, também dentro dos olhos de Carlo Fortuna.
Quando puder, hei-de parar para um café, numa esplanada da Ribeira Brava e rever Pedro, o engraxador, sombra de saudade de um tempo que já morreu.
E hei-de perguntar ao Pescador se precisa de ajuda, mesmo sabendo que ele me vai dizer que não, deslembrado de alegrias e afogando os olhos no mar.
Mas é Novembro em Lisboa. Eu estou dentro da solidão da cidade e procuro em vão a minha alma. Quero parar nas coisas paradas, ao frio e ficar por lá à espera de mim.
Sei então que as palavras de Florbela virão ter comigo. As dela e as de todos os poetas que são a minha vida: “Amo as pedras, os astros e o luar”.
Agora sim. Já posso mostrar as linhas das minhas mãos e deixar que a cigana me leia a sina. Sem medo.
Vou-me embora. Só me falta guardar as palavras na minha bolsa já cheia de tanto tudo. À pressa. Hei-de arrumá-la mais tarde. Tenho de ir tratar do Menino que a Rosairinha roubou, ir com o Agapito até a raiz quadrada da fantasia e abrir as gavetas para fazer ressuscitar as palavras.
Quando puder, hei-de parar para um café, numa esplanada da Ribeira Brava e rever Pedro, o engraxador, sombra de saudade de um tempo que já morreu.
E hei-de perguntar ao Pescador se precisa de ajuda, mesmo sabendo que ele me vai dizer que não, deslembrado de alegrias e afogando os olhos no mar.
Mas é Novembro em Lisboa. Eu estou dentro da solidão da cidade e procuro em vão a minha alma. Quero parar nas coisas paradas, ao frio e ficar por lá à espera de mim.
Sei então que as palavras de Florbela virão ter comigo. As dela e as de todos os poetas que são a minha vida: “Amo as pedras, os astros e o luar”.
Agora sim. Já posso mostrar as linhas das minhas mãos e deixar que a cigana me leia a sina. Sem medo.
Vou-me embora. Só me falta guardar as palavras na minha bolsa já cheia de tanto tudo. À pressa. Hei-de arrumá-la mais tarde. Tenho de ir tratar do Menino que a Rosairinha roubou, ir com o Agapito até a raiz quadrada da fantasia e abrir as gavetas para fazer ressuscitar as palavras.
domingo, 19 de abril de 2009
Um blogue, para quê?
Talvez porque os tempos mudaram e estamos cada vez mais sozinhos. Talvez porque este seja um lugar onde se pára para ouvir, porque se tem de parar. Talvez para partilhar.
Penso que vou por aí. Quero partilhar textos e impressões, primeiro com os colegas e, depois, talvez, com os alunos. Quero fazer deste lugar um sítio de livros lidos e por ler, de dúvidas e de certezas.
Penso que vou por aí. Quero partilhar textos e impressões, primeiro com os colegas e, depois, talvez, com os alunos. Quero fazer deste lugar um sítio de livros lidos e por ler, de dúvidas e de certezas.
quarta-feira, 18 de março de 2009
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