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sexta-feira, 23 de julho de 2010

PROJECTO PARA UM DIA DE VERÃO

O sol acorda a manhã que lava a cara no mar. A cidade levanta-se, no vagar das férias e procura ver o que não viu durante o ano: a brancura das casas que sobem a montanha, o remate branco do mar na orla da ilha, o bailado das gaivotas a namorar os beirais, o bordado a xadrez da calçada do chão.
E pensamos,
- vai ser hoje
porque o sol sorri lá em baixo no mar e temos mais tempo. Dentro de nós, fazemos a lista do que nos falta fazer: telefonar ao amigo que não vemos há muito tempo, visitar o que cala, sozinho, a sua solidão, sorrir para quem se cruza connosco no azul fresco das ruas.
Hoje, vamos dizer
- bom dia,
e obrigar quem leva os olhos no chão, a olhar para a nossa voz e a iluminar o seu olhar com a luz dos nosso.
Hoje, vamos criar clareiras de alegria. Vamos falar de esperança e de coragem. Vamos inventar tempo para ver, para escutar, para sentir o ar que nos sacode os cabelos. Vamos fazer a vida acontecer, como faz a natureza que explode em flores, rompendo a lama, iluminando a negrura das rochas, abrindo gargalhadas na dureza das coisas.
Hoje, vamos redescobrir o calor dos abraços. O Verão entra assim, dentro de nós, aconchegando o bater dos corações, um no outro. Vamos desfazer os abismos que nos separam. Vamos voltar a confiar no amigo, como dantes, como quando não tínhamos medo das traições ou das palavras que têm dois gumes e que cortam como se fossem facas.
Não custa nada: nem suor, nem dinheiro. Um instante, apenas. A eternidade guarda-se no silêncio de um abraço. Quando nos abraçamos, não somos dois nem estamos sós, somos felizes.
- Dá-me um abraço?
Então, será mesmo Verão. Mesmo que o sol não precise de ir ao mar lavar a cara, porque a chuva o molhou.

sábado, 26 de junho de 2010

FERIAS GRANDES


Dantes, quando Junho chegava ao fim, desenhávamos planos para os três meses de sol e de praia, de gargalhadas e de amigos. Sonhávamos com o momento de arrumar a pasta, de guardar os livros, de levantar as notas e de nos deslumbrarmos com essa liberdade que vinha a cavalo do Verão. Era o tempo das cerejas e dos balões pendurados nos quintais. Era o tempo dos dias grandes, das tardes anoitecidas a olhar para o mar, das aventuras planeadas, dos lanches estendidos sobre a toalha da nossa alegria.
Dantes, quando Junho chegava ao fim, dourávamos a pele sem medo do sol, embriagávamo-nos de juventude e éramos felizes.
Agora, não. Já não sabemos o gosto que a felicidade tinha na nossa boca quando o dia acordava e nós agradecíamos à vida a simples oferta de estarmos vivos e de termos saúde. Andamos à procura da alegria nos bolsos que se esvaziam, no fundo de um copo, num prato que já nã podemos comer, numa viagem que, afinal, ainda não havemos de fazer este ano.
E Junho está no fim. Exactamente igual a outros Junhos do tempo em que sabíamos viver. Vamos tentar?
Vamos deixar descansar o trabalho que nos tirou o sono durante este ano, as lutas que tivemos de ganhar para que não nos faltasse a coragem de acordar às segundas-feiras e dizer
- mais uma semana,
com vontade de que fosse sábado outra vez .
Vamos deixar que o tempo durma no baloiço do mar ou no segredo verde das montanhas. Vamos deixar que o sol nos beije a pele. Vamos voltar a abraçar quem se perdeu de nós. Vamos rir. Vamos ser felizes. Outra vez. Como dantes.