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sábado, 24 de setembro de 2011

as minhas memorias

(exposição de fotografias Madeira Shopping)
Empresta-me as tuas memórias. Esqueci as minhas, no virar da vida, entre o tempo e o nada, num (quase) silêncio de quem já fui.
Conta-me de ti e do amor que te tinha. Acende os meus olhos com a luz dos teus e faz-me lembrar do tempo em que éramos felizes e estávamos juntos e eu te falava da vida e do futuro e do sol que acorda a esperança em cada manhã.
Aperta-me a mão. Dá-lhe, de novo, a vontade de te acariciar o rosto, como se o teu rosto fosse o meu ninho, a coragem de limpar as tuas lágrimas, a habilidade de voltar a enfeitar de flores a tua mesa. Fala-me de do que as minhas mãos sabiam fazer, antes de me perder de mim. Explica-me como nos aconchegávamos no nosso abraço e nos deixávamos levar a galope no bater do nosso coração.
Empresta-me as tuas memórias, meu amor. Diz o meu nome baixinho. Chama-me, outra vez, mãe, pai, amigo, companheira. Mostra-me o mapa de nós. Pode ser que assim…
Constrói comigo a nossa casa, aquela onde fomos nós, na abrangência do que éramos, corpo, espírito, vontade, futuro. Escreve comigo o dia de ontem, a hora que acabou, o poema que não revimos, o romance que não terminámos, o livro que ficou marcado numa página do meio.
Toca a música daquele dia (qualquer um dos nossos dias), como se isso fosse o último canto dos pássaros. Traz-me a tua voz. Preciso dela para me ouvir. Há-de chegar; eu sei que há-de chegar.
Traz-me a mim. Lembra-me o nome que a minha mãe me deu. Lembra-me a forma dos sorrisos e dos sentires. Lembra-me de nós. E não me deixes cair na tentação de te esquecer.
Abraça-me. Só um bocadinho. Diz-me que me amas, mesmo assim.
Não me lembro do teu nome. Mas nunca, nunca me deixes esquecer que moras dentro de mim.
A minha memória és tu.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

carta de quem se esqueceu


Não me lembro do teu nome, mas conheço o amor que me tens. E isso basta para que eu fique em paz, sossegada pelo aconchego dos teus beijos, embalada por essa toada antiga que me deixa adormecer, sorrindo para os anjos.
Sou agora tua filha, quando me chamas,
-mãe,
e me abraças, na ternura do teu cuidado e no teu gesto suave de tratar de mim.
A tua mão doce-doce aveluda-me o corpo que não é meu, porque já não sei para que serve. E fico bem, menina, outra vez, num jogo de faz de conta que já não tem príncipes, nem princesas, nem dragões escondidos nos castelos das florestas.
Peço-te hoje ( sabendo que te peço o mundo!) que não desistas de mim e do meu amor antigo porque é um amor muito mais velho do que tu e te construiu como és.
Deixa-me ficar no teu colo. Assim. No contrário do que é natural. Guarda-me a dor de não saber o teu nome, ou a cor dos teus olhos, ou quem és e o que fazes na minha casa.
Garanto-te que nada (nem mesmo esta doença de esquecer) me fará esquecer cada olhar teu, cada abraço que me dás, cada palavra doce que inventas para me impedir de morrer.
Não me lembro o nome que te dei quando nasceste. Dentro de mim, chamas-te, apenas
- meu amor.
E, mesmo que não saiba pronunciar as palavras, lê nos meus olhos a minha gratidão.