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sábado, 18 de junho de 2011

rouxinois


Eles cantam para acordar o dia que acende, todos os dias, a luz à ilha. Por causa deles, as flores arranjam o cabelo e alimentam o lume colorido das fogueiras dos jardins. Por causa deles, os olhos das casas abrem cedo e espreguiçam os braços dos tapassóis para deixar entrar a vida que amanhece.
Ouça-os comigo. Só um bocadinho. Beba comigo cada nota do seu cantar, como se se tratasse de um refresco do céu. Há os rouxinóis das árvores e os outros, os de Deus, os que nos são enviados para encantar as manhãs, os que nos iluminam os instantes com sorrisos, os que nos seguram as mãos nas dores, os que nos aliviam o medo, os que conhecem as palavras que o coração precisa, os que vivem connosco a normalidade da vida e comungam das nossas horas, do nosso pão, dos nossos risos e das nossas lágrimas.
Temos de os escutar. Os rouxinóis têm asas na voz. Quando pousamos na melodia poética do seu canto, abrem-se as portas do mar e partimos com eles à procura da esperança. Vamos à descoberta das palavras-beijo que o seu canto nos inspira. Vamos e, neste ir, arrastamos possibilidades de futuro, de alegria, de regressos diferentes.
Está a ouvir? Os rouxinóis de Deus estão a cantar para si, agora. Esteja atento aos olhares, aos sorrisos, às palavras, aos silêncios. Os rouxinóis de Deus andam aí. Muitas vezes, só sentimos a sua falta quando eles se calam.
Deixe-se embalar pela música. Deixe-se ir. Deus inventou os rouxinóis para iluminar a sua vida.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

JANEIRO

Janeiro é o mês primeiro, o alicerce do resto que o ano há-de trazer. Por isso, vou falar de chão: de pedra ou de areia, de flores ou de cacos, mas chão.
Não pensei nisso quando olhei para o céu e o vi rebentar em cores, desenhando nos meus olhos os sonhos, os desejos e os projectos. Não pensei nisto quando senti os abraços de quem amo, de quem me ama, de quem continua por aqui, comigo.
Penso nisto agora que a vida recomeçou e que cada passo que dou me lembra que este é o tempo de começar de novo, de preparar o que me falta de vida para viver.
Por isso, chão: de rocha firme ou de pântano, campo seguro ou areal efémero.
Janeiro é a terra onde nascem as resoluções para o sempre: deixar de fumar, começar a dieta, marcar o ginásio, ir ao médico, poupar um bocadinho mais.
É o mês-chão onde se planta o futuro: ter cuidado com as pedras que a boca atira, chamar o silêncio para aplacar as tempestades, beber o sol e embebedar-se de luz, dizer que sim, que se precisa de mãos, que se quer um abraço, que se acredita, que se vai ter coragem para procurar a felicidade.
Escrevo chão, hoje. E nele ponho a vontade de fazer um ano bom. Escrevo chão e lanço nele as sementes das minhas palavras, o luar das minhas noites, o beijo das minhas solidões.
Escrevo chão porque é janeiro. Nele construo a nossa casa. Nele abraço a vida e espero. Nele quero ser feliz.

sábado, 27 de novembro de 2010

Sobre a noite


É preciso acender uma lua redonda na noite deste céu. É preciso abrir buracos de luz no areal imenso do desespero. É preciso voltar a sentir o beijo do mar na orla da praia. É preciso plantar a esperança no que resta das cinzas da montanha que, apesar da raiva do lume, continua de cabeça levantada.
Andamos tão tristes, nas vésperas deste Natal! Estamos asfixiados no medo do futuro, na precariedade do trabalho, no vazio da carteira, na incapacidade de olhar o sol de frente, na (quase) impossibilidade de acreditar que, um dia, voltaremos a ser pessoas felizes.
Hoje, a minha voz quer ser um grito. Porque é urgente que se fale do milagre de acordar cada manhã, que se revele o segredo dos sorrisos, das gargalhadas, dos abraços, da amizade, que se ensine a pendurar gambiarras de alegria nas varandas das nossas casas.
Hoje, a minha voz quer ser um prado onde o olhar descanse na cama verde do chão ou um mar azul-coragem que lembre partidas e regressos, vontades e amanhãs. A minha voz quer ser o que não há: esperança, esperança, esperança.
A minha voz quer ser. Isso, simplesmente: voz. Dar vida às palavras que têm alma dentro: amor, solidariedade, justiça, verdade. A minha voz quer falar da Vida que nasce em cada momento e que, tantas vezes, se esconde atrás do que não vale a pena. Porque é urgente falar da vida.
Hoje, a minha voz é a voz de quem ainda acredita que é possível – que há-de ser possível! – voltar a acender a lua, uma lua redonda, na noite deste céu.

terça-feira, 30 de março de 2010

O(S) PARTO(S) DA ILHA

O céu derramou-se em estrondos líquidos sobre a cidade. Na manhã desse dia 20, rebentaram as águas à terra e a montanha pariu o desamparo num leito de dor e de morte.
A água, feiticeira, desceu a serra, invadiu as casas e as almas, marcou de sangue o que antes era verde e sereno e feliz. Um instante. Uma eternidade.
De joelhos, a ilha entregava ao mar os restos do parto da terra. De joelhos, lutava para não morrer. De joelhos, pedia à chuva que parasse, ao vento que se calasse e ao tempo que deixasse de ser infinito. Um instante. Uma eternidade.
Foi um instante para que as sirenes se sobrepusessem ao grito das ribeiras e rasgassem a ilha. Foi então que as mãos se encontraram e a abraçaram. Foi então que as noites foram dias e a força dos braços trataram das dores, reanimaram os desencantos, restauraram a esperança. Uma eternidade. Um instante.
Um mês depois, a cidade espreguiça-se, devagar. A Primavera, envergonhada, vai acordando do medo. A minha terra também. E eu. Talvez seja, então, tempo de lembrar: que ninguém se esqueça das mãos. Nem do trabalho. Nem da coragem. Que ninguém se esqueça dos que não voltaram a casa. Nem dos que, à procura de alguma coisa, se tornaram húmus desta terra, grávida outra vez. Que ninguém se esqueça dos que, com as mãos cheias de lama, limparam as lágrimas e acreditaram no milagre. Que ninguém se esqueça que a angústia dura um instante. Uma eternidade. Exactamente como a felicidade. Como a morte. Como a vida.
Há um mês, os olhos da ilha choraram no mundo inteiro. Hoje, o mundo inteiro tomou a ilha nos seus braços e ajudou a levantá-la do chão. Connosco dentro. Com a serra, imponente outra vez, a olhar o céu. Com o mar a querer ser de novo azul e porta aberta de entrada.
Há um mês, rebentaram as águas à terra. Hoje, rebentam flores nos beirais da lama.
Há um mês, a manhã do dia 20 anoiteceu. Hoje, a manhã é quase amanhã. Porque futuro. Porque luz. Porque a ilha está grávida, de novo. Mas, desta vez, as andorinhas já anunciaram que o parto será feliz. As janelas estão abertas. O sol já vem.