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terça-feira, 20 de setembro de 2011

carta de quem se esqueceu


Não me lembro do teu nome, mas conheço o amor que me tens. E isso basta para que eu fique em paz, sossegada pelo aconchego dos teus beijos, embalada por essa toada antiga que me deixa adormecer, sorrindo para os anjos.
Sou agora tua filha, quando me chamas,
-mãe,
e me abraças, na ternura do teu cuidado e no teu gesto suave de tratar de mim.
A tua mão doce-doce aveluda-me o corpo que não é meu, porque já não sei para que serve. E fico bem, menina, outra vez, num jogo de faz de conta que já não tem príncipes, nem princesas, nem dragões escondidos nos castelos das florestas.
Peço-te hoje ( sabendo que te peço o mundo!) que não desistas de mim e do meu amor antigo porque é um amor muito mais velho do que tu e te construiu como és.
Deixa-me ficar no teu colo. Assim. No contrário do que é natural. Guarda-me a dor de não saber o teu nome, ou a cor dos teus olhos, ou quem és e o que fazes na minha casa.
Garanto-te que nada (nem mesmo esta doença de esquecer) me fará esquecer cada olhar teu, cada abraço que me dás, cada palavra doce que inventas para me impedir de morrer.
Não me lembro o nome que te dei quando nasceste. Dentro de mim, chamas-te, apenas
- meu amor.
E, mesmo que não saiba pronunciar as palavras, lê nos meus olhos a minha gratidão.

1 comentário:

  1. Para quem não conviveu 24 horas, durante alguns anos, com alguém que foi afetada por essa doença. Conseguiste, para além de descreveres a doença,tocar no coração de quem observou de perto a degradação da mente de alguém que era um ídolo.Até hoje,cara amiga, e já lá vão 7 anos, que pela primeira vez, li, aquilo que eu senti e sinto, aquando meu pai fora arrastado pela obscuridade do seu cérebro. Só, um ser como tu, com uma sensibilidade extraordinária, através das suas palavras ser capaz de mergulhar e trazer ao de cima,o sentimento de quem viveu momentos de angústia, por se sentir de mãos amarradas e nada poder fazer, a não ser, olhar e reviver o passado...

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