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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

quase na festa

Na vizinhança da Festa, arrumamos a vida. Limpamos a casa que somos e descobrimos o que fomos guardando ao longo do tempo: flores secas, datas gravadas em livros amarelos, postais do tempo em que ainda íamos ao correio, cartas de remetentes que já não o são, fotografias antigas, sonhos misturados com as contas que talvez ainda estejam por pagar.
Abrimos as janelas que dão para o lado do mar. É então que o vento norte nos conta notícias dos que já não se vão sentar à mesa deste Natal e nos diz que sim, que estão bem, que têm saudades. O mar inunda, então, os nossos olhos, falando-nos de glórias antigas, de um tempo azul de felicidade em que tudo era possível e não havia tempestades a impedir a viagem.
Agora, nas imediações da Festa, acendemos as estrelas para nos iluminarem o caminho, abrimos intervalos de verão no inverno das Palavras, preparamos o peito para receber quem vem. Talvez sejam os olhos dos miúdos a lamberem, gulosos, as montras de brinquedos. Talvez sejam as luzes que, apesar de trémulas, ainda desfazem as sombras escondidas nas paredes, nem que seja pela eternidade que dura a ilusão. Ou o cheiro a lavado dos armários onde se escondeu, o ano inteiro, o medo de partir os copos, de sujar as toalhas, de arriscar a vida. Ou o grito dos sorrisos que olham o recibo do ordenado que, este mês, parece um bocadinho maior e talvez chegue para acender a alegria no peito dos mais pequenos.
A noite faz-se mais música, por este tempo. E traz, em cada nota, o cheiro a cal de outros tempos, a frescura dos lençóis novos que se comprava para a Festa, o sabor frio que as tangerinas colavam nos dedos. Temos todas estas coisas no fundo das gavetas, escondidas como um tesouro debaixo do forro. Pusemos-lhe coisas em cima: a doença, o desencanto, o vazio das ausências, o medo nocturno do futuro.
Temos de ir buscá-las, agora, nas limpezas da Festa. Elas guardam a magia de transformar as lágrimas nas bolas coloridas do pinheiro. E falam de um tempo, de outro tempo em que, com menos coisas, éramos mais felizes.
Já falta pouco, falta muito pouco, para que um Menino nos volte a falar, outra vez, mais uma vez, de Esperança.
Estamos quase na Festa. Temos de nos despachar.
in JM 1/12

1 comentário:

  1. Faltar pouco até que é bom, mas sinto tanto a falta do encantamento de quando era criança. Falta-me aquela espera....
    Enfim o Natal é tão comercial que perdeu o aroma de Festa.
    Mas como diz o poeta Natal é quando um homem quiser.
    Que venha A Festa para recuperarmos os aromas da esperança numa estrela que tarda em chegar à noite da nossa saudade de português cinzento.

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