Número total de visualizações de página

quarta-feira, 6 de abril de 2011

via (quase)sacra

Cada dia, um passo. É assim que construímos o nosso caminho, uma via que nem sempre é sacra, mas que é sempre feita com aquilo que somos.
Às vezes, debaixo dos nossos pés, as flores enfeitam as pedras e adoçam o chão; outras vezes, há espinhos disfarçados nas ervas que pintam a terra com o nosso sangue. Às vezes, o sol beija o frio do nosso andar; outras vezes, escalda-nos a cabeça e impede-nos de avançar.
Sentimo-nos sós. Somos condenados pela incompreensão dos outros, pela falta de cuidado, pelo vazio dos olhares que não vêem para além do que mostramos. “Eis o Homem” (Jo 19,5). Mais nada.
Transportamos sempre uma cruz. Nela se inscreve a totalidade da nossa humanidade, as dores de todos os dias, os desencantos, as incompreensões, a noite da nossa maldade. E caímos, e levantamo-nos e caímos outra vez.
Às vezes, um olhar acende o nosso. Há sempre alguém aos pés da nossa dor. Há sempre alguém que fica quando todos se vão embora. A Mãe. O amor incomensurável de um coração que abraça o nosso desespero e nos prende a esperança. O abraço do amigo que ajuda a segurar a Cruz, que amansa o medo e perfuma o ar, a mão que limpa as lágrimas da nossa tristeza, que não desvia o olhar do nosso rosto desfigurado.
A nossa via (nem sempre sacra) é feita de tropeços e de quedas, de culpa e de gratidão, de arrependimentos e de coragens. Às vezes, a vida despe-nos da nossa dignidade de homens, da nossa capacidade de ser mais. Aprendemos, então, o valor da verdade, da nossa. E mostramos a nudez da nossa sinceridade.
O caminho fica, então, mais simples. O sofrimento faz-nos libertar do que nos pesa, do orgulho que nos incha, do tamanho que o nosso egoísmo ocupa no nosso coração.
A cruz. “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mc 15,34). Apesar de tudo. Apesar do caminho. Apesar de nós. Onde está Deus no fim desta nossa via ( às vezes) sacra? Onde mora a esperança?
A hora é de morte. O véu do templo rasga-se. A Luz. Depois da solidão, o colo da Mãe, o abraço que enlaça o cansaço e o embala numa eternidade de princípio. O abraço da Pietá é um abraço redondo que conduz ao céu.
O amor vence a pedra do túmulo que parece ser o fim do caminho. Amanhã, talvez amanhã, recomeçaremos outra via, às vezes, sacra. Vamos chorar, outra vez. E cair. E levantar. E cair. Vamos pegar na cruz. Na nossa e na dos outros. E vamos encontrar um olhar, uma mão, o colo de uma mãe que nos há-de recolher. Vamos morrer. Mas vamos ressuscitar.
É assim cada dia. A nossa vida é esta via (quase) sacra. Precisamos uns dos outros para carregarmos as nossas cruzes.
Vê a Luz? Não vamos sozinhos, afinal.

1 comentário: