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terça-feira, 26 de abril de 2011

primavera antiga


Eles tinham lágrimas nos olhos e asas na voz. Falavam de liberdade e de uma primavera que explodia dos canos das espingardas, em balas rubras de cravos que acendiam sorrisos nos caminhos. Falavam de um Abril que rompera as grades das prisões e gargalhava em esperanças num futuro melhor.
Tinham silêncios nos olhos iluminados. Tinham vontade de ganhar o mundo, construindo, outra vez, um país de verdes e de mares, enfeitado de colares de maios que desabrochavam no pescoço, como se fossem estilhaços de sol.
Tinham cantigas na garganta. E o calor ensaiava passeios ao Parque de Santa Catarina e ao Palheiro Ferreiro, saltando à laje e fazendo rodas e roubando beijos. Tínhamos omeletes frias adormecidas no pão da véspera, dentro da cesta do lanche.
Eram dias de viver, aqueles. Éramos miúdos e não percebíamos nada destas coisas de povo unido ou de grafites nas paredes. Estávamos na 4ª classe e, com sorte, já não fazíamos exame e já não nos iam perguntar dos caminhos-de-ferro de Angola e Moçambique ou dos rios que enchiam a maré da nossa memória. Com sorte, podíamos inventar à vontade a forma dos comboios e o serpentear dos afluentes. Com sorte, não íamos precisar de dobrar direitinha a margem da folha de prova para escrever na primeira linha:
Ditado.
Havia sol, nesse tempo. A Barreirinha já retocava de azul os varões dos muros e já arejavam o toldo para o estender sobre o nosso calor.
Havia sol, sim. E florinhas amarelas nos caminhos. E uma gaivota que “voava, voava” e tinha “asas de vento” e “coração de mar”.
Era Abril, depois Maio, primavera ou liberdade. Era o futuro. Eles tinham a força na voz e a coragem nos punhos. Nós estávamos a acabar a 4ª classe e éramos felizes.

1 comentário:

  1. Gostei de reviver esses tempos pelos olhos da criança que então andava na 4ª classe! obrigada!

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