Lembra-se das mãos do seu pai e da segurança de a ter apertada à sua? Lembra-se da doçura da sua mãe, quando a ternura das suas mãos lhe limpavam as lágrimas-meninas das primeiras desilusões?
Pois, hoje, lembro-me delas. E deixo que a memória as aqueça na frieza das minhas saudades. É por isso que escrevo mão, com o espanto que a própria palavra me dita, com a boca redonda de beijo que o som único desta sílaba me diz. Escrevo mão e vejo nelas os olhos dos cegos e a voz dos mudos. Escrevo mão e desenho o movimento de cada gesto – o da mãe que, com elas, embrulha o corpo do seu filho, o do menino que agarra a mão do amigo e faz com ele uma roda, o do jovem que contorna o rosto do amor e entrelaça os seus dedos nos dedos do futuro, o do homem que lança a semente à terra para a recolher depois, o do velho, cansado, que a apoia na bengala, quando o chão lhe começa a chamar o corpo. Escrevo mão e vejo-a levantar-se para limpar as lágrimas que se escondem, depois, no bolso da solidão. Escrevo mão vejo-a conduzir outra mão, no lado a lado de que é feito o nosso caminho.
Olhe para as suas mãos. É só bocadinho. Sinta-as abertas, percorra os sulcos das linhas que lhes riscam as palmas. Pense nelas e no que elas já fizeram antes de segurarem esta folha de papel. Foram elas que iniciaram a manhã,
-em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo;
foram elas que acariciaram o sono do seu filho e lhe disseram, sem palavras,
-são horas, meu amor!;
foram elas que repartiram o pão e enfeitaram a imagem que vive dentro do espelho; foram elas.
E pense nas outras. Nas que, todos os dias, se levantam num aceno, nas que apertam as suas, nas que lhe seguram as dores. Pense nas mãos que tratam das suas feridas, nas que trabalham para que a sua vida seja melhor, nas que fazem aquilo que as suas não fazem, nas que se estragam para que as suas continuem bonitas.
Pense nessas mãos. As suas e as dos outros. As que o trouxeram à luz e as que, um dia, hão-de fechar os seus olhos. As que são a paleta de Deus. As que fazem com que este dia seja melhor.
Agradeça a sua presença na sua vida.
Já beijou as mãos de alguém? Hoje, beije também as suas.
Pronto. Agora sorria. Vamos trabalhar.
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quinta-feira, 3 de março de 2011
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
POR CAUSA DO AMOR
“Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante…”
Saint-Exupéry, O Principezinho
Falamos de amor. Dizemos
- amo-te
e envolvemos as palavras em corações de giz, enfeitamo-las com rosas vermelhas sempre em botão, cobrimo-las de chocolate e pomos-lhe uma fita à volta.
Escrevemos “amor” nas esquinas da nossa juventude e acreditamos que basta que as mãos se encontrem e os lábios desenhem, baixinho, juras de fidelidade eterna. Fazemo-lo, olhando o mar que explode em espumas no corpo das rochas. Fazemo-lo, bebendo as estrelas que penduram alegrias na noite. Fazemo-lo, no aconchego – concha dos braços que nos protegem do frio.
Pensamos “amor” e dizemos “nós” como se o futuro fosse simples, fosse apenas a soma de eu+tu, assim, como se não houvesse mais nada, como se mais nada fosse preciso, como se isso bastasse.
Sentimos “amor”, porque amor é palavra de se sentir. Tem vida e sofrimento colados a cada sílaba. Porque compromisso. Porque entrega. Porque disponibilidade. Porque para o outro.
Talvez Deus tenha oferecido as asas ao Amor. Talvez este Valentim que o mundo festeja e que tem asas também, signifique mais do que um dia. Talvez seja o tempo [porque o tempo também tem asas] de levar a sério cada olhar que se derrama noutro, cada mão que se encontra e se enlaça e se entrelaça, cada abraço que mistura dois corações e os fazem bater em coro. Talvez seja a hora [porque a vida é um instante] de entender que quem ama transfere a sua felicidade para a felicidade do outro.
Lembram-se da rosa d’O Principezinho? Foi preciso regá-la, tratar dela, protegê-la. Foi preciso dar-lhe espaço para crescer por si. Foi preciso matar as lagartas que ameaçavam as folhas novas que despontavam do chão. Foi preciso pensar nela como se ela fosse aquilo que de mais importante havia no mundo.
É assim o amor. Tal como a rosa, passa a precisar de outro coração para ajudar o seu a bater.
“- Sou responsável pela minha rosa… - repetiu o Principezinho, para nunca mais se esquecer”.
Agora, sim: uma flor, um chocolate, o mar, o pôr-do-sol. A vida tem uma fita à volta. O futuro, também. Um presente para quem se ama.
Saint-Exupéry, O Principezinho
Falamos de amor. Dizemos
- amo-te
e envolvemos as palavras em corações de giz, enfeitamo-las com rosas vermelhas sempre em botão, cobrimo-las de chocolate e pomos-lhe uma fita à volta.
Escrevemos “amor” nas esquinas da nossa juventude e acreditamos que basta que as mãos se encontrem e os lábios desenhem, baixinho, juras de fidelidade eterna. Fazemo-lo, olhando o mar que explode em espumas no corpo das rochas. Fazemo-lo, bebendo as estrelas que penduram alegrias na noite. Fazemo-lo, no aconchego – concha dos braços que nos protegem do frio.
Pensamos “amor” e dizemos “nós” como se o futuro fosse simples, fosse apenas a soma de eu+tu, assim, como se não houvesse mais nada, como se mais nada fosse preciso, como se isso bastasse.
Sentimos “amor”, porque amor é palavra de se sentir. Tem vida e sofrimento colados a cada sílaba. Porque compromisso. Porque entrega. Porque disponibilidade. Porque para o outro.
Talvez Deus tenha oferecido as asas ao Amor. Talvez este Valentim que o mundo festeja e que tem asas também, signifique mais do que um dia. Talvez seja o tempo [porque o tempo também tem asas] de levar a sério cada olhar que se derrama noutro, cada mão que se encontra e se enlaça e se entrelaça, cada abraço que mistura dois corações e os fazem bater em coro. Talvez seja a hora [porque a vida é um instante] de entender que quem ama transfere a sua felicidade para a felicidade do outro.
Lembram-se da rosa d’O Principezinho? Foi preciso regá-la, tratar dela, protegê-la. Foi preciso dar-lhe espaço para crescer por si. Foi preciso matar as lagartas que ameaçavam as folhas novas que despontavam do chão. Foi preciso pensar nela como se ela fosse aquilo que de mais importante havia no mundo.
É assim o amor. Tal como a rosa, passa a precisar de outro coração para ajudar o seu a bater.
“- Sou responsável pela minha rosa… - repetiu o Principezinho, para nunca mais se esquecer”.
Agora, sim: uma flor, um chocolate, o mar, o pôr-do-sol. A vida tem uma fita à volta. O futuro, também. Um presente para quem se ama.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Dia Mundial do Doente - Oração

Senhor,
sinto-Te aqui, à beira da minha cama, segurando as minhas mãos, limpando as minhas lágrimas, aconchegando-me os lençóis, quando a solidão quer deitar-se comigo. Tenho sentido, também, aqui comigo, a Tua Mãe que me tem velado o sono e aquecido o peito. Sei que lhe pediste que ficasse à minha cabeceira, para me ajudar a lutar contra o medo.
Sei que conheces esta angústia que, às vezes, entra no meu quarto sem bater à porta. Sei que entendes esta dificuldade que tenho em depender de outras mãos, em precisar de outros braços – abraços , de olhar para a parede branca e não ver nela senão uma parede branca.
Por isso, meu Amigo, fica comigo esta noite. Porque a noite é feita de um tempo que não passa e que dói de imobilidade. Manda a manhã acordar mais cedo e trazer um bocadinho da vida que já nasceu lá fora. Pede ao sol que se levante e me aqueça o quarto, só um bocadinho.
Olha para a pequenez do meu corpo encolhido pela doença. Olha para a minha fragilidade. Toma a minha dor nas Tuas mãos. Ajuda-me a levar a cruz que se derramou na minha vida e a saber encarar a escuridão com o sorriso que as estrelas me ensinaram a desenhar, quando eu era pequena.
Fica comigo. Faz-me entender o significado deste sofrimento que, hoje, me dói no corpo e na alma. Segura a minha vida e não permitas que me perca de mim, da minha esperança. Não me deixes cair na tentação de obedecer ao abismo que me puxa e me traz aos olhos este mar que me salga as palavras.
Cuida dos que cuidam de mim. Abençoa as suas vidas. Agradece-lhes, por mim, cada momento que me oferecem, cada sorriso que me dá confiança, cada palavra, cada gesto, cada silêncio. Dá-me coragem para vencer este cansaço e força para continuar a sorrir.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
No Hospital
Deixe a luz acesa. Talvez as noites fiquem menos escuras e o medo não doa tanto na cama do hospital.
Deixe a porta encostada. Talvez a solidão se escape pela fresta e os barulhos da vida entrem mais cedo na enfermaria.
Fique mais um bocadinho. Assim: a aquecer a frieza da mão que se apaga sobre os lençóis imaculadamente engomados, cruelmente brancos. Conte do mundo, dos carros que engolem as estradas, da pressa de fazer as coisas, dos miúdos que vão bem na escola, do frio que faz tremer as madrugadas, dos próximos capítulos da novela. Fale do mar e das marés e dos segredos que as ondas dizem à praia, quando a cidade se cala e se prepara para dormir. Diga que vai haver futuro, que o sol vai voltar a aquecer os ossos cansados da mesma posição, que a alegria vai chegar porque, quem hoje está aqui, amanhã [o mais tardar, para a semana), vai voltar para casa.
Olhe para eles – são médicos, enfermeiros e cuidadores. Trazem a esperança presa à brancura da bata; prescrevem possibilidades em cada remédio, emprestam uma bengala em cada palavra e, em cada olhar, uma nova razão para não morrer.
Vê a mão de Deus atrás das deles? Talvez nem eles A vejam. Mas Ela está lá, no carinho que oferecem a quem sofre, aconchegando quem não se levanta, na ternura com que compõem o cabelo de quem o tem colado à almofada, no beijo, no olhar que fixa o aparelho que ajuda a viver, na mão que ajuda a partir.
Fique mais um bocadinho. Quem está no hospital precisa muito de si, da sua atenção, da voz da vida que se colou à sua voz, da saúde que o seu corpo traz, do seu silêncio, da sua força.
Tem de se ir embora? Está bem. Volta amanhã?
Não se importa de deixar a luz acesa? E, por favor, deixe também a porta entreaberta. Pode ser que assim a dor doa menos e a noite pareça mais curta.
Muito obrigada por ter vindo. Até amanhã.
Deixe a porta encostada. Talvez a solidão se escape pela fresta e os barulhos da vida entrem mais cedo na enfermaria.
Fique mais um bocadinho. Assim: a aquecer a frieza da mão que se apaga sobre os lençóis imaculadamente engomados, cruelmente brancos. Conte do mundo, dos carros que engolem as estradas, da pressa de fazer as coisas, dos miúdos que vão bem na escola, do frio que faz tremer as madrugadas, dos próximos capítulos da novela. Fale do mar e das marés e dos segredos que as ondas dizem à praia, quando a cidade se cala e se prepara para dormir. Diga que vai haver futuro, que o sol vai voltar a aquecer os ossos cansados da mesma posição, que a alegria vai chegar porque, quem hoje está aqui, amanhã [o mais tardar, para a semana), vai voltar para casa.
Olhe para eles – são médicos, enfermeiros e cuidadores. Trazem a esperança presa à brancura da bata; prescrevem possibilidades em cada remédio, emprestam uma bengala em cada palavra e, em cada olhar, uma nova razão para não morrer.
Vê a mão de Deus atrás das deles? Talvez nem eles A vejam. Mas Ela está lá, no carinho que oferecem a quem sofre, aconchegando quem não se levanta, na ternura com que compõem o cabelo de quem o tem colado à almofada, no beijo, no olhar que fixa o aparelho que ajuda a viver, na mão que ajuda a partir.
Fique mais um bocadinho. Quem está no hospital precisa muito de si, da sua atenção, da voz da vida que se colou à sua voz, da saúde que o seu corpo traz, do seu silêncio, da sua força.
Tem de se ir embora? Está bem. Volta amanhã?
Não se importa de deixar a luz acesa? E, por favor, deixe também a porta entreaberta. Pode ser que assim a dor doa menos e a noite pareça mais curta.
Muito obrigada por ter vindo. Até amanhã.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Uma sopa ou um abraço?
Um prato de sopa pode calar a fome, um abraço alimenta a vida. Falo assim, saciada de sopa e de abraços, no calor de uma lareira que me aquece o inverno. Falo da sensação de não estar só e poder falar de mim e dos meus sonhos e poder ouvir dos outros e das suas vontades. Falo assim porque a vida me tem oferecido o dom da amizade, o milagre de poder partilhar o que tenho e o que sou.
- Está bem, eu conto.
Imaginem a serra despida no frio. Imaginem uma casa no meio da floresta. Uma lareira. Uma panela ao lume. Imaginem o cheiro da sopa de trigo, sempre que alguém a impede de pegar no fundo,
- Vê o sal.
Imaginem um copo de qualquer coisa a animar a gargalhada, a fatia de pão que se corta e que se passa, na intimidade de quem divide a vida.
- Para enxugar.
Imaginem as mãos geladas que a tigela aquece, as que serviram o vinho, as que passaram o pão,
- Queres que te leve alguma coisa?,
as mesmas mãos que, um dia, limparam as lágrimas, ampararam a queda e seguraram as fraquezas.
Imaginem as conversas, no redondo das cadeiras, na confluência dos pés, no aconchego do estalar da lenha. Imaginem uma viola a mandar calar o vento que, lá fora, despenteia as árvores do quintal. E as vozes, às vezes embargadas pelas dores de cada um. E as palmas que encobrem quem desafina ou quem se esquece da letra a meio da canção.
Imaginem a força que se bebe num encontro de amigos, dos que sabem respeitar as ausências, dos que sabem a importância dos silêncios, dos que se apresentam quando é preciso, dos que estão quando é preciso estar.
E é tão fácil! Basta a vontade. Basta uma panela de sopa temperada com a alegria de quem se quer bem. Basta a capacidade de ser de alguém, na generosidade de quem tem abraços para dividir.
E pronto. A memória guarda o momento. O coração vai buscá-lo quando for preciso. Então, o lume mantém-se mais tempo aceso na lareira, o trigo da sopa faz-se pão e a vida fica muito mais feliz.
- Está bem, eu conto.
Imaginem a serra despida no frio. Imaginem uma casa no meio da floresta. Uma lareira. Uma panela ao lume. Imaginem o cheiro da sopa de trigo, sempre que alguém a impede de pegar no fundo,
- Vê o sal.
Imaginem um copo de qualquer coisa a animar a gargalhada, a fatia de pão que se corta e que se passa, na intimidade de quem divide a vida.
- Para enxugar.
Imaginem as mãos geladas que a tigela aquece, as que serviram o vinho, as que passaram o pão,
- Queres que te leve alguma coisa?,
as mesmas mãos que, um dia, limparam as lágrimas, ampararam a queda e seguraram as fraquezas.
Imaginem as conversas, no redondo das cadeiras, na confluência dos pés, no aconchego do estalar da lenha. Imaginem uma viola a mandar calar o vento que, lá fora, despenteia as árvores do quintal. E as vozes, às vezes embargadas pelas dores de cada um. E as palmas que encobrem quem desafina ou quem se esquece da letra a meio da canção.
Imaginem a força que se bebe num encontro de amigos, dos que sabem respeitar as ausências, dos que sabem a importância dos silêncios, dos que se apresentam quando é preciso, dos que estão quando é preciso estar.
E é tão fácil! Basta a vontade. Basta uma panela de sopa temperada com a alegria de quem se quer bem. Basta a capacidade de ser de alguém, na generosidade de quem tem abraços para dividir.
E pronto. A memória guarda o momento. O coração vai buscá-lo quando for preciso. Então, o lume mantém-se mais tempo aceso na lareira, o trigo da sopa faz-se pão e a vida fica muito mais feliz.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Povo Marinheiro
A bordo da ilha, navego pela vida à procura de novos horizontes. Sou marinheiro do tempo e vou dobrando os Bojadores, na ilusão de encontrar a felicidade que se esconde atrás da linha azul do oceano.
Se a brisa é branda, tenho saudades do vento que me despenteia o cabelo; se o vento é forte, as minhas mãos cansadas perdem a força de lutar. Se o sol me aquece a cabeça, tenho vontade de uma nuvem que me proteja da bebedeira de luz que me tolhe a vontade. Se a pele me seca, tenho saudades da chuva mas, se chove, tenho medo que a tempestade me faça perder o leme. Se o barco avança, não tenho tempo de apreciar o azul do céu e os gritos das gaivotas, mas quando a marcha é lenta, sinto que adio o mundo que me falta ver. E não sou feliz.
Salto, muitas vezes, no cais. E fico à espera de outras ilhas, perdidas também, à procura do que não têm. Somos muitas, dispersas por esse mar com saudades de um lugar que não existe, de um momento que já passou, de uma vontade impraticável.
Partilhamos, então, a nossa solidão. Falamos das nossas procuras, das nossas pressas de amanhã, da nossa fome de ir embora, das nossas marés, de nós. Temos as nossas ilhas amarradas no pontão. Passamos as cordas e fazemos com elas uma jangada.
A minha ilha torna-se passagem para outra ilha que é caminho para outra. Partilhamos quem somos: rocha ou areal, flor ou borboleta, brisa ou calor. Partilhamos o que sabemos: que os rios correm sempre para o mar, que as flores se enfeitam para o beijo do sol, que a noite se acende para que o luar a abrace, que as nuvens se encontram para conversar.
Nesses momentos, temos saudades de Deus. Dizem que Ele é a tal linha que divide o mar. Dizem que Ele guarda o segredo dos continentes. Dizem que é Lá que está a Felicidade. E vamos.
A bordo da Ilha, iço as velas. Levo as outras ilhas comigo. As outras ilhas levam-me consigo. E vamos, devagarinho, ao sabor da vida. Se a brisa é branda, ouvimos o silêncio. Se o vento é forte, não nos arrasta, porque não vamos sós.
Quando anoitece, lançamos as âncoras. Juntamo-nos na ilha maior, a do coração. Aconchegamo-nos à esperança e dizemos baixinho à ilha do lado,
- Cuida de mim!
Se a brisa é branda, tenho saudades do vento que me despenteia o cabelo; se o vento é forte, as minhas mãos cansadas perdem a força de lutar. Se o sol me aquece a cabeça, tenho vontade de uma nuvem que me proteja da bebedeira de luz que me tolhe a vontade. Se a pele me seca, tenho saudades da chuva mas, se chove, tenho medo que a tempestade me faça perder o leme. Se o barco avança, não tenho tempo de apreciar o azul do céu e os gritos das gaivotas, mas quando a marcha é lenta, sinto que adio o mundo que me falta ver. E não sou feliz.
Salto, muitas vezes, no cais. E fico à espera de outras ilhas, perdidas também, à procura do que não têm. Somos muitas, dispersas por esse mar com saudades de um lugar que não existe, de um momento que já passou, de uma vontade impraticável.
Partilhamos, então, a nossa solidão. Falamos das nossas procuras, das nossas pressas de amanhã, da nossa fome de ir embora, das nossas marés, de nós. Temos as nossas ilhas amarradas no pontão. Passamos as cordas e fazemos com elas uma jangada.
A minha ilha torna-se passagem para outra ilha que é caminho para outra. Partilhamos quem somos: rocha ou areal, flor ou borboleta, brisa ou calor. Partilhamos o que sabemos: que os rios correm sempre para o mar, que as flores se enfeitam para o beijo do sol, que a noite se acende para que o luar a abrace, que as nuvens se encontram para conversar.
Nesses momentos, temos saudades de Deus. Dizem que Ele é a tal linha que divide o mar. Dizem que Ele guarda o segredo dos continentes. Dizem que é Lá que está a Felicidade. E vamos.
A bordo da Ilha, iço as velas. Levo as outras ilhas comigo. As outras ilhas levam-me consigo. E vamos, devagarinho, ao sabor da vida. Se a brisa é branda, ouvimos o silêncio. Se o vento é forte, não nos arrasta, porque não vamos sós.
Quando anoitece, lançamos as âncoras. Juntamo-nos na ilha maior, a do coração. Aconchegamo-nos à esperança e dizemos baixinho à ilha do lado,
- Cuida de mim!
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Vamos plantr a saudade?
Os olhos da ilha estão postos no mar. Os nossos também. Esticamos o nosso horizonte até à saudade. E percorremos a vida até chegarmos ao lugar exacto onde o tempo nos separou de alguém e fechou portas que, um dia, estavam abertas.
Um anjo sobrevoa o nosso olhar. Traz-nos gargalhadas penduradas nas asas, histórias antigas, canções de embalar. Traz-nos lembranças de Deus e da alegria de uma festa que já se arrumou nas caixas e se guardou no fundo do armário.
Temos saudade, sim. A nossa história ensinou-nos a definir as ausências, a acreditar nos regressos, a gerir os sentimentos que ficam no cais, quando o barco se afasta e os olhos chovem sobre o silêncio.
Temos saudades de quem já não está, do que já não se vive, do que já não se pode sentir. Temos pena de não ter aproveitado mais cada momento, cada beijo, cada aperto de mão, cada palavra que enfeitou o desespero, cada sorriso, cada manhã.
Os meus olhos sentaram-se, hoje, ao balcão e olharam a distância como se fossem os olhos da ilha. E perceberam como é bom isto da saudade, esta dor que não magoa, porque feita de amor, porque feita de beijos que a vida nos dá e nos permite ir buscar quando o mar é apenas água salgada.
E resolvi que havia de plantar saudades. Posso precisar delas qualquer dia. Posso precisar de sentir quanto valeu a pena viver a minha vida. Já temos o terreno – o coração. Falta apenas fazer a sementeira. Precisamos de sorrisos, de palavras boas, de gestos, de abraços. Precisamos de amigos, de amor, de entrega. Precisamos do sopro de Deus que os outros nos oferecem. Precisamos de coragem.
Esta semana, vamos plantar a saudade. Fazer da vida um milagre. Abrir as portas de ser feliz. Esta será uma semana para guardar na memória. Um dia, podemos vir a precisar dela, naqueles dias em que a poesia não se senta à mesa connosco e os olhos, debruçados no mirante, não conseguem ouvir a canção do mar.
Um anjo sobrevoa o nosso olhar. Traz-nos gargalhadas penduradas nas asas, histórias antigas, canções de embalar. Traz-nos lembranças de Deus e da alegria de uma festa que já se arrumou nas caixas e se guardou no fundo do armário.
Temos saudade, sim. A nossa história ensinou-nos a definir as ausências, a acreditar nos regressos, a gerir os sentimentos que ficam no cais, quando o barco se afasta e os olhos chovem sobre o silêncio.
Temos saudades de quem já não está, do que já não se vive, do que já não se pode sentir. Temos pena de não ter aproveitado mais cada momento, cada beijo, cada aperto de mão, cada palavra que enfeitou o desespero, cada sorriso, cada manhã.
Os meus olhos sentaram-se, hoje, ao balcão e olharam a distância como se fossem os olhos da ilha. E perceberam como é bom isto da saudade, esta dor que não magoa, porque feita de amor, porque feita de beijos que a vida nos dá e nos permite ir buscar quando o mar é apenas água salgada.
E resolvi que havia de plantar saudades. Posso precisar delas qualquer dia. Posso precisar de sentir quanto valeu a pena viver a minha vida. Já temos o terreno – o coração. Falta apenas fazer a sementeira. Precisamos de sorrisos, de palavras boas, de gestos, de abraços. Precisamos de amigos, de amor, de entrega. Precisamos do sopro de Deus que os outros nos oferecem. Precisamos de coragem.
Esta semana, vamos plantar a saudade. Fazer da vida um milagre. Abrir as portas de ser feliz. Esta será uma semana para guardar na memória. Um dia, podemos vir a precisar dela, naqueles dias em que a poesia não se senta à mesa connosco e os olhos, debruçados no mirante, não conseguem ouvir a canção do mar.
sábado, 15 de janeiro de 2011
O FIM DA FESTA
Apagaram-se as luzes. De repente, a noite ficou mais noite e a cidade mais triste. Fica sempre no ar esta nostalgia, quando a Festa se quer ir embora, antes de se acabarem os jantares, as
- continuações!
ainda vestidas de janeiro e o varrer dos restos No Santo Amaro.
As lojas já guardaram o que sobrou e fazem saldos do que já não faz falta para este ano. Na minha casa, a lapinha ainda está montada, a árvore ainda me pinta os serões de saudades, os sinos ainda tocam, nos montes de papel pintado que a humidade fez descair.
Os Reis vieram, cantaram e regressaram às suas terras, levando com eles o cantar das janeiras, a alegria do ano novo, as broas e os licores que ainda havia nos armários. Voltámos à vida real, ao tempo quase sem tempo para se viver.
Os olhos do espelho perguntaram por mim. Queriam saber se os meus olhos tinham uma luz diferente. Os meus olhos responderam que não, que está tudo igual, que o meu mendigo continua na mesma esquina, com a mão estendida e o olhar cansado, que os meus braços continuam à procura de abraços, que não tive roupas novas para vestir as minhas palavras, que não quero desmanchar o presépio que comecei a construir dentro de mim.
Os olhos do espelho fixaram os meus. Queriam saber o que eles mostravam: se abismo, se medo, se esperança. Os meus olhos disseram que sim, que tinham aprendido a sobrevoar o medo e a olhar a escuridão, com a esperança do Menino que tinha adormecido no berço do meu olhar. Os olhos do espelho mostraram aos meus que, afinal, ainda havia muita coisa para fazer, antes de dar por terminada a Festa do Natal.
Lá fora, os colares das árvores e as gargantilhas das ribeiras já perderam o brilho, mas os olhos do espelho querem continuar a brilhar. Têm lá dentro a alegria. Guardam os sonhos brancos de Deus. Guardam a vontade de ser feliz. Guardam o silêncio das ruas que, dentro deles, se quer travestir de paz.
sábado, 8 de janeiro de 2011
SOBRE PALAVRAS
Deixem falar as palavras. Deixem-nas pousar no lugar certo, como se fossem borboletas à procura do sol. Há asas no corpo branco das sílabas que se aconchegam a outras sílabas para dizerem de si e do que significam.
Embrulhem as palavras no silêncio. Dêem-lhes espaço para serem voz e doçura e poema. Há lágrimas cristalizadas no vazio que as palavras não dizem. Segredos. Amanhãs por acordar. Mistérios.
Sintam o gosto feliz das palavras novas: esperança, coragem, alegria. As palavras desenham começos nas manhãs: são voos de liberdade, sol no chão preto e branco da calçada, luz derramada dos telhados. As palavras são abraços.
Deixem que elas se vistam com a sabedoria que o tempo lhes conferiu. Cada palavra guarda a alma do que significam – amor, amigo, saudade, gargalhada.
Agarrem o poder das palavras. Com elas se beija e se mata. Com elas se acolhe e se maltrata. Com elas se chama a vida, porque são elas que dão nome às coisas e às pessoas e a Deus que “no princípio era o Verbo” (Jo.1, 1-3).
Por elas se recebe o mundo e a felicidade. E se entrega o que temos, o que somos, o que queremos ser.
Deixem falar as palavras: as vossas e as de quem vos escuta. Descubram a poesia que dorme atrás do que não se diz.
Deixo-vos as duas primeiras:
-bom dia.
Contem, depois, quantos sorrisos conseguiram abrir.
[Não sentiram que a manhã ficou mais bonita?]
O resto é convosco.
Embrulhem as palavras no silêncio. Dêem-lhes espaço para serem voz e doçura e poema. Há lágrimas cristalizadas no vazio que as palavras não dizem. Segredos. Amanhãs por acordar. Mistérios.
Sintam o gosto feliz das palavras novas: esperança, coragem, alegria. As palavras desenham começos nas manhãs: são voos de liberdade, sol no chão preto e branco da calçada, luz derramada dos telhados. As palavras são abraços.
Deixem que elas se vistam com a sabedoria que o tempo lhes conferiu. Cada palavra guarda a alma do que significam – amor, amigo, saudade, gargalhada.
Agarrem o poder das palavras. Com elas se beija e se mata. Com elas se acolhe e se maltrata. Com elas se chama a vida, porque são elas que dão nome às coisas e às pessoas e a Deus que “no princípio era o Verbo” (Jo.1, 1-3).
Por elas se recebe o mundo e a felicidade. E se entrega o que temos, o que somos, o que queremos ser.
Deixem falar as palavras: as vossas e as de quem vos escuta. Descubram a poesia que dorme atrás do que não se diz.
Deixo-vos as duas primeiras:
-bom dia.
Contem, depois, quantos sorrisos conseguiram abrir.
[Não sentiram que a manhã ficou mais bonita?]
O resto é convosco.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
JANEIRO
Janeiro é o mês primeiro, o alicerce do resto que o ano há-de trazer. Por isso, vou falar de chão: de pedra ou de areia, de flores ou de cacos, mas chão.
Não pensei nisso quando olhei para o céu e o vi rebentar em cores, desenhando nos meus olhos os sonhos, os desejos e os projectos. Não pensei nisto quando senti os abraços de quem amo, de quem me ama, de quem continua por aqui, comigo.
Penso nisto agora que a vida recomeçou e que cada passo que dou me lembra que este é o tempo de começar de novo, de preparar o que me falta de vida para viver.
Por isso, chão: de rocha firme ou de pântano, campo seguro ou areal efémero.
Janeiro é a terra onde nascem as resoluções para o sempre: deixar de fumar, começar a dieta, marcar o ginásio, ir ao médico, poupar um bocadinho mais.
É o mês-chão onde se planta o futuro: ter cuidado com as pedras que a boca atira, chamar o silêncio para aplacar as tempestades, beber o sol e embebedar-se de luz, dizer que sim, que se precisa de mãos, que se quer um abraço, que se acredita, que se vai ter coragem para procurar a felicidade.
Escrevo chão, hoje. E nele ponho a vontade de fazer um ano bom. Escrevo chão e lanço nele as sementes das minhas palavras, o luar das minhas noites, o beijo das minhas solidões.
Escrevo chão porque é janeiro. Nele construo a nossa casa. Nele abraço a vida e espero. Nele quero ser feliz.
Não pensei nisso quando olhei para o céu e o vi rebentar em cores, desenhando nos meus olhos os sonhos, os desejos e os projectos. Não pensei nisto quando senti os abraços de quem amo, de quem me ama, de quem continua por aqui, comigo.
Penso nisto agora que a vida recomeçou e que cada passo que dou me lembra que este é o tempo de começar de novo, de preparar o que me falta de vida para viver.
Por isso, chão: de rocha firme ou de pântano, campo seguro ou areal efémero.
Janeiro é a terra onde nascem as resoluções para o sempre: deixar de fumar, começar a dieta, marcar o ginásio, ir ao médico, poupar um bocadinho mais.
É o mês-chão onde se planta o futuro: ter cuidado com as pedras que a boca atira, chamar o silêncio para aplacar as tempestades, beber o sol e embebedar-se de luz, dizer que sim, que se precisa de mãos, que se quer um abraço, que se acredita, que se vai ter coragem para procurar a felicidade.
Escrevo chão, hoje. E nele ponho a vontade de fazer um ano bom. Escrevo chão e lanço nele as sementes das minhas palavras, o luar das minhas noites, o beijo das minhas solidões.
Escrevo chão porque é janeiro. Nele construo a nossa casa. Nele abraço a vida e espero. Nele quero ser feliz.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
DEPOIS DO NATAL, O NATAL
E pronto. O dia de Natal acabou: levantou-se a mesa, arrumou-se os presentes, guardou-se a louça da festa, apagou-se a lareira e o que ela implica de gente à volta. De repente, escondeu-se o abraço e perdeu-se a alegria, no meio dos papéis de embrulho que sobraram.
Já se voltou ao trabalho, às contas, à correria da cidade. Os olhos lambem, gulosos, os saldos que as lojas anunciam. Os sinos calaram-se, um pouco assustados com as bombas que prepararam o fim do ano. Os meninos já espalharam os brinquedos pelo chão da sala, porque os brinquedos só têm interesse no momento em que os laços são arrancados e lhes dão a ilusão de que são felizes porque têm tudo o que pediram.
O que ficou, então? As roupas que, afinal, não são o que pareciam nos manequins das montras? As sobras da comida que se deita fora, a pensar na fome dos outros? O buraco que fica no ar quando as gargalhadas se calam? O eco azul das vozes dos anjos que já não há tempo de ouvir? A cabeleira verde das searinhas que é preciso aparar?
Dentro de nós, talvez tivesse ficado o cheiro das tangerinas que importámos da nossa meninice, o brilho doce das purpurinas coladas ao tapete, o som das palmas do Menino acabadinho de nascer, o calor do beijo da mãe,
- Boas festas, meu amor!
que se guarda para sempre, junto do silêncio protector do pai.
Ficou o momento cristalizado do abraço que se segue ao presente que custou tanto a comprar, a lágrima que deslizou para a mão do doente que alguém velou no hospital, o beijo na mão de quem estendeu o prato de sopa a quem ficou só, neste Natal.
E agora? A verdade é que a lapinha ainda está montada, as luzes ainda rasgam de cores a noite das ruas, o tempo ainda cheira a perfume. Portanto, a proposta é guardar o Natal dentro de nós, naquele sítio onde se guarda o que é bom, onde se deposita a esperança e o sorriso gaiato de quem acredita no futuro. Depois, quando os dias de luz acabarem, vamos ao fundo do peito buscar o que falta: a ternura do Menino, o aconchego da Mãe, a serenidade do Pai, a alegria dos pastores, a paz dos anjos.
Preciso de si, agora. Ajude-me, por favor, a não deixar morrer o Natal. Conto consigo!
- Boas Festas!
Já se voltou ao trabalho, às contas, à correria da cidade. Os olhos lambem, gulosos, os saldos que as lojas anunciam. Os sinos calaram-se, um pouco assustados com as bombas que prepararam o fim do ano. Os meninos já espalharam os brinquedos pelo chão da sala, porque os brinquedos só têm interesse no momento em que os laços são arrancados e lhes dão a ilusão de que são felizes porque têm tudo o que pediram.
O que ficou, então? As roupas que, afinal, não são o que pareciam nos manequins das montras? As sobras da comida que se deita fora, a pensar na fome dos outros? O buraco que fica no ar quando as gargalhadas se calam? O eco azul das vozes dos anjos que já não há tempo de ouvir? A cabeleira verde das searinhas que é preciso aparar?
Dentro de nós, talvez tivesse ficado o cheiro das tangerinas que importámos da nossa meninice, o brilho doce das purpurinas coladas ao tapete, o som das palmas do Menino acabadinho de nascer, o calor do beijo da mãe,
- Boas festas, meu amor!
que se guarda para sempre, junto do silêncio protector do pai.
Ficou o momento cristalizado do abraço que se segue ao presente que custou tanto a comprar, a lágrima que deslizou para a mão do doente que alguém velou no hospital, o beijo na mão de quem estendeu o prato de sopa a quem ficou só, neste Natal.
E agora? A verdade é que a lapinha ainda está montada, as luzes ainda rasgam de cores a noite das ruas, o tempo ainda cheira a perfume. Portanto, a proposta é guardar o Natal dentro de nós, naquele sítio onde se guarda o que é bom, onde se deposita a esperança e o sorriso gaiato de quem acredita no futuro. Depois, quando os dias de luz acabarem, vamos ao fundo do peito buscar o que falta: a ternura do Menino, o aconchego da Mãe, a serenidade do Pai, a alegria dos pastores, a paz dos anjos.
Preciso de si, agora. Ajude-me, por favor, a não deixar morrer o Natal. Conto consigo!
- Boas Festas!
sábado, 18 de dezembro de 2010
VIRGEM DO PARTO

A noite ainda anda pela cidade, fria, estremunhada, despenteada do descanso que, por estes dias da Festa, acaba mais cedo. A garganta da noite está presa no sono que é preciso afastar, depressa, na urgência das campainhas que já não se ouvem mas que continuam a tocar dentro da gente, no canto da nossa meninice.
Estamos dentro da noite, arrumando os passos em direcção à Missa do Parto, sorrindo à Virgem que está prestes a dar à Luz. Por instantes, somos parte de uma comunidade que só se vê de vez em quando, mas que se junta para aquecer a madrugada.
Virgem do Parto
Ó Maria,
Senhora da Conceição.
Somos personagens do presépio, pastores talvez, e enfrentamos a geada,
Dai-nos as Festas Felizes
A paz e a salvação.
Entrámos na noite e o dia amanhece dentro da igreja. A estrela do Natal já deixou a sua luz nas velas que afastam os nevoeiros. Os olhares procuram outros olhares, as mãos, outras mãos, as vozes juntam-se a outras vozes, roucas também, e enchem a manhã de uma paz argentina.
Depois, a festa. A do adro. Como antigamente, quando se rompia o silencio, soprando os búzios, tocando as gaitas, cantando. Esta era a hora de perceber o que o escuro tinha deixado escondido: um sapato de cada cor, o fio puxado nas meias, o pijama que teimava em sair pelas pernas das calças. Vinha, depois, a gargalhada, ao som do rajão, o cheiro doce do licor, a estreia das broas, o café de saco a enganar o bocejo e a manhã, já acordada, a iluminar a porta da igreja.
Como todos os anos, inebriamo-nos na alegria destas novenas e vamos antecipando a Festa. Cada missa do parto é um encontro novo. Ficamos mais perto da gruta de Belém, mais perto, cada vez mais perto.
- Até amanhã. Agora, vamos trabalhar.
domingo, 12 de dezembro de 2010
E quando A Festa se atrasa?
Às vezes, acontece: a Festa não coincide com o Natal. E, nesta altura, quando a dor chega, dói mais fundo e o sol demora mais tempo a aparecer.
Às vezes, parece que a alegria da rua ofende as tristezas de dentro de casa. As luzes queimam os olhos que se fazem maré por estes dias. A música perturba os silêncios dos lutos que se choram e se guardam no Natal, também no Natal.
Há casas onde A Festa se vai atrasar. E não será fácil, eu sei. Nunca disse que ia ser fácil ouvir o Glória dos Anjos e chorar, ser Natal e ver o chão a abrir-se, olhar para a estrela e vê-la a apagar-se, mudando o nome da noite e chamando-lhe medo e solidão.
Hoje, gostava que as minhas palavras tivessem algum valor e se revestissem de um pouco de ânimo. Gostava de dizer que, mesmo que, este ano, a Festa se atrase um bocadinho, o Menino Jesus há-de trazer coragem, a Senhora há-de embalar as nossas dores no aconchego do seu manto, S. José há-de cuidar de nós, os pastores hão-de pôr-se a caminho do lugar onde mora a felicidade, a estrela há-de voltar a incendiar o nosso riso.
Se soubesse, escrevia, hoje, palavras de abraço; pendurava um pouco da minha Festa nas árvores que vão ficar vazias este ano; ensinava a ouvir o silêncio que cura e a fixar o olhar na meiguice doce do Menino; mostrava a melhor forma de construir os presépios que vão ficar sem nada.
Se soubesse, escrevia “Amanhã” e enchia a palavra de “vai ser melhor do que hoje”; escrevia “alívio” e a dor doía um bocadinho menos; escrevia “sol” e o nevoeiro derretia-se nas linhas que me sobrassem; escrevia “paz” e uma ternura branca e branda curaria as feridas de quem está a sofrer este Natal.
Não disse que ia ser fácil, não. A Festa vai chegar. Talvez venha este ano um pouco atrasada. Mas, enquanto a dor não passa, vamos deixando que os sinos abram clareiras de Natal na noite de cada um.
Às vezes, acontece: a Festa atrasa-se um bocadinho, mas o Natal acontece na nossa vida, se o deixarmos acontecer.
in Jm 12/12/10
Às vezes, parece que a alegria da rua ofende as tristezas de dentro de casa. As luzes queimam os olhos que se fazem maré por estes dias. A música perturba os silêncios dos lutos que se choram e se guardam no Natal, também no Natal.
Há casas onde A Festa se vai atrasar. E não será fácil, eu sei. Nunca disse que ia ser fácil ouvir o Glória dos Anjos e chorar, ser Natal e ver o chão a abrir-se, olhar para a estrela e vê-la a apagar-se, mudando o nome da noite e chamando-lhe medo e solidão.
Hoje, gostava que as minhas palavras tivessem algum valor e se revestissem de um pouco de ânimo. Gostava de dizer que, mesmo que, este ano, a Festa se atrase um bocadinho, o Menino Jesus há-de trazer coragem, a Senhora há-de embalar as nossas dores no aconchego do seu manto, S. José há-de cuidar de nós, os pastores hão-de pôr-se a caminho do lugar onde mora a felicidade, a estrela há-de voltar a incendiar o nosso riso.
Se soubesse, escrevia, hoje, palavras de abraço; pendurava um pouco da minha Festa nas árvores que vão ficar vazias este ano; ensinava a ouvir o silêncio que cura e a fixar o olhar na meiguice doce do Menino; mostrava a melhor forma de construir os presépios que vão ficar sem nada.
Se soubesse, escrevia “Amanhã” e enchia a palavra de “vai ser melhor do que hoje”; escrevia “alívio” e a dor doía um bocadinho menos; escrevia “sol” e o nevoeiro derretia-se nas linhas que me sobrassem; escrevia “paz” e uma ternura branca e branda curaria as feridas de quem está a sofrer este Natal.
Não disse que ia ser fácil, não. A Festa vai chegar. Talvez venha este ano um pouco atrasada. Mas, enquanto a dor não passa, vamos deixando que os sinos abram clareiras de Natal na noite de cada um.
Às vezes, acontece: a Festa atrasa-se um bocadinho, mas o Natal acontece na nossa vida, se o deixarmos acontecer.
in Jm 12/12/10
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
A Senhora da Lapinha
Disse que sim e sorriu. A serenidade tomou conta dos olhos de Maria e o mundo ficou em paz. Vejo-a, assim, no meu Presépio. Olha para o Menino que adormeceu, na doçura do seu olhar e ensina-me o valor da disponibilidade, do serviço, da vida que se escreve, em cada dia, no silêncio de nós.
Nas palavras que cala, a Senhora da Conceição, diz-me que é preciso saber esperar. Apesar da loucura das compras e da vida, apesar do medo do amanhã, apesar do vento que quer arrancar a esperança, é preciso saber esperar. Contra todo o desespero.
Sigo a direcção do seu sorriso. As asas dos meus olhos pousam na pobreza de um Menino que sorri de dentro do sonho do Seu Natal. Lembro-me, então, de outros natais, em outros tempos, de uma ansiedade doce, do nome Jesus escrito no peito, da saudade da inocência, do dia de estrear a roupa da festa.
A Senhora da lapinha sorri. Eu também sorrio à criança que fui. Do fundo de mim, o sorriso da Senhora da Lapinha diz-me que sim, que é preciso lutar contra o vazio dos sacos cheios de compras, que é preciso acender a alegria, que é preciso contrariar o cinzento da manhã, que é preciso abrir um sorriso nas janelas das casas. Do fundo de mim, o olhar terno da Senhora da Lapinha aponta-me o Deus pequenino, diante do qual se ajoelha, por causa de Quem é quem é.
Disse que sim e sorriu. Ensina-me, hoje, o valor do silêncio. Mostra-me que é possível fazer Natal na pobreza das coisas. Diz-me que a felicidade tem outros nomes, que vive dentro das casas, que se escuta na música do sorriso, que se agarra na mão que segura outras mãos, que se pinta na paz branca que se restaura, todos os dias, dentro de nós.
- Mãe, a Senhora não dorme?
E a mãe diz que não. Ela tem de velar o Menino que tem nos braços. A Senhora da lapinha tem de velar os filhos durante a noite dos seus desencantos, para os impedir de morrer.
A Senhora da Lapinha sorri. Eu também.
in JM de 8/12
Nas palavras que cala, a Senhora da Conceição, diz-me que é preciso saber esperar. Apesar da loucura das compras e da vida, apesar do medo do amanhã, apesar do vento que quer arrancar a esperança, é preciso saber esperar. Contra todo o desespero.
Sigo a direcção do seu sorriso. As asas dos meus olhos pousam na pobreza de um Menino que sorri de dentro do sonho do Seu Natal. Lembro-me, então, de outros natais, em outros tempos, de uma ansiedade doce, do nome Jesus escrito no peito, da saudade da inocência, do dia de estrear a roupa da festa.
A Senhora da lapinha sorri. Eu também sorrio à criança que fui. Do fundo de mim, o sorriso da Senhora da Lapinha diz-me que sim, que é preciso lutar contra o vazio dos sacos cheios de compras, que é preciso acender a alegria, que é preciso contrariar o cinzento da manhã, que é preciso abrir um sorriso nas janelas das casas. Do fundo de mim, o olhar terno da Senhora da Lapinha aponta-me o Deus pequenino, diante do qual se ajoelha, por causa de Quem é quem é.
Disse que sim e sorriu. Ensina-me, hoje, o valor do silêncio. Mostra-me que é possível fazer Natal na pobreza das coisas. Diz-me que a felicidade tem outros nomes, que vive dentro das casas, que se escuta na música do sorriso, que se agarra na mão que segura outras mãos, que se pinta na paz branca que se restaura, todos os dias, dentro de nós.
- Mãe, a Senhora não dorme?
E a mãe diz que não. Ela tem de velar o Menino que tem nos braços. A Senhora da lapinha tem de velar os filhos durante a noite dos seus desencantos, para os impedir de morrer.
A Senhora da Lapinha sorri. Eu também.
in JM de 8/12
domingo, 5 de dezembro de 2010
POR CAUSA DE UM PRESÉPIO (AINDA) VAZIO
Já está. A cidade começa a acender-se no frio luminoso de Dezembro. As casas aquecem-se ao sol e deixam entrar a luz e um pouco da música que o vento traz das bandas do mar. Já cheira a broas acabadas de cozer. Já se acendeu uma vela, a primeira, a que anuncia que a Festa está aí, pendurada no céu das ribeiras, no lavado das cortinas, nos braços das árvores que são as margens das ruas.
Vou entrar, agora, em casa. Deixo-me ficar no segredo de mim e olho o que já está feito: a árvore já está montada, no verde ecológico dos novos tempos, cheia, guardadora de magias antigas e memórias boas do tempo em que se contavam os dias que faltavam para o Natal; o papel pardo já está pintado e pronto para forrar os caixotes que se hão-de encher com as histórias dos pastores que se preparam, na serra inventada, para visitar o Menino Jesus.
Vou ficar aqui, um bocadinho. Ainda não há figuras no presépio da minha casa. Está vazio. Como em Belém, antes da estrela chegar. Como em muitas casas, este Natal. Apesar das compras e das montras e dos presentes. Apesar da embriaguez das luzes.
Deixo-me ficar assim, parada, no meu presépio vazio. O de dentro. Tenho de o compor antes que a noite caia.
Deixo-me ficar. Fico a ouvir o tempo. Vem nas asas da música que a minha memória traz. Vem no cheiro da acácia que, dantes, perfumava a casa. Vem no silêncio do meu presépio vazio. Vem de mim.
As caixas com as imagens já saíram do armário. Amanhã, se Deus quiser, vão começar a contar a história deste Natal. Agora, tenho de tratar do outro, do verdadeiro, do que tenho de construir dentro do peito. Outra vez. Como ontem. Como tenho de fazer todos os dias.
in JM 5/12/10
Vou entrar, agora, em casa. Deixo-me ficar no segredo de mim e olho o que já está feito: a árvore já está montada, no verde ecológico dos novos tempos, cheia, guardadora de magias antigas e memórias boas do tempo em que se contavam os dias que faltavam para o Natal; o papel pardo já está pintado e pronto para forrar os caixotes que se hão-de encher com as histórias dos pastores que se preparam, na serra inventada, para visitar o Menino Jesus.
Vou ficar aqui, um bocadinho. Ainda não há figuras no presépio da minha casa. Está vazio. Como em Belém, antes da estrela chegar. Como em muitas casas, este Natal. Apesar das compras e das montras e dos presentes. Apesar da embriaguez das luzes.
Deixo-me ficar assim, parada, no meu presépio vazio. O de dentro. Tenho de o compor antes que a noite caia.
Deixo-me ficar. Fico a ouvir o tempo. Vem nas asas da música que a minha memória traz. Vem no cheiro da acácia que, dantes, perfumava a casa. Vem no silêncio do meu presépio vazio. Vem de mim.
As caixas com as imagens já saíram do armário. Amanhã, se Deus quiser, vão começar a contar a história deste Natal. Agora, tenho de tratar do outro, do verdadeiro, do que tenho de construir dentro do peito. Outra vez. Como ontem. Como tenho de fazer todos os dias.
in JM 5/12/10
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
quase na festa
Na vizinhança da Festa, arrumamos a vida. Limpamos a casa que somos e descobrimos o que fomos guardando ao longo do tempo: flores secas, datas gravadas em livros amarelos, postais do tempo em que ainda íamos ao correio, cartas de remetentes que já não o são, fotografias antigas, sonhos misturados com as contas que talvez ainda estejam por pagar.
Abrimos as janelas que dão para o lado do mar. É então que o vento norte nos conta notícias dos que já não se vão sentar à mesa deste Natal e nos diz que sim, que estão bem, que têm saudades. O mar inunda, então, os nossos olhos, falando-nos de glórias antigas, de um tempo azul de felicidade em que tudo era possível e não havia tempestades a impedir a viagem.
Agora, nas imediações da Festa, acendemos as estrelas para nos iluminarem o caminho, abrimos intervalos de verão no inverno das Palavras, preparamos o peito para receber quem vem. Talvez sejam os olhos dos miúdos a lamberem, gulosos, as montras de brinquedos. Talvez sejam as luzes que, apesar de trémulas, ainda desfazem as sombras escondidas nas paredes, nem que seja pela eternidade que dura a ilusão. Ou o cheiro a lavado dos armários onde se escondeu, o ano inteiro, o medo de partir os copos, de sujar as toalhas, de arriscar a vida. Ou o grito dos sorrisos que olham o recibo do ordenado que, este mês, parece um bocadinho maior e talvez chegue para acender a alegria no peito dos mais pequenos.
A noite faz-se mais música, por este tempo. E traz, em cada nota, o cheiro a cal de outros tempos, a frescura dos lençóis novos que se comprava para a Festa, o sabor frio que as tangerinas colavam nos dedos. Temos todas estas coisas no fundo das gavetas, escondidas como um tesouro debaixo do forro. Pusemos-lhe coisas em cima: a doença, o desencanto, o vazio das ausências, o medo nocturno do futuro.
Temos de ir buscá-las, agora, nas limpezas da Festa. Elas guardam a magia de transformar as lágrimas nas bolas coloridas do pinheiro. E falam de um tempo, de outro tempo em que, com menos coisas, éramos mais felizes.
Já falta pouco, falta muito pouco, para que um Menino nos volte a falar, outra vez, mais uma vez, de Esperança.
Estamos quase na Festa. Temos de nos despachar.
in JM 1/12
Abrimos as janelas que dão para o lado do mar. É então que o vento norte nos conta notícias dos que já não se vão sentar à mesa deste Natal e nos diz que sim, que estão bem, que têm saudades. O mar inunda, então, os nossos olhos, falando-nos de glórias antigas, de um tempo azul de felicidade em que tudo era possível e não havia tempestades a impedir a viagem.
Agora, nas imediações da Festa, acendemos as estrelas para nos iluminarem o caminho, abrimos intervalos de verão no inverno das Palavras, preparamos o peito para receber quem vem. Talvez sejam os olhos dos miúdos a lamberem, gulosos, as montras de brinquedos. Talvez sejam as luzes que, apesar de trémulas, ainda desfazem as sombras escondidas nas paredes, nem que seja pela eternidade que dura a ilusão. Ou o cheiro a lavado dos armários onde se escondeu, o ano inteiro, o medo de partir os copos, de sujar as toalhas, de arriscar a vida. Ou o grito dos sorrisos que olham o recibo do ordenado que, este mês, parece um bocadinho maior e talvez chegue para acender a alegria no peito dos mais pequenos.
A noite faz-se mais música, por este tempo. E traz, em cada nota, o cheiro a cal de outros tempos, a frescura dos lençóis novos que se comprava para a Festa, o sabor frio que as tangerinas colavam nos dedos. Temos todas estas coisas no fundo das gavetas, escondidas como um tesouro debaixo do forro. Pusemos-lhe coisas em cima: a doença, o desencanto, o vazio das ausências, o medo nocturno do futuro.
Temos de ir buscá-las, agora, nas limpezas da Festa. Elas guardam a magia de transformar as lágrimas nas bolas coloridas do pinheiro. E falam de um tempo, de outro tempo em que, com menos coisas, éramos mais felizes.
Já falta pouco, falta muito pouco, para que um Menino nos volte a falar, outra vez, mais uma vez, de Esperança.
Estamos quase na Festa. Temos de nos despachar.
in JM 1/12
sábado, 27 de novembro de 2010
Sobre a noite

É preciso acender uma lua redonda na noite deste céu. É preciso abrir buracos de luz no areal imenso do desespero. É preciso voltar a sentir o beijo do mar na orla da praia. É preciso plantar a esperança no que resta das cinzas da montanha que, apesar da raiva do lume, continua de cabeça levantada.
Andamos tão tristes, nas vésperas deste Natal! Estamos asfixiados no medo do futuro, na precariedade do trabalho, no vazio da carteira, na incapacidade de olhar o sol de frente, na (quase) impossibilidade de acreditar que, um dia, voltaremos a ser pessoas felizes.
Hoje, a minha voz quer ser um grito. Porque é urgente que se fale do milagre de acordar cada manhã, que se revele o segredo dos sorrisos, das gargalhadas, dos abraços, da amizade, que se ensine a pendurar gambiarras de alegria nas varandas das nossas casas.
Hoje, a minha voz quer ser um prado onde o olhar descanse na cama verde do chão ou um mar azul-coragem que lembre partidas e regressos, vontades e amanhãs. A minha voz quer ser o que não há: esperança, esperança, esperança.
A minha voz quer ser. Isso, simplesmente: voz. Dar vida às palavras que têm alma dentro: amor, solidariedade, justiça, verdade. A minha voz quer falar da Vida que nasce em cada momento e que, tantas vezes, se esconde atrás do que não vale a pena. Porque é urgente falar da vida.
Hoje, a minha voz é a voz de quem ainda acredita que é possível – que há-de ser possível! – voltar a acender a lua, uma lua redonda, na noite deste céu.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
O MEU AMIGO
Abre-me o mundo num sorriso. Traz-me, cada dia, uma história nova, feita de pedaços de memória que vai regando com versos soltos de poetas que nunca li. Traz-me um tempo que eu nunca conheci, porque nunca precisei de trabalhar para ajudar a pagar a renda, nem de fugir de casa quando a chuva ameaçava romper o telhado, nas noites sem lua de invernos antigos.
Fala-me de outros homens que não tiveram tempo de ser meninos, de crescer no vagar que os rapazes precisam, para saber de que matéria é feita a vida. Fala-me da impossibilidade de seguir o caminho que o sonho lhe pedia, o de ser doutor. Fala-me dos livros que aprendeu a amar no impossível de os ler. Fala.
Sorri. O seu sorriso ilumina a minha tristeza. Nasceu no tempo da guerra. Lembra-se da fome e do medo de querer mais um bocado de pão. Lembra-se da vergonha que sentia, quando os buracos dos sapatos o impediam de se ajoelhar na igreja. Lembra-se de querer mais, muito para além da tipografia onde trabalhava, dos recados que fazia e do dinheiro que entregava à mãe no final da semana. Lembra-se do rol da venda,
- para a semana, vizinho, ponha na conta, por favor.
Fala muito, o meu amigo. E sorri. Como se a vida não o tivesse impedido de ter sido criança, de jogar à bola com os amigos, no caminho, de ir à escola e aprender a ser doutor. Como no sonho. O impossível.
- Estes rapazes não entendem. Tiveram tudo. Não sabem o que custa ser homem, lutar pelas coisas.
Sabe da vida, o meu amigo. E sorri. O seu sorriso faz-me pensar em tudo o que tenho e que não dependeu do meu esforço. Conta-me que os seus filhos são o que ele nunca pôde ser: doutores. E o orgulho do seu olhar derrama luz na nossa conversa. Fala-me deles e da casa que construiu e que é sua, porque amassou a areia com suor, sangue e algumas lágrimas. Fala-me do futuro e do medo dele.
- Nunca fui menino, nunca brinquei com carrinhos de lata, não estudei, não fui doutor, mas aprendi que a vida tem muito mais valor assim. Porque os miúdos de agora têm tudo, mas não têm nada.
O meu amigo tem, em cada manhã, uma história nova. E sorri. Tem a juventude que não viveu a iluminar-lhe os olhos que se acendem debaixo dos cabelos brancos.
Fala-me de outros homens que não tiveram tempo de ser meninos, de crescer no vagar que os rapazes precisam, para saber de que matéria é feita a vida. Fala-me da impossibilidade de seguir o caminho que o sonho lhe pedia, o de ser doutor. Fala-me dos livros que aprendeu a amar no impossível de os ler. Fala.
Sorri. O seu sorriso ilumina a minha tristeza. Nasceu no tempo da guerra. Lembra-se da fome e do medo de querer mais um bocado de pão. Lembra-se da vergonha que sentia, quando os buracos dos sapatos o impediam de se ajoelhar na igreja. Lembra-se de querer mais, muito para além da tipografia onde trabalhava, dos recados que fazia e do dinheiro que entregava à mãe no final da semana. Lembra-se do rol da venda,
- para a semana, vizinho, ponha na conta, por favor.
Fala muito, o meu amigo. E sorri. Como se a vida não o tivesse impedido de ter sido criança, de jogar à bola com os amigos, no caminho, de ir à escola e aprender a ser doutor. Como no sonho. O impossível.
- Estes rapazes não entendem. Tiveram tudo. Não sabem o que custa ser homem, lutar pelas coisas.
Sabe da vida, o meu amigo. E sorri. O seu sorriso faz-me pensar em tudo o que tenho e que não dependeu do meu esforço. Conta-me que os seus filhos são o que ele nunca pôde ser: doutores. E o orgulho do seu olhar derrama luz na nossa conversa. Fala-me deles e da casa que construiu e que é sua, porque amassou a areia com suor, sangue e algumas lágrimas. Fala-me do futuro e do medo dele.
- Nunca fui menino, nunca brinquei com carrinhos de lata, não estudei, não fui doutor, mas aprendi que a vida tem muito mais valor assim. Porque os miúdos de agora têm tudo, mas não têm nada.
O meu amigo tem, em cada manhã, uma história nova. E sorri. Tem a juventude que não viveu a iluminar-lhe os olhos que se acendem debaixo dos cabelos brancos.
domingo, 21 de novembro de 2010
Balada [ao que partiu daqui]
Podes vir, sem medo. Aqui, nesta casa de pedra, há lugar para ti. Temos a mesa posta e o coração pronto para um abraço, aquele que levaste contigo, quando bateste a porta, engoliste as lágrimas e foste à procura de mundo.
Podes vir. A ilha nunca mais foi a mesma na tua ausência. Nem nós. Andamos mais velhos, mais sós. Andamos mais longe de nós. As nossas mãos seguram o vazio que tem a forma oca das tuas. As nossas pernas prendem-se cada vez mais ao chão, árvores desertas de verde. Os nossos olhos estão presos ao balcão donde vigiamos o horizonte.
Podes vir, sem medo das palavras. Nem dos silêncios. Nem dos intervalos entre as palavras e os silêncios. Quando nos avistares, as aves hão-de ensinar-te a melodia para a palavra que esperamos:
-voltei.
Quando chegares, o vento há-de pendurar nas ramagens o perfume do perdão, da alegria, dos sorrisos que guardámos no fundo das arcas para o momento de voltar a ver os teus olhos, líquidos de mar. A saudade. Então, as marés hão-de deixar escritas no calhau, com a renda branca da espuma, a esperança de um tempo novo.
Quando chegares, a terra há-de ficar grávida de Primavera, mesmo que seja Outono. As andorinhas hão-de regressar sem medo do Inverno e cartografar o nosso futuro, no céu da nossa esperança. Vamos acender os balões de S. João nas parreiras castanhas de Novembro. E vamos ser felizes. Outra vez.
Podes vir, sem medo de chorar. Temos a mesa posta e o coração pronto.
Estamos à tua espera.
Podes vir. A ilha nunca mais foi a mesma na tua ausência. Nem nós. Andamos mais velhos, mais sós. Andamos mais longe de nós. As nossas mãos seguram o vazio que tem a forma oca das tuas. As nossas pernas prendem-se cada vez mais ao chão, árvores desertas de verde. Os nossos olhos estão presos ao balcão donde vigiamos o horizonte.
Podes vir, sem medo das palavras. Nem dos silêncios. Nem dos intervalos entre as palavras e os silêncios. Quando nos avistares, as aves hão-de ensinar-te a melodia para a palavra que esperamos:
-voltei.
Quando chegares, o vento há-de pendurar nas ramagens o perfume do perdão, da alegria, dos sorrisos que guardámos no fundo das arcas para o momento de voltar a ver os teus olhos, líquidos de mar. A saudade. Então, as marés hão-de deixar escritas no calhau, com a renda branca da espuma, a esperança de um tempo novo.
Quando chegares, a terra há-de ficar grávida de Primavera, mesmo que seja Outono. As andorinhas hão-de regressar sem medo do Inverno e cartografar o nosso futuro, no céu da nossa esperança. Vamos acender os balões de S. João nas parreiras castanhas de Novembro. E vamos ser felizes. Outra vez.
Podes vir, sem medo de chorar. Temos a mesa posta e o coração pronto.
Estamos à tua espera.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
SOBRE OS POETAS
Às vezes, as palavras queimam. Abrem lumes de prata na negrura da impossibilidade de as dizer. São lua que se derrete no mar. Luz. Música. Silêncio líquido.
Nasce, então, a poesia: poeira lírica do céu que a mão frágil do poeta semeia. Ousadia, talvez.
O poeta tem palavras enredadas nos dedos: rosários de amores e desencantos, de medos e de esperanças. Com elas, adoça a vida, escreve o mundo e partilha imagens como quem conta um segredo.
O poeta tem beijos na voz. E desenha com eles mapas de sentidos num tempo que não conta. Azul. Divinamente azul. Tecidos com fios de luz, bordados com o arrepio que o vento acende nas paredes dos olhos.
O poeta encanta a noite. Como Oriana, a fada boa da Sophia que, um dia, se esqueceu de si para se dar aos outros. Asas. O poeta tem asas na voz. Música. As palavras do poeta rezam na dança dos sons, na paz branca que deixam cair no silêncio das folhas.
O poeta é irmão dos seus irmãos de humanidade. Ama-os, na generosidade da sua entrega. Dá-se, na alegria de abrir o peito e de mostrar a luz que transmuta em palavras. Faz delas razão de ser quem é: artífice, grito, silêncio, mundo e vazio, tempo e eternidade, ilha e universo.
Nasce, então, a poesia: poeira lírica do céu que a mão frágil do poeta semeia. Ousadia, talvez.
O poeta tem palavras enredadas nos dedos: rosários de amores e desencantos, de medos e de esperanças. Com elas, adoça a vida, escreve o mundo e partilha imagens como quem conta um segredo.
O poeta tem beijos na voz. E desenha com eles mapas de sentidos num tempo que não conta. Azul. Divinamente azul. Tecidos com fios de luz, bordados com o arrepio que o vento acende nas paredes dos olhos.
O poeta encanta a noite. Como Oriana, a fada boa da Sophia que, um dia, se esqueceu de si para se dar aos outros. Asas. O poeta tem asas na voz. Música. As palavras do poeta rezam na dança dos sons, na paz branca que deixam cair no silêncio das folhas.
O poeta é irmão dos seus irmãos de humanidade. Ama-os, na generosidade da sua entrega. Dá-se, na alegria de abrir o peito e de mostrar a luz que transmuta em palavras. Faz delas razão de ser quem é: artífice, grito, silêncio, mundo e vazio, tempo e eternidade, ilha e universo.
domingo, 7 de novembro de 2010
AMIGOS

Não preciso de dizer quem fala porque eles conhecem a minha voz, o tom da minha voz, a alegria ou a angústia que não preciso de dizer.
Não preciso de pedir que fiquem ao pé de mim, quando o mundo desmaia no meu peito e não tenho nenhum lugar para onde fugir.
Não preciso de procurar um lenço para que as suas mãos me enxuguem as lágrimas e me aqueçam a tristeza para que ela seja menos triste.
Falo de amigos, portanto. Dos que têm um bocado da minha alma dentro da deles. Dos que ficam comigo, nos momentos em que todos os outros têm mais que fazer. Dos que riem comigo, choram comigo, seguram as minhas mãos e me dizem que a vida vale sempre a pena. Dos que me ensinam a redefinir o caminho e me ajudam a usar as pedras do chão para fazer delas, degraus. Dos que me ligam apenas porque tinham saudades minhas. Dos que me ajudam a escrever a vida, todos os dias.
Falo dos que me iluminam as manhãs e as tardes e os silêncios que as noites sem anjos escurecem. Falo dos que têm tempo para mim, para me ouvir, para estar comigo, apenas para isso: ficar.
E falo de mim. Do nada que seria a minha vida sem amigos. Da solidão dos meus dias sem abraços. Do medo da noite sem luares. Da tristeza.
Não falo do facebook, não. Não falo da contabilidade dos que me visitam nos sítios da net. Não falo dos que se sentam ao meu lado no autocarro e conversam comigo sobre o tempo, sobre a crise, sobre a falta de valores, sobre qualquer coisa.
Falo de gente, dos poucos que partilham os meus sonhos, dos que me contam os seus, dos que não têm medo do que eu vá pensar se me disserem a verdade, dos que deixam que eu faça parte das suas vidas, dos que não têm medo do silêncio quando não há palavras para dizer.
Falo de nós. E guardo neste pronome todos os nomes. Ponho-lhe um coração à volta. Peço a Deus que os guarde, no para sempre que durar as nossas vidas.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
De portas
“A porta mora à espera”
Daniel Faria, Poesias
Já cavámos tantos alicerces. Já construímos tantos sonhos. Já trilhámos tantos caminhos. Já colhemos tanto pão. Já fomos luz. Já fomos sombra. Já fomos pedra, estrela, chão, alimento.
Agora, somos portas. Estamos sentados no degrau da vida à espera do momento certo para sermos mais do que portas, para sermos casa, para sermos gente com alma dentro. Estamos à espera. As portas esperam sempre qualquer coisa: que a noite acabe mais cedo, que a chuva não entre, que o vento não rebente as dobradiças que andam presas nos gonzos, que a felicidade venha nas asas do vento que bebe o mar, que alguém peça para entrar.
Somos portas paradas na berma das ruas. Às vezes, abertas; outras, trancadas; a maioria das vezes, no trinco. Assim, não corremos o risco de nos acusarem do egoísmo de que sofre a gente que mora dentro de nós. É que fechadas, fechadas, não estamos. Abertas também não convém: temos medo das tempestades que levantam os segredos que escondemos debaixo do tapete. Assim, encostadas, ficamos mais ou menos ao abrigo do sol que rasga as sombras que projectamos nas paredes. Ficamos no mais ou menos, na tibieza que não compromete, que é nada mas que não parece.
O segredo é não contar à rua que somos portas encostadas. Talvez, assim, nos guardemos dentro da concha, com a consciência aliviada do
- era só empurrar!
se alguém precisar de nós.
Somos portas paradas na boca das casas. Entreabertas. À espera de coragem para mostrar o por dentro da nossa vida. À espera de mãos com coragem para bater. À espera da força para deixar passar a Luz que vem dos lados do céu.
Somos portas. Afinal, a nossa missão é permitir passagens.
Daniel Faria, Poesias
Já cavámos tantos alicerces. Já construímos tantos sonhos. Já trilhámos tantos caminhos. Já colhemos tanto pão. Já fomos luz. Já fomos sombra. Já fomos pedra, estrela, chão, alimento.
Agora, somos portas. Estamos sentados no degrau da vida à espera do momento certo para sermos mais do que portas, para sermos casa, para sermos gente com alma dentro. Estamos à espera. As portas esperam sempre qualquer coisa: que a noite acabe mais cedo, que a chuva não entre, que o vento não rebente as dobradiças que andam presas nos gonzos, que a felicidade venha nas asas do vento que bebe o mar, que alguém peça para entrar.
Somos portas paradas na berma das ruas. Às vezes, abertas; outras, trancadas; a maioria das vezes, no trinco. Assim, não corremos o risco de nos acusarem do egoísmo de que sofre a gente que mora dentro de nós. É que fechadas, fechadas, não estamos. Abertas também não convém: temos medo das tempestades que levantam os segredos que escondemos debaixo do tapete. Assim, encostadas, ficamos mais ou menos ao abrigo do sol que rasga as sombras que projectamos nas paredes. Ficamos no mais ou menos, na tibieza que não compromete, que é nada mas que não parece.
O segredo é não contar à rua que somos portas encostadas. Talvez, assim, nos guardemos dentro da concha, com a consciência aliviada do
- era só empurrar!
se alguém precisar de nós.
Somos portas paradas na boca das casas. Entreabertas. À espera de coragem para mostrar o por dentro da nossa vida. À espera de mãos com coragem para bater. À espera da força para deixar passar a Luz que vem dos lados do céu.
Somos portas. Afinal, a nossa missão é permitir passagens.
sábado, 23 de outubro de 2010
A DOR DA ÁGUA

“Era água, mas ardia”.
(Mia Couto, idades cidades divindades: 103 )
De repente, o céu voltou a derramar-se sobre a Ilha. Empurrámos a montanha com o olhar e pedimos-lhe que não, que não viesse, de novo, enterrar a vida que se constrói nas suas raízes. Porque o povo daqui vive na raiz Das montanhas, com os olhos postos no mar. Fugimos das estradas que a água rasgava nos caminhos. Trancámos as casas e ficámos à espera que acabasse. A chuva. O medo. O grito que a ribeira enrolava na garganta do calhau.
E rezámos. Pedimos que o céu se calasse, que o mar escoasse os restos que o fogo deixou, na ânsia de comer o que não lhe pertencia. Chamámos por Deus, como fazemos sempre que a angústia nos rói o entendimento.
De repente, o silêncio. Um silêncio de lembrança. Um silêncio de estilhaço. Um silêncio. Apenas. Sabemos bem como são fracas as nossas paredes. Mas sabemos também que há mãos que sabem como sustê-las. Sabemos bem como dói a água no peito de quem vive na beirinha da terra. Mas conhecemos também a sede do chão que a conduz aos alicerces das árvores. Sabemos bem a cor do medo de quem já viu a maré levar às costas o que é seu. Mas sabemos também que há braços que seguram as casas e as impedem de voltar a morrer.
A chuva voltou. E doeu. A água das ribeiras desaguou no nosso peito. E doeu. Lembrámo-nos de que a vida se suspende na fragilidade de um fio. Mas percebemos também que não estamos sós, porque, de vez em quando, um rasgo de azul afastava a chuva, trazia a esperança e sentíamos que, afinal, Deus tinha escutado o nosso
- Rogai por nós.
A água doeu. Mas a dor vai passar.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
À PROCURA DE SANTOS
- Quando eu for grande.
Era assim que se verbalizavam os sonhos. Queríamos ser polícias ou bombeiros, descobrir ilhas desertas com tesouros dentro, ser actores de cinema ou bailarinas clássicas. Queríamos casar, ter filhos, ser padre ou vestir um hábito de freira. A felicidade era acessível. Bastava ser grande e pronto.
Depois, crescemos a perceber que a vida nem sempre é assim, concretizável desta maneira, que nem sempre as coisas eram pretas ou brancas, quentes ou frias, boas ou más. Afinal, não bastava crescer. Era preciso mais: ter saúde, ter amigos, ter dinheiro, ter sorte. Era preciso muito mais: descobrir onde estava o sentido da nossa vida.
Aprendemos a escolher os modelos que servissem os nossos propósitos: os pais, os professores, os cantores da moda, os empresários de sucesso, as personagens inventadas da televisão. Mas, agora que sabemos que esses ídolos duram pouco, andamos à procura de outra coisa. De santos, talvez, daqueles que deixaram que Deus lhes pegasse na mão para O ajudarem ma escrever a História do seu tempo.
Os que me olham do altar ensinam-me que isso é possível. Penso em São Francisco, o irmão da natureza e na forma como vivia a humildade; penso no que me ensinou Santo Agostinho, Santa Teresa ou São Tomás de Aquino; penso no que viveram os Pastorinhos de Fátima numa vida tão pequenina; admiro o trabalho de S. João Bosco que me ensinou a ser quem sou; penso em S. Paulo e no mundo que ganhou, penso nos outros, naqueles que não cabem aqui, porque a lista é grande e as palavras, miúdas.
Ando à procura de santos. E falo deles. Daqueles que, em momentos de crise, me mostram que é possível continuar a lutar, daqueles que viveram aqui, na ilha das marés certas, das flores festivas, dos ares doces e dos montes soberbos. Falo dos que vivem ao nosso lado e vão segurando, com amor, os nossos cansaços, amparando os nossos desesperos, fazendo milagres todos os dias, tirando sorrisos das lágrimas, plantando flores nos desertos, encontrando bocados de pão no fundo das arcas e lascas de esperança nos temporais.
Ando à procura de santos. Porque sei que eles existem. E andam aqui. E mostram-nos a face de Deus. E fazem de nós pessoas melhores.
Ando à procura de santos. Andamos todos. Precisamos de acreditar que, como de outras vezes, os milagres acontecem, o sol continua a brilhar, há-de haver uma solução para o país e havemos de voltar a ser felizes.
Era assim que se verbalizavam os sonhos. Queríamos ser polícias ou bombeiros, descobrir ilhas desertas com tesouros dentro, ser actores de cinema ou bailarinas clássicas. Queríamos casar, ter filhos, ser padre ou vestir um hábito de freira. A felicidade era acessível. Bastava ser grande e pronto.
Depois, crescemos a perceber que a vida nem sempre é assim, concretizável desta maneira, que nem sempre as coisas eram pretas ou brancas, quentes ou frias, boas ou más. Afinal, não bastava crescer. Era preciso mais: ter saúde, ter amigos, ter dinheiro, ter sorte. Era preciso muito mais: descobrir onde estava o sentido da nossa vida.
Aprendemos a escolher os modelos que servissem os nossos propósitos: os pais, os professores, os cantores da moda, os empresários de sucesso, as personagens inventadas da televisão. Mas, agora que sabemos que esses ídolos duram pouco, andamos à procura de outra coisa. De santos, talvez, daqueles que deixaram que Deus lhes pegasse na mão para O ajudarem ma escrever a História do seu tempo.
Os que me olham do altar ensinam-me que isso é possível. Penso em São Francisco, o irmão da natureza e na forma como vivia a humildade; penso no que me ensinou Santo Agostinho, Santa Teresa ou São Tomás de Aquino; penso no que viveram os Pastorinhos de Fátima numa vida tão pequenina; admiro o trabalho de S. João Bosco que me ensinou a ser quem sou; penso em S. Paulo e no mundo que ganhou, penso nos outros, naqueles que não cabem aqui, porque a lista é grande e as palavras, miúdas.
Ando à procura de santos. E falo deles. Daqueles que, em momentos de crise, me mostram que é possível continuar a lutar, daqueles que viveram aqui, na ilha das marés certas, das flores festivas, dos ares doces e dos montes soberbos. Falo dos que vivem ao nosso lado e vão segurando, com amor, os nossos cansaços, amparando os nossos desesperos, fazendo milagres todos os dias, tirando sorrisos das lágrimas, plantando flores nos desertos, encontrando bocados de pão no fundo das arcas e lascas de esperança nos temporais.
Ando à procura de santos. Porque sei que eles existem. E andam aqui. E mostram-nos a face de Deus. E fazem de nós pessoas melhores.
Ando à procura de santos. Andamos todos. Precisamos de acreditar que, como de outras vezes, os milagres acontecem, o sol continua a brilhar, há-de haver uma solução para o país e havemos de voltar a ser felizes.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Um estilhaço de céu
Ontem, do alto de mim e da soberba de muitos dos meus dias, desci os olhos ao chão. Havia uma lasca de céu caída na calçada: os olhos azuis de um homem e um mar de tormenta dentro de um saco de plástico, ao alcance da mão.
Passo ali todos os dias e nunca o vi. Os meus olhos sabem escolher o que não me faz mal: a flor que nasce na lama, o bocadinho de sol por entre as nuvens ou o sorriso feliz dos miúdos que seguram o mundo dentro da mão da mãe. Nunca me dei conta da transparência tristemente aguada daqueles olhos azuis. Ontem, sim. E parei. Percebi que os meus olhos tinham vergonha dos dele. Porque tenho o sol na minha vida e ele não. Porque tenho risos pendurados nas palavras e ele não. Porque os pássaros fizeram ninhos no meu quintal e ele não tem quintal.
Passo ali todos os dias. Olho o chão onde dorme e penso,
- coitado
e ando sempre, a fazer, de cabeça, a lista do dia, a pensar em mim e na vida que não me dá mais de um domingo por semana ou no mundo que, longe, muito longe, tem vontade de morrer, ou na crise que me leva o que não tenho, ou
Às vezes, descarrego a consciência com uma moeda e fico despachadinha da boa acção do dia. Ontem, não. Parei por causa de uma tirinha líquida de azul que olhava para mim. Deixei que o meu olhar derramasse sobre ele um sorriso. Não tinha mais nada, ontem de manhã. Apenas um sorriso que me deixou com um travo amargo na garganta. Foi então que aquele estilhaço de céu queimou os meus olhos. Ou talvez tivesse sido o orvalho da minha vergonha que me subiu à cara e me obrigou a ficar ali mais um bocadinho.
Não posso garantir que o resto tenha sido assim . Mas parece-me ter ouvido uma toada que se enrolava na língua daquele homem que tinha céu dentro dos olhos:
- Obrigado, senhora.
E eu, que tenho sempre as palavras prontas, não disse nada. As minhas palavras tinham perdido a voz.
Foi então que o homem levantou o saco que tinha forma de garrafa e tomou um trago daquele mar tinto que tinha ao alcance da mão. Tinha ali o que ninguém lhe dava: a ilusão de ser feliz.
Aquele brinde era a mim. Eu voltei a sorrir e disse-lhe,
- até amanhã.
Pode ser que hoje lhe pergunte o nome.
Passo ali todos os dias e nunca o vi. Os meus olhos sabem escolher o que não me faz mal: a flor que nasce na lama, o bocadinho de sol por entre as nuvens ou o sorriso feliz dos miúdos que seguram o mundo dentro da mão da mãe. Nunca me dei conta da transparência tristemente aguada daqueles olhos azuis. Ontem, sim. E parei. Percebi que os meus olhos tinham vergonha dos dele. Porque tenho o sol na minha vida e ele não. Porque tenho risos pendurados nas palavras e ele não. Porque os pássaros fizeram ninhos no meu quintal e ele não tem quintal.
Passo ali todos os dias. Olho o chão onde dorme e penso,
- coitado
e ando sempre, a fazer, de cabeça, a lista do dia, a pensar em mim e na vida que não me dá mais de um domingo por semana ou no mundo que, longe, muito longe, tem vontade de morrer, ou na crise que me leva o que não tenho, ou
Às vezes, descarrego a consciência com uma moeda e fico despachadinha da boa acção do dia. Ontem, não. Parei por causa de uma tirinha líquida de azul que olhava para mim. Deixei que o meu olhar derramasse sobre ele um sorriso. Não tinha mais nada, ontem de manhã. Apenas um sorriso que me deixou com um travo amargo na garganta. Foi então que aquele estilhaço de céu queimou os meus olhos. Ou talvez tivesse sido o orvalho da minha vergonha que me subiu à cara e me obrigou a ficar ali mais um bocadinho.
Não posso garantir que o resto tenha sido assim . Mas parece-me ter ouvido uma toada que se enrolava na língua daquele homem que tinha céu dentro dos olhos:
- Obrigado, senhora.
E eu, que tenho sempre as palavras prontas, não disse nada. As minhas palavras tinham perdido a voz.
Foi então que o homem levantou o saco que tinha forma de garrafa e tomou um trago daquele mar tinto que tinha ao alcance da mão. Tinha ali o que ninguém lhe dava: a ilusão de ser feliz.
Aquele brinde era a mim. Eu voltei a sorrir e disse-lhe,
- até amanhã.
Pode ser que hoje lhe pergunte o nome.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Francisco (o santo de Assis)

Há dias em que precisamos ouvir a poesia da natureza, o som cristalino das gargalhadas dos miúdos, a dança da chuva das gaivotas. Há dias assim. Talvez seja o Outono a querer enfeitiçar as montanhas, talvez o medo de um amanhã com pouca esperança.
É aí que entra Francisco, o santo das coisas simples, o amigo da pobreza e da alegria, o poeta de Deus e da criação.
Hoje, deixo que as minhas palavras sigam os seus passos. Vai descalço. As minhas frases também. Não valem nada para além do que querem dizer. Isto: nós somos a grande manifestação da bondade divina. Vivemos numa terra que se tornou a nossa casa e partilhamos o ar com todas as criaturas: as árvores, os bichos, o sol, a chuva e todos aqueles que vivem connosco este mistério de viver.
Identifico-me com ele, antes de ser quem foi. Infelizmente. Tenho muito que aprender para ser uma sombra do santo em que se tornou. Deixou recados suspensos na História: ensinou que é preciso ter coragem para rasgar o que não serve e se lançar a um Caminho que parece estranho aos olhos do mundo; mostrou que, apesar das lutas, o amor consegue o impossível; explicou que a humildade, o desapego e a pobreza são instrumentos de santidade; pegou no sorriso de Deus e desenhou com ele a Natureza e tudo o que nela vive.
Francisco de Assis abraçou a cruz. E nela, abraçou também as dores do mundo, rasgou as solidões e os desesperos e olhou para o sofrimento como quem vê nele a Salvação.
Um poeta, Francisco. Um santo. O meu santo das mãos vazias. O meu santo das palavras certas:
“É dando que se recebe; é perdoando que se é perdoado e é morrendo que se nasce para a vida eterna.”
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
ANOTAÇÕES DO TEMPO QUE PASSA

Estão ali, falando em silêncio dos recados que o tempo deixou suspensos nas nuvens, chorando os que partiram antes deles, mastigando as palavras na boca, numa toada antiga, que já foi canção de embalar, que já foi cantiga de amor, que já foi riso, que já foi grito, que já foi. Ponto.
Estão ali com a vida por contar. À espera que alguém tenha tempo para parar e ouvir as histórias que os anos gravaram nos vincos da pele. Sentados na beira da morte, aproveitam os restos do sol, o sopro de mais este vento, o sorriso de algum miúdo que não tenha medo do silêncio das mãos que a idade lhes foi derramando no colo.
Estão ali e são exactamente o que nós vamos ser, amanhã. Se Deus quiser, na lentidão branda de quem não vai pedir desculpas, o nosso corpo vai ficando mais perto do chão, a lua vai derramando lágrimas de prata sobre as nossas cabeças, as levadas da nossa cara vão bebendo o brilho da juventude. Como eles, não vamos saber onde guardámos o espelho onde estava a beleza fresca da nossa gargalhada.
Estão ali. São pedaços de Outono que deixam pistas para o nosso Inverno. Estão sós. Desesperadamente sós. Às vezes, dentro da nossa casa. Ao nosso lado. Sentados à nossa mesa. Como se ocupassem um lugar que já não lhes pertencesse.
Estão ali. À espera que a nossa mão aqueça a sua, que o nosso sorriso ilumine a sua cegueira, que a nossa voz lhes conte da vida que corre lá fora, do sol que acorda as cidades, do mundo que, todas as manhãs, traz uma novidade.
Estão ali. E não morreram ainda. Os moribundos somos nós porque os deixamos adoecer de passado. Já nos esquecemos das vezes em que eles cantaram para adormecermos? Já não nos lembramos dos beijos que beberam as nossas febres? Já não precisamos dos truques deles para enganar os pesadelos? Já perdemos o sabor das lágrimas que nos mataram a sede?
Estão ali. Dependem de nós. Amanhã, certamente, a nossa solidão terá exactamente o tamanho da deles.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
ANO NOVO
O toque para a primeira aula arruma os passos em direcção às salas. O tempo é de ir. E ir, nestes primeiros dias, tem sabor de coisas novas aprendidas na esperança de que este será um ano bom.
Há muito que se prepara este começo. E o resto. Setembro é o mês de sonhar as aulas no papel, é o mês de procurar as soluções para os problemas que se adivinham, é o mês de desenhar as estratégias do ano escolar.
As escolas estão prontas. Ou quase. Desenha-se a vontade nos tampos das mesas. Preparam-se os discursos de abertura, pendurando a crise nas palavras. Talvez falte o dinheiro para fotocópias. Talvez ainda não seja este ano que as novas tecnologias sejam parte efectiva do material escolar. Talvez se tenha de ressuscitar o quadro e o giz branco e de cor que marcaram o nosso tempo. Talvez se tenha de reinventar o valor das palavras velhas que falavam de trabalho, de deveres, de livros.
O professor já chegou. Tem um nome. Tem uma história de vida para contar. Não quer calar as palavras no silêncio porque sabe quem já foi: saber, pilar, abraço. Hoje, sabe que, nas suas mãos, guarda o futuro. Às vezes, tem medo. Outras, grava no peito o orgulho de ser quem é: veículo de saber, de saber-fazer, de saber-ser.
Já tocou. Os alunos povoam as salas. O exame de Junho tem de começar a ser preparado a partir do primeiro toque do primeiro dia. É preciso voltar a acreditar no valor da escola, reconhecer o significado maiúsculo da palavra que as férias adormeceram no colo: Trabalho.
Já tocou. O professor apresenta-se. Os alunos também. Marcam no mapa os mesmos caminhos. Têm de saber o nome uns dos outros. Têm de respeitar o lugar uns dos outros. Têm de amar o tempo em que estão juntos, porque o tempo é de estar.
A Escola sorri. Os pátios humanizam-se.
Conheço bem esta ansiedade. Muito bem. E peço, na pequenez dos meus desejos, que, este ano, em todas as escolas, professores, alunos, encarregados de educação e toda a comunidade trabalhem juntos, no sentido de acordar a esperança de um País que anda demasiado triste para sonhar.
Por favor, que os professores nunca desistam de lutar, que os alunos ponham, de novo, a escola na moda, que os pais participem da vida que há-de ser de todos, amanhã. E que ninguém, em nenhum momento deste ano, fique perplexo sem saber o que fazer do seu abraço.
Um bom ano lectivo!
Há muito que se prepara este começo. E o resto. Setembro é o mês de sonhar as aulas no papel, é o mês de procurar as soluções para os problemas que se adivinham, é o mês de desenhar as estratégias do ano escolar.
As escolas estão prontas. Ou quase. Desenha-se a vontade nos tampos das mesas. Preparam-se os discursos de abertura, pendurando a crise nas palavras. Talvez falte o dinheiro para fotocópias. Talvez ainda não seja este ano que as novas tecnologias sejam parte efectiva do material escolar. Talvez se tenha de ressuscitar o quadro e o giz branco e de cor que marcaram o nosso tempo. Talvez se tenha de reinventar o valor das palavras velhas que falavam de trabalho, de deveres, de livros.
O professor já chegou. Tem um nome. Tem uma história de vida para contar. Não quer calar as palavras no silêncio porque sabe quem já foi: saber, pilar, abraço. Hoje, sabe que, nas suas mãos, guarda o futuro. Às vezes, tem medo. Outras, grava no peito o orgulho de ser quem é: veículo de saber, de saber-fazer, de saber-ser.
Já tocou. Os alunos povoam as salas. O exame de Junho tem de começar a ser preparado a partir do primeiro toque do primeiro dia. É preciso voltar a acreditar no valor da escola, reconhecer o significado maiúsculo da palavra que as férias adormeceram no colo: Trabalho.
Já tocou. O professor apresenta-se. Os alunos também. Marcam no mapa os mesmos caminhos. Têm de saber o nome uns dos outros. Têm de respeitar o lugar uns dos outros. Têm de amar o tempo em que estão juntos, porque o tempo é de estar.
A Escola sorri. Os pátios humanizam-se.
Conheço bem esta ansiedade. Muito bem. E peço, na pequenez dos meus desejos, que, este ano, em todas as escolas, professores, alunos, encarregados de educação e toda a comunidade trabalhem juntos, no sentido de acordar a esperança de um País que anda demasiado triste para sonhar.
Por favor, que os professores nunca desistam de lutar, que os alunos ponham, de novo, a escola na moda, que os pais participem da vida que há-de ser de todos, amanhã. E que ninguém, em nenhum momento deste ano, fique perplexo sem saber o que fazer do seu abraço.
Um bom ano lectivo!
sábado, 18 de setembro de 2010
É só um instante...

Sente-se aqui. Ouça comigo a canção azul do mar que beija esta cidade, cada manhã. Deixe-se levar pela suavidade deste silêncio que acorda as gaivotas e abraça o desenho da calçada.
A cidade espreguiça-se no vagar marinheiro deste momento. Aos poucos, a vida acende as janelas e as ruas povoam-se de cores. Aos poucos, o tempo alumia os sorrisos e abre
- bons dias!
nos passos que ganham o tempo.
São horas, eu sei. Fique só mais um bocadinho. Aprecie comigo as lágrimas azuis dos jacarandás, o fogo laranja da praça, os meninos que, nos telhados, acompanham os pombos na vigia das casas. Veja o bordado das varandas que se debruçam nas ruas. Aproveite o cheiro do café acabado de fazer que escapa das portas. Sinta o afago calado desta hora antes que os carros se lembrem de passar.
Só um instante. Deixe-se levar nesta bebedeira de olhar. Olhe as paredes da cidade. Escondem segredos de pedra e guardam músculos de basalto. As casas da minha cidade têm veias de História a correr no corpo. Olhe as árvores que rasgam o céu. O céu da minha cidade têm as cores que as árvores lhe dão. Às vezes, rouba o azul ao mar. Outras vezes, tem sombras feiticeiras a ameaçar a alegria.
É só um minuto. Prometo-lhe que não chegará atrasado. Permita-se olhar para os outros olhares que, hoje, pararam também. E sorria. Mesmo que chova, o sol do seu sorriso acenderá outro sorriso, que acenderá outro sorriso, que acenderá outro sorriso.
Deus há-de ver. Há-de sorrir também. E o sorriso de Deus há-de dar-nos, a si, a mim e a cidade, um dia feliz.
Pronto. Temos de ir trabalhar. Obrigada por me ter feito companhia. Até amanhã.
sábado, 11 de setembro de 2010
Mercês, 37
Venha comigo, por favor.
Quero levá-lo, hoje, a um lugar onde fui muito feliz: a Escola das Mercês. Traga espaço para as memórias e reserve um bocadinho de coração para abrigar as saudades. As minhas e as de muita gente que fez deste lugar uma parte muito importante da sua vida.
Arrumo os passos para subir uma rua que conheço de cor. Bato à porta do 37 para um
- bom dia, senhora doutora,
que tem um sorriso pendurado nas palavras. Levo muitos sorrisos desta escola. Ao longo de mais de vinte anos, eles foram ajudando a resolver as dificuldades, a atenuar os cansaços, a ultrapassar as incapacidades.
Entre, por favor. Deixe-se levar pelo eco das gargalhadas dos miúdos que já não estão aqui. Elas estão desenhadas no arrepio velho das paredes e escondidas debaixo das camadas de tinta que lhes foram disfarçando a idade. Afaste-se comigo da bola que atravessa o campo e que vem aterrar inevitavelmente aos nossos pés,
- desculpe, professora,
que ouvi centenas de vezes, em centenas de manhãs, antes do toque das oito.
Tenho os meus passos marcados no ranger das escadas da Casa Velha. Escondi, ali, os segredos que os alunos me contaram, o desespero dos pais sem respostas para a juventude dos filhos, a saudade dos amigos que já só encontro dentro de mim, a cumplicidade dos colegas-amigos-irmãos de todas as horas. Escondi, ali, os funcionários que me ajudaram a ser a professora que fui, a pessoa que sou. Escondi, ali, a possibilidade que a vida me deu em participar em projectos novos, em decisões inovadoras, na vida de gente que, hoje, ajuda a mover a sociedade.
Comecei a trabalhar nesta Escola ainda menina com vontade de crescer. Encontrei aqui um dos lemas da minha vida: é sempre possível fazer melhor. Percebi, nesta casa, que a missão de um professor não se esgota nas paredes das salas de aula. Entendi que a vida também se ensina nos pátios, nos palcos, no exemplo que somos e que oferecemos aos alunos, todos os anos lectivos.
Vou-me embora, agora. A Escola das Mercês está a fechar. Os quadros estão mortos. As salas estão vazias. Já não há alunos a enfeitar os varões da rua. Era preciso, eu sei.
O Santo António do Conselho Executivo há-de zelar pelo resto. Por nós. A missão daquela casa será outra, certamente. Mas, a sua alma há-de chamar-se, para sempre, “Escola das Mercês”.
Vou ter saudades.
A si, muito obrigada por me ter acompanhado. Um abraço. Agora, vou fechar a porta.
Quero levá-lo, hoje, a um lugar onde fui muito feliz: a Escola das Mercês. Traga espaço para as memórias e reserve um bocadinho de coração para abrigar as saudades. As minhas e as de muita gente que fez deste lugar uma parte muito importante da sua vida.
Arrumo os passos para subir uma rua que conheço de cor. Bato à porta do 37 para um
- bom dia, senhora doutora,
que tem um sorriso pendurado nas palavras. Levo muitos sorrisos desta escola. Ao longo de mais de vinte anos, eles foram ajudando a resolver as dificuldades, a atenuar os cansaços, a ultrapassar as incapacidades.
Entre, por favor. Deixe-se levar pelo eco das gargalhadas dos miúdos que já não estão aqui. Elas estão desenhadas no arrepio velho das paredes e escondidas debaixo das camadas de tinta que lhes foram disfarçando a idade. Afaste-se comigo da bola que atravessa o campo e que vem aterrar inevitavelmente aos nossos pés,
- desculpe, professora,
que ouvi centenas de vezes, em centenas de manhãs, antes do toque das oito.
Tenho os meus passos marcados no ranger das escadas da Casa Velha. Escondi, ali, os segredos que os alunos me contaram, o desespero dos pais sem respostas para a juventude dos filhos, a saudade dos amigos que já só encontro dentro de mim, a cumplicidade dos colegas-amigos-irmãos de todas as horas. Escondi, ali, os funcionários que me ajudaram a ser a professora que fui, a pessoa que sou. Escondi, ali, a possibilidade que a vida me deu em participar em projectos novos, em decisões inovadoras, na vida de gente que, hoje, ajuda a mover a sociedade.
Comecei a trabalhar nesta Escola ainda menina com vontade de crescer. Encontrei aqui um dos lemas da minha vida: é sempre possível fazer melhor. Percebi, nesta casa, que a missão de um professor não se esgota nas paredes das salas de aula. Entendi que a vida também se ensina nos pátios, nos palcos, no exemplo que somos e que oferecemos aos alunos, todos os anos lectivos.
Vou-me embora, agora. A Escola das Mercês está a fechar. Os quadros estão mortos. As salas estão vazias. Já não há alunos a enfeitar os varões da rua. Era preciso, eu sei.
O Santo António do Conselho Executivo há-de zelar pelo resto. Por nós. A missão daquela casa será outra, certamente. Mas, a sua alma há-de chamar-se, para sempre, “Escola das Mercês”.
Vou ter saudades.
A si, muito obrigada por me ter acompanhado. Um abraço. Agora, vou fechar a porta.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
ONTEM, HOJE, AMANHÃ
Ontem, a ilha era verde; hoje, os esqueletos pretos das árvores rasgam o céu, cinzento de tristeza.
Ontem, os caminhos subiam a montanha fazendo das copas, túneis de frescura; hoje, o cheiro a lume inunda os pulmões de quem está lá, de quem está longe, de quem acompanha as imagens pela televisão.
Ontem, Agosto era mês dos piqueniques na serra, do cheiro a eucaliptos e a gargalhadas; hoje, Agosto é o mês da terra em fogo, da bola vermelha a incendiar o céu, da noite a descer cedo, sob a manta das cinzas.
Ontem, falava-se da beleza das nossas escarpas, do azul transparente do nosso mar, da gentileza das gentes, da paisagem impressionista dos jardins; hoje, fala-se da luta contra o fogo, da destruição da floresta, da descaracterização da terra.
Ontem, foi a água; hoje é o fogo. O ar está pesado de folhas de eucaliptos moribundas, choradas das árvores. A terra está dramaticamente negra e queimada.
Ontem, as mãos ressuscitavam as árvores cansadas do tempo; hoje, as mesmas mãos e outras mãos regam a desgraça do que é de todos e que já não é de ninguém, porque o fogo engoliu.
Ontem, as mãos. Hoje, as mãos. Queimadas. Fortes. Cansadas. Desanimadas. Corajosas. Dadas. Postas.
Ontem, a luz; hoje, o lume.
Ontem, a luta; hoje, o medo.
Ontem, a vida; hoje, a morte.
Amanhã, talvez amanhã, talvez já amanhã, se recomece.
Ontem, os caminhos subiam a montanha fazendo das copas, túneis de frescura; hoje, o cheiro a lume inunda os pulmões de quem está lá, de quem está longe, de quem acompanha as imagens pela televisão.
Ontem, Agosto era mês dos piqueniques na serra, do cheiro a eucaliptos e a gargalhadas; hoje, Agosto é o mês da terra em fogo, da bola vermelha a incendiar o céu, da noite a descer cedo, sob a manta das cinzas.
Ontem, falava-se da beleza das nossas escarpas, do azul transparente do nosso mar, da gentileza das gentes, da paisagem impressionista dos jardins; hoje, fala-se da luta contra o fogo, da destruição da floresta, da descaracterização da terra.
Ontem, foi a água; hoje é o fogo. O ar está pesado de folhas de eucaliptos moribundas, choradas das árvores. A terra está dramaticamente negra e queimada.
Ontem, as mãos ressuscitavam as árvores cansadas do tempo; hoje, as mesmas mãos e outras mãos regam a desgraça do que é de todos e que já não é de ninguém, porque o fogo engoliu.
Ontem, as mãos. Hoje, as mãos. Queimadas. Fortes. Cansadas. Desanimadas. Corajosas. Dadas. Postas.
Ontem, a luz; hoje, o lume.
Ontem, a luta; hoje, o medo.
Ontem, a vida; hoje, a morte.
Amanhã, talvez amanhã, talvez já amanhã, se recomece.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
PROJECTO PARA UM DIA DE VERÃO
O sol acorda a manhã que lava a cara no mar. A cidade levanta-se, no vagar das férias e procura ver o que não viu durante o ano: a brancura das casas que sobem a montanha, o remate branco do mar na orla da ilha, o bailado das gaivotas a namorar os beirais, o bordado a xadrez da calçada do chão.
E pensamos,
- vai ser hoje
porque o sol sorri lá em baixo no mar e temos mais tempo. Dentro de nós, fazemos a lista do que nos falta fazer: telefonar ao amigo que não vemos há muito tempo, visitar o que cala, sozinho, a sua solidão, sorrir para quem se cruza connosco no azul fresco das ruas.
Hoje, vamos dizer
- bom dia,
e obrigar quem leva os olhos no chão, a olhar para a nossa voz e a iluminar o seu olhar com a luz dos nosso.
Hoje, vamos criar clareiras de alegria. Vamos falar de esperança e de coragem. Vamos inventar tempo para ver, para escutar, para sentir o ar que nos sacode os cabelos. Vamos fazer a vida acontecer, como faz a natureza que explode em flores, rompendo a lama, iluminando a negrura das rochas, abrindo gargalhadas na dureza das coisas.
Hoje, vamos redescobrir o calor dos abraços. O Verão entra assim, dentro de nós, aconchegando o bater dos corações, um no outro. Vamos desfazer os abismos que nos separam. Vamos voltar a confiar no amigo, como dantes, como quando não tínhamos medo das traições ou das palavras que têm dois gumes e que cortam como se fossem facas.
Não custa nada: nem suor, nem dinheiro. Um instante, apenas. A eternidade guarda-se no silêncio de um abraço. Quando nos abraçamos, não somos dois nem estamos sós, somos felizes.
- Dá-me um abraço?
Então, será mesmo Verão. Mesmo que o sol não precise de ir ao mar lavar a cara, porque a chuva o molhou.
E pensamos,
- vai ser hoje
porque o sol sorri lá em baixo no mar e temos mais tempo. Dentro de nós, fazemos a lista do que nos falta fazer: telefonar ao amigo que não vemos há muito tempo, visitar o que cala, sozinho, a sua solidão, sorrir para quem se cruza connosco no azul fresco das ruas.
Hoje, vamos dizer
- bom dia,
e obrigar quem leva os olhos no chão, a olhar para a nossa voz e a iluminar o seu olhar com a luz dos nosso.
Hoje, vamos criar clareiras de alegria. Vamos falar de esperança e de coragem. Vamos inventar tempo para ver, para escutar, para sentir o ar que nos sacode os cabelos. Vamos fazer a vida acontecer, como faz a natureza que explode em flores, rompendo a lama, iluminando a negrura das rochas, abrindo gargalhadas na dureza das coisas.
Hoje, vamos redescobrir o calor dos abraços. O Verão entra assim, dentro de nós, aconchegando o bater dos corações, um no outro. Vamos desfazer os abismos que nos separam. Vamos voltar a confiar no amigo, como dantes, como quando não tínhamos medo das traições ou das palavras que têm dois gumes e que cortam como se fossem facas.
Não custa nada: nem suor, nem dinheiro. Um instante, apenas. A eternidade guarda-se no silêncio de um abraço. Quando nos abraçamos, não somos dois nem estamos sós, somos felizes.
- Dá-me um abraço?
Então, será mesmo Verão. Mesmo que o sol não precise de ir ao mar lavar a cara, porque a chuva o molhou.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
SOBRE O SILENCIO

“O silêncio é a maior sabedoria do homem” (Píndaro)
Shshshiu!!!
Deixem falar o silêncio. Ouçam-no na alegria dos dias de sol, nas ondas que despenteiam os calhaus, na brisa verde dos campos. Ouçam-no no olhar dos amigos que se abraçam, no riso dos meninos na babugem do mar, nos segredos que o vento conta às árvores, quando o sol se despe e a noite cai.
O silêncio tem muitas coisas para dizer: fala de lugares secretos onde a serenidade adormece, fala da nascente das lágrimas, fala da raiz branca da paz. Com ele, é possível irmos à procura do princípio, daquele tempo em que a felicidade se escrevia com histórias pequeninas e se desenhava nas papoilas, nas gargalhadas penduradas nos beirais, na segurança da mão do pai, no nome mãe dito na aflição.
O silêncio, o verdadeiro, vive num lugar escondido dentro da terra, dentro do mar, dentro de nós. Derrama verdades na nossa consciência e acende os recantos nocturnos que guardámos dentro do peito. Não é fácil escutá-lo. Eu sei. Então, aumentamos o volume da nossa voz, falamos mais alto, cada vez mais alto, para nos fazermos ouvir. Andamos na rua, com os ouvidos tapados com músicas do mundo e não ouvimos a nossa.
E estamos sós. Cada vez mais longe dos outros. Cada vez mais longe de nós. Cada vez mais longe de Deus. Cada vez mais longe.
Talvez ainda estejamos a tempo. Vá, só um bocadinho. Vamos ouvir o silêncio, antes que seja demasiado tarde?
sábado, 17 de julho de 2010
PORTO SANTO
Querem que eu conte? Eu conto.
Naquele tempo, as palavras calavam-se para ouvir passar a vida. A terra tinha as luzes acesas até tarde, porque era Verão. Agosto, talvez, que é o mês em que o céu está mais feliz. O mar, de um azul - azul, abria-se no cais, caseado de espuma.
No barco, o mundo. No peito, a aventura. Na gargalhada, a alegria de ir de férias e de levar dentro das caixas tudo o que era preciso para ser feliz: a toalha, o bronzeador, o bacalhau para o enjoo, o medo da Travessa, a vontade de chegar e pisar o chão louro de um Porto Santo que nos enfeitiçava os sentidos.
Depois, o desembarque mareado nas colunas do cais velho, o andar de marinheiro mesmo depois da amurada, os amigos à espera, os olhos gulosos de mar e o cheiro brilhante do sol.
Esses eram os dias da liberdade merecida. O bafo quente dos cardos e dos canaviais inebriava-nos de tudo. Éramos miúdos inocentes e felizes. Não precisávamos de mais nada, porque não tínhamos medo: nem do sol, nem do cancro, nem da vida. Estávamos juntos e tínhamos tempo para sermos uns dos outros. Partilhávamos a casa com outra família, vivíamos em comunidade durante duas semanas: tudo era de todos: o pão e as uvas, a água da Fonte da Areia e os figos do quintal.
Quando a tarde caía, vermelha e quente e o sol tomava banho no horizonte, um banho de mangueira à porta de casa tirava-nos a areia e refrescava-nos o espírito.
O resto? Uma mesa de gente
- abençoa, Senhor, o alimento que vamos tomar,
a fome de que quem é novo, as conversas cruzadas sobre os pratos, as histórias de um dia em que o mundo se guardara na praia, na sesta do alpendre, no passeio de jerico, no queimor da pele sem medo de escaldões, na roda da eira,
- ei, Morena!
As noites do Porto Santo tinham sabor a liberdade. Andávamos à solta no Largo das Palmeiras, provando os gelados do quiosque, entoando Zeca Afonso, nas escadinhas do cais, contando anedotas à volta da fogueira, ao pé das casas dos barcos.
Não tínhamos dinheiro, nem televisão, nem sabíamos que um dia, um aparelho chamado computador havia de mandar na nossa vida.
Não tínhamos nada. Apenas amigos e vontade de viver. Tínhamos tudo o que era preciso e éramos felizes.
Naquele tempo, as palavras calavam-se para ouvir passar a vida. A terra tinha as luzes acesas até tarde, porque era Verão. Agosto, talvez, que é o mês em que o céu está mais feliz. O mar, de um azul - azul, abria-se no cais, caseado de espuma.
No barco, o mundo. No peito, a aventura. Na gargalhada, a alegria de ir de férias e de levar dentro das caixas tudo o que era preciso para ser feliz: a toalha, o bronzeador, o bacalhau para o enjoo, o medo da Travessa, a vontade de chegar e pisar o chão louro de um Porto Santo que nos enfeitiçava os sentidos.
Depois, o desembarque mareado nas colunas do cais velho, o andar de marinheiro mesmo depois da amurada, os amigos à espera, os olhos gulosos de mar e o cheiro brilhante do sol.
Esses eram os dias da liberdade merecida. O bafo quente dos cardos e dos canaviais inebriava-nos de tudo. Éramos miúdos inocentes e felizes. Não precisávamos de mais nada, porque não tínhamos medo: nem do sol, nem do cancro, nem da vida. Estávamos juntos e tínhamos tempo para sermos uns dos outros. Partilhávamos a casa com outra família, vivíamos em comunidade durante duas semanas: tudo era de todos: o pão e as uvas, a água da Fonte da Areia e os figos do quintal.
Quando a tarde caía, vermelha e quente e o sol tomava banho no horizonte, um banho de mangueira à porta de casa tirava-nos a areia e refrescava-nos o espírito.
O resto? Uma mesa de gente
- abençoa, Senhor, o alimento que vamos tomar,
a fome de que quem é novo, as conversas cruzadas sobre os pratos, as histórias de um dia em que o mundo se guardara na praia, na sesta do alpendre, no passeio de jerico, no queimor da pele sem medo de escaldões, na roda da eira,
- ei, Morena!
As noites do Porto Santo tinham sabor a liberdade. Andávamos à solta no Largo das Palmeiras, provando os gelados do quiosque, entoando Zeca Afonso, nas escadinhas do cais, contando anedotas à volta da fogueira, ao pé das casas dos barcos.
Não tínhamos dinheiro, nem televisão, nem sabíamos que um dia, um aparelho chamado computador havia de mandar na nossa vida.
Não tínhamos nada. Apenas amigos e vontade de viver. Tínhamos tudo o que era preciso e éramos felizes.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
da ilha e de mim

Quando me sento na boca do vulcão, olho para dentro da ilha. O seu ventre de fogo e magma guarda os segredos da força que rasga a terra em partos de verde. É daqui que caseio o mundo. Cada ponto do meu bordado esconde as raízes que me prendem a este lugar. Bordo a minha vida, embalada pelas palavras do vento que vem do chão onde me plantei.
Conta-me histórias antigas de lágrimas do céu que caíram em chuva e afogaram o fogo do princípio dos tempos. Fala-me de homens que vieram do mar e desbravaram os gritos calados da floresta. Fala-me da bravura das mãos que abriram rugas na terra e subiram as encostas e construíram as casas no abraço das vides. Fala-me do arrepio das paredes da serra, quando a água escorre em cascatas, riscando os montes de branco.
Derramo o bordado sobre o colo. Calo o bater do meu peito para ouvir o silêncio da ilha. E olho para o horizonte, porta de entrada de gente, porta de saída de sonhos. Está lá o mar, a abraçar de azul e futuro a minha vida. Há mais mundo para além da praia. Muito mais.
Agora, deixo falar as marés. E elas contam de um mar branco de açúcar, enfunando as velas das caravelas. Contam de regressos e de desenhos sagrados da Flandres, guardados em arcas e depositados na beira do vulcão. Falam de saques de piratas, de fomes e de lutos. Falam de um tempo que já não é, porque as gaivotas o levaram.
Estou sentada na boca do vulcão, mesmo à porta do mar. E sei que viver aqui é ter o mundo dentro de mim e tê-lo também a meus pés, imenso, à minha espera.
Tenho o bordado no colo, os olhos no horizonte. Da varanda da ilha, vejo a vida. Do alto do Monte, a Senhora sorri. E eu sou feliz.
sábado, 26 de junho de 2010
FERIAS GRANDES

Dantes, quando Junho chegava ao fim, desenhávamos planos para os três meses de sol e de praia, de gargalhadas e de amigos. Sonhávamos com o momento de arrumar a pasta, de guardar os livros, de levantar as notas e de nos deslumbrarmos com essa liberdade que vinha a cavalo do Verão. Era o tempo das cerejas e dos balões pendurados nos quintais. Era o tempo dos dias grandes, das tardes anoitecidas a olhar para o mar, das aventuras planeadas, dos lanches estendidos sobre a toalha da nossa alegria.
Dantes, quando Junho chegava ao fim, dourávamos a pele sem medo do sol, embriagávamo-nos de juventude e éramos felizes.
Agora, não. Já não sabemos o gosto que a felicidade tinha na nossa boca quando o dia acordava e nós agradecíamos à vida a simples oferta de estarmos vivos e de termos saúde. Andamos à procura da alegria nos bolsos que se esvaziam, no fundo de um copo, num prato que já nã podemos comer, numa viagem que, afinal, ainda não havemos de fazer este ano.
E Junho está no fim. Exactamente igual a outros Junhos do tempo em que sabíamos viver. Vamos tentar?
Vamos deixar descansar o trabalho que nos tirou o sono durante este ano, as lutas que tivemos de ganhar para que não nos faltasse a coragem de acordar às segundas-feiras e dizer
- mais uma semana,
com vontade de que fosse sábado outra vez .
Vamos deixar que o tempo durma no baloiço do mar ou no segredo verde das montanhas. Vamos deixar que o sol nos beije a pele. Vamos voltar a abraçar quem se perdeu de nós. Vamos rir. Vamos ser felizes. Outra vez. Como dantes.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
DE PALAVRAS...
“A gratidão é a memória do coração.”
(Antístenes)
Tenho, às vezes, abraços agarrados às palavras. Redondos. Quentes. São abraços de casa, são abraços de amigos, são abraços da terra onde me guardo todos os dias. São abraços de um Deus que me escreveu a vida como se escreve um poema: escolhendo as imagens mais doces, procurando as rimas mais ricas, fazendo de mim uma mulher feliz.
Tenho palavras para dar. As minhas. As de outros. As que o silêncio me segreda quando fecho os olhos e procuro dentro de mim o que me falta.
A minha palavra de hoje é, por si só um abraço. É a palavra obrigada!, assim exclamada pela força da minha verdade. Tem um coração à volta para a proteger do frio do esquecimento, da falta de humildade que, às vezes também, se quer sentar comigo à mesa para me falar do futuro.
Tenho palavras. E mãos. E abraços. E tenho uma Força que não é minha e que me diz, todos os dias, que é preciso falar de esperança, de paz, de um Amor infinito e de um mundo que pode ser um bocadinho melhor.
Tenho palavras. E coração. Sei que o tempo é de agradecer e de pedir à Senhora que ficou comigo que me ensine a sabedoria dos simples.
(Antístenes)
Tenho, às vezes, abraços agarrados às palavras. Redondos. Quentes. São abraços de casa, são abraços de amigos, são abraços da terra onde me guardo todos os dias. São abraços de um Deus que me escreveu a vida como se escreve um poema: escolhendo as imagens mais doces, procurando as rimas mais ricas, fazendo de mim uma mulher feliz.
Tenho palavras para dar. As minhas. As de outros. As que o silêncio me segreda quando fecho os olhos e procuro dentro de mim o que me falta.
A minha palavra de hoje é, por si só um abraço. É a palavra obrigada!, assim exclamada pela força da minha verdade. Tem um coração à volta para a proteger do frio do esquecimento, da falta de humildade que, às vezes também, se quer sentar comigo à mesa para me falar do futuro.
Tenho palavras. E mãos. E abraços. E tenho uma Força que não é minha e que me diz, todos os dias, que é preciso falar de esperança, de paz, de um Amor infinito e de um mundo que pode ser um bocadinho melhor.
Tenho palavras. E coração. Sei que o tempo é de agradecer e de pedir à Senhora que ficou comigo que me ensine a sabedoria dos simples.
MEU SIMAO DAQUELA TARDE
Amigos
A vossa presença foi um abraço para a vida. A felicidade que me vestiu o dia 25 de Maio deveu-se a todos os que fizeram do Meu Simão o Seu Simão.
Muito obrigada!
A vossa presença foi um abraço para a vida. A felicidade que me vestiu o dia 25 de Maio deveu-se a todos os que fizeram do Meu Simão o Seu Simão.
Muito obrigada!
domingo, 23 de maio de 2010
MEU SIMÃO DAQUELA TARDE.
Onde moram as hitórias antes de um autor as passar para o papel?
Onde começa a ficção e acaba a vida?
Será que o Simão, poeta em busca de si, conseguirá escrever um romance de Amor?
À procura das respostas:
Feira do Livro; Pavilhão dos Autores, dia 25 de Maio, terça-feira; 18.30H
Onde começa a ficção e acaba a vida?
Será que o Simão, poeta em busca de si, conseguirá escrever um romance de Amor?
À procura das respostas:
Feira do Livro; Pavilhão dos Autores, dia 25 de Maio, terça-feira; 18.30H
domingo, 2 de maio de 2010
PORQUE MÃE É BEIJO DE DEUS
Quando o grito do princípio se cala, o olhar do menino fixa o rosto de Deus. E o rosto de Deus está colado ao olhar da mãe que lhe embala o sono. E é um olhar de amor infinito, capaz de dar o que tem, capaz de inventar o que não tem para o fazer feliz.
Mãe é o primeiro nome de Deus. E tem gosto a leite e a promessas. Tem música de beijos e de perdão. Tem cheiro a terra quando a Primavera a acorda e Maio lhe enfeita os caminhos com flores pequeninas.
Mãe é o colo sem limites onde se guarda o caminho de casa quando nos perdemos de nós, as lágrimas que nos refrescam a febre, o perdão de todos os crimes. Porque as mães são os anjos que Deus criou para nos amparar nas quedas, para nos proteger do frio, para dizer a cada um
- meu filho
e sermos únicos no meio da humanidade.
O beijo da Mãe é o beijo de Deus, quando a inocência se escreve no nosso olhar, quando a adolescência nos obriga a fazer perguntas, quando a juventude nos dá a ilusão de acreditar na nossa força, quando a vida nos obriga a procurar outros mares e outros abraços, quando o Outono nos mostra as fragilidades do nosso corpo e a solidão dos sentidos.
O regaço da Mãe é o regaço de Deus, quando a noite cai e temos medo, quando o sol se abre em alegrias, quando o tempo se faz eterno, quando a dor cala os pássaros ou as amoras nos tingem a boca com o sangue da terra.
Por ela, conhecemos as fadas e os heróis. Por ela, conhecemos o dom das palavras caladas e das lágrimas tatuadas no peito à espera que os nossos passos regressem a casa. Por ela, conhecemos uma Mulher que ficará connosco, mesmo quando ela adormecer nos braços frios da morte.
Por ela, aprendemos a rezar:
- Ave-Maria, Santa Maria, rogai por nós, agora e na hora da nossa morte.
Mãe é palavra de Deus levada à letra: “Amai-vos como eu vos amei!”. Até ao fim, portanto. Até depois do fim. Até à saudade que fica depois dela se ter ido embora. Até sempre.
Mãe é o coração de Deus ensinado aos homens.
Mãe é o primeiro nome de Deus. E tem gosto a leite e a promessas. Tem música de beijos e de perdão. Tem cheiro a terra quando a Primavera a acorda e Maio lhe enfeita os caminhos com flores pequeninas.
Mãe é o colo sem limites onde se guarda o caminho de casa quando nos perdemos de nós, as lágrimas que nos refrescam a febre, o perdão de todos os crimes. Porque as mães são os anjos que Deus criou para nos amparar nas quedas, para nos proteger do frio, para dizer a cada um
- meu filho
e sermos únicos no meio da humanidade.
O beijo da Mãe é o beijo de Deus, quando a inocência se escreve no nosso olhar, quando a adolescência nos obriga a fazer perguntas, quando a juventude nos dá a ilusão de acreditar na nossa força, quando a vida nos obriga a procurar outros mares e outros abraços, quando o Outono nos mostra as fragilidades do nosso corpo e a solidão dos sentidos.
O regaço da Mãe é o regaço de Deus, quando a noite cai e temos medo, quando o sol se abre em alegrias, quando o tempo se faz eterno, quando a dor cala os pássaros ou as amoras nos tingem a boca com o sangue da terra.
Por ela, conhecemos as fadas e os heróis. Por ela, conhecemos o dom das palavras caladas e das lágrimas tatuadas no peito à espera que os nossos passos regressem a casa. Por ela, conhecemos uma Mulher que ficará connosco, mesmo quando ela adormecer nos braços frios da morte.
Por ela, aprendemos a rezar:
- Ave-Maria, Santa Maria, rogai por nós, agora e na hora da nossa morte.
Mãe é palavra de Deus levada à letra: “Amai-vos como eu vos amei!”. Até ao fim, portanto. Até depois do fim. Até à saudade que fica depois dela se ter ido embora. Até sempre.
Mãe é o coração de Deus ensinado aos homens.
terça-feira, 30 de março de 2010
O(S) PARTO(S) DA ILHA
O céu derramou-se em estrondos líquidos sobre a cidade. Na manhã desse dia 20, rebentaram as águas à terra e a montanha pariu o desamparo num leito de dor e de morte.
A água, feiticeira, desceu a serra, invadiu as casas e as almas, marcou de sangue o que antes era verde e sereno e feliz. Um instante. Uma eternidade.
De joelhos, a ilha entregava ao mar os restos do parto da terra. De joelhos, lutava para não morrer. De joelhos, pedia à chuva que parasse, ao vento que se calasse e ao tempo que deixasse de ser infinito. Um instante. Uma eternidade.
Foi um instante para que as sirenes se sobrepusessem ao grito das ribeiras e rasgassem a ilha. Foi então que as mãos se encontraram e a abraçaram. Foi então que as noites foram dias e a força dos braços trataram das dores, reanimaram os desencantos, restauraram a esperança. Uma eternidade. Um instante.
Um mês depois, a cidade espreguiça-se, devagar. A Primavera, envergonhada, vai acordando do medo. A minha terra também. E eu. Talvez seja, então, tempo de lembrar: que ninguém se esqueça das mãos. Nem do trabalho. Nem da coragem. Que ninguém se esqueça dos que não voltaram a casa. Nem dos que, à procura de alguma coisa, se tornaram húmus desta terra, grávida outra vez. Que ninguém se esqueça dos que, com as mãos cheias de lama, limparam as lágrimas e acreditaram no milagre. Que ninguém se esqueça que a angústia dura um instante. Uma eternidade. Exactamente como a felicidade. Como a morte. Como a vida.
Há um mês, os olhos da ilha choraram no mundo inteiro. Hoje, o mundo inteiro tomou a ilha nos seus braços e ajudou a levantá-la do chão. Connosco dentro. Com a serra, imponente outra vez, a olhar o céu. Com o mar a querer ser de novo azul e porta aberta de entrada.
Há um mês, rebentaram as águas à terra. Hoje, rebentam flores nos beirais da lama.
Há um mês, a manhã do dia 20 anoiteceu. Hoje, a manhã é quase amanhã. Porque futuro. Porque luz. Porque a ilha está grávida, de novo. Mas, desta vez, as andorinhas já anunciaram que o parto será feliz. As janelas estão abertas. O sol já vem.
A água, feiticeira, desceu a serra, invadiu as casas e as almas, marcou de sangue o que antes era verde e sereno e feliz. Um instante. Uma eternidade.
De joelhos, a ilha entregava ao mar os restos do parto da terra. De joelhos, lutava para não morrer. De joelhos, pedia à chuva que parasse, ao vento que se calasse e ao tempo que deixasse de ser infinito. Um instante. Uma eternidade.
Foi um instante para que as sirenes se sobrepusessem ao grito das ribeiras e rasgassem a ilha. Foi então que as mãos se encontraram e a abraçaram. Foi então que as noites foram dias e a força dos braços trataram das dores, reanimaram os desencantos, restauraram a esperança. Uma eternidade. Um instante.
Um mês depois, a cidade espreguiça-se, devagar. A Primavera, envergonhada, vai acordando do medo. A minha terra também. E eu. Talvez seja, então, tempo de lembrar: que ninguém se esqueça das mãos. Nem do trabalho. Nem da coragem. Que ninguém se esqueça dos que não voltaram a casa. Nem dos que, à procura de alguma coisa, se tornaram húmus desta terra, grávida outra vez. Que ninguém se esqueça dos que, com as mãos cheias de lama, limparam as lágrimas e acreditaram no milagre. Que ninguém se esqueça que a angústia dura um instante. Uma eternidade. Exactamente como a felicidade. Como a morte. Como a vida.
Há um mês, os olhos da ilha choraram no mundo inteiro. Hoje, o mundo inteiro tomou a ilha nos seus braços e ajudou a levantá-la do chão. Connosco dentro. Com a serra, imponente outra vez, a olhar o céu. Com o mar a querer ser de novo azul e porta aberta de entrada.
Há um mês, rebentaram as águas à terra. Hoje, rebentam flores nos beirais da lama.
Há um mês, a manhã do dia 20 anoiteceu. Hoje, a manhã é quase amanhã. Porque futuro. Porque luz. Porque a ilha está grávida, de novo. Mas, desta vez, as andorinhas já anunciaram que o parto será feliz. As janelas estão abertas. O sol já vem.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
SOBRE AS MÃOS QUE RESSUSCITAM ESTA CIDADE
Na tragédia, as mãos. Dadas ou postas, procuram apoios para limpar as lágrimas, para enterrar os mortos, para proteger o que resta. São mãos de uma cidade que, ajoelhada aos pés do mar, procuram restaurar o que a água levou, na avidez de chegar ao destino. São centenas de mãos que se unem para redesenhar as ruas, as casas, as esperanças de quem perdeu o que tinha, de quem perdeu quem tinha, de quem perdeu o que era há dias atrás.
Hoje, só posso falar dessas mãos: das que organizam as operações, das que suportam, das que limpam, das que manobram as máquinas, das que lavam o rosto desta cidade ferida de morte.
Hoje só posso falar das mãos: calejadas, cansadas, doridas, exaustas. Mãos de homens vergados sob o silêncio de bronze da lama. Mãos que entregam o que têm, o que lhes falta. Mãos que procuram no chão quem não chegou a casa. Mãos de gente. Mãos de irmãos, filhos da mesma vontade.
Ajoelho-me, hoje, perante essas mãos. Valem o que as minhas palavras não sabem dizer. Valem o silêncio dos homens. Valem o sorriso de Deus.
Na tragédia, outras mãos. Dadas ou postas. As de uma cidade que tem de reaprender a enfeitar de flores os beirais, a receber os salpicos brancos do mar, a ouvir a água das ribeiras sem sobressaltos e a rir, vestindo de verde as montanhas, vestindo as noites de luz.
Quisera ser poeta, hoje. E poder beijar com as minhas palavras essas mãos que procuram o futuro que se escondeu debaixo dos escombros.
Hoje, só posso falar dessas mãos: das que organizam as operações, das que suportam, das que limpam, das que manobram as máquinas, das que lavam o rosto desta cidade ferida de morte.
Hoje só posso falar das mãos: calejadas, cansadas, doridas, exaustas. Mãos de homens vergados sob o silêncio de bronze da lama. Mãos que entregam o que têm, o que lhes falta. Mãos que procuram no chão quem não chegou a casa. Mãos de gente. Mãos de irmãos, filhos da mesma vontade.
Ajoelho-me, hoje, perante essas mãos. Valem o que as minhas palavras não sabem dizer. Valem o silêncio dos homens. Valem o sorriso de Deus.
Na tragédia, outras mãos. Dadas ou postas. As de uma cidade que tem de reaprender a enfeitar de flores os beirais, a receber os salpicos brancos do mar, a ouvir a água das ribeiras sem sobressaltos e a rir, vestindo de verde as montanhas, vestindo as noites de luz.
Quisera ser poeta, hoje. E poder beijar com as minhas palavras essas mãos que procuram o futuro que se escondeu debaixo dos escombros.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
de silêncios e de regressos...
O tempo foge de mim.
Tenho andado por outras escritas, em outros lugares. Voltei agora para um beijo. Continuo a amar as palavras.
Tenho andado por outras escritas, em outros lugares. Voltei agora para um beijo. Continuo a amar as palavras.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
O amanhã já é hoje
porque é ano novo;
porque penduramos ternuras nas asas dos beirais;
porque ainda há restos da festa espalhados pela toalha;
porque o sorriso ainda guarda a esperança;
porque o mar se cala para nos ver passar;
porque
porque penduramos ternuras nas asas dos beirais;
porque ainda há restos da festa espalhados pela toalha;
porque o sorriso ainda guarda a esperança;
porque o mar se cala para nos ver passar;
porque
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Este Natal serei sino
Este Natal, serei sino. Hei-de anunciar que, na Belém da minha terra, entre a luz e a alegria, vai nascer o Salvador. Hei-de falar de um amor-menino que incendiará o mar que banha a minha cidade. Hei-de pendurar a música das minhas palavras nos ramos do meu presépio e calar os gritos com cantos e as solidões com abraços.
Este Natal, serei sino. E, à meia-noite em ponto, quando a Senhora me disser:
- nasceu. É teu,
cada badalar há-de acordar os silêncios negros da noite e acender as estrelas.
Então, a minha voz terá sentido. E eu oferecerei as doze badaladas. Um presente de Natal. O meu:
- aos que me amam e aos que não me conhecem;
- aos que me encontram e aos que fogem de mim;
- aos que me limpam as lágrimas e aos que se derramam no meu choro;
- aos que me dão o seu tempo e aos que nunca sabem de mim;
- aos que me abraçam e aos que me viram a cara;
- aos que me ajudam na luta e aos que me fazem desistir.
Este Natal, serei sino, serei a voz dos que falam e a dos que não têm voz. E a música do meu Glória há-de ser
- Deus nasceu! É teu.
Este Natal, serei sino. O verdadeiro sino de Natal.
Este Natal, serei sino. E, à meia-noite em ponto, quando a Senhora me disser:
- nasceu. É teu,
cada badalar há-de acordar os silêncios negros da noite e acender as estrelas.
Então, a minha voz terá sentido. E eu oferecerei as doze badaladas. Um presente de Natal. O meu:
- aos que me amam e aos que não me conhecem;
- aos que me encontram e aos que fogem de mim;
- aos que me limpam as lágrimas e aos que se derramam no meu choro;
- aos que me dão o seu tempo e aos que nunca sabem de mim;
- aos que me abraçam e aos que me viram a cara;
- aos que me ajudam na luta e aos que me fazem desistir.
Este Natal, serei sino, serei a voz dos que falam e a dos que não têm voz. E a música do meu Glória há-de ser
- Deus nasceu! É teu.
Este Natal, serei sino. O verdadeiro sino de Natal.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Outras guerras?

Estou a voltar. Devagarinho. Tenho andado por aí, a fazer outras coisas, a pensar noutras coisas, a escrever outras coisas. Os meus dias têm sido um bocadinho assim: peças que vou juntando, no cuidado de deixar poucas coisas pelo caminho, organizando a minha guerra.
Se tem sido bom? Tem. Mas já tinha saudades de voltar.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
do fundo da terra

Algar do Carvão. Ilha Terceira. Açores.
De dentro da terra, um buraco de luz. Um sorriso dos céus. Apesar do frio. Apesar da chuva. Apesar da noite que nos guarda o medo. Apesar do silêncio que nos afoga os gritos. Apesar de tudo. apesar do tempo. A Luz.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
SETEMBRO
Já as uvas beberam o sol. Já o silêncio dos pátios se enfeita de gente. Já são novos os livros e as esperanças e os futuros. Já a escola nos chama de manhã. Já.
Vai começar. Outra vez. que seja um começo feliz! Porque, se vamos começar, é sinal de que podemos começar.
Por isso, mesmo que já não haja uvas, nem silêncios, nem férias, nem mares, há o milagre da saúde que nos permite trabalhar.
Um bom ano lectivo!
Vai começar. Outra vez. que seja um começo feliz! Porque, se vamos começar, é sinal de que podemos começar.
Por isso, mesmo que já não haja uvas, nem silêncios, nem férias, nem mares, há o milagre da saúde que nos permite trabalhar.
Um bom ano lectivo!
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