O toque para a primeira aula arruma os passos em direcção às salas. O tempo é de ir. E ir, nestes primeiros dias, tem sabor de coisas novas aprendidas na esperança de que este será um ano bom.
Há muito que se prepara este começo. E o resto. Setembro é o mês de sonhar as aulas no papel, é o mês de procurar as soluções para os problemas que se adivinham, é o mês de desenhar as estratégias do ano escolar.
As escolas estão prontas. Ou quase. Desenha-se a vontade nos tampos das mesas. Preparam-se os discursos de abertura, pendurando a crise nas palavras. Talvez falte o dinheiro para fotocópias. Talvez ainda não seja este ano que as novas tecnologias sejam parte efectiva do material escolar. Talvez se tenha de ressuscitar o quadro e o giz branco e de cor que marcaram o nosso tempo. Talvez se tenha de reinventar o valor das palavras velhas que falavam de trabalho, de deveres, de livros.
O professor já chegou. Tem um nome. Tem uma história de vida para contar. Não quer calar as palavras no silêncio porque sabe quem já foi: saber, pilar, abraço. Hoje, sabe que, nas suas mãos, guarda o futuro. Às vezes, tem medo. Outras, grava no peito o orgulho de ser quem é: veículo de saber, de saber-fazer, de saber-ser.
Já tocou. Os alunos povoam as salas. O exame de Junho tem de começar a ser preparado a partir do primeiro toque do primeiro dia. É preciso voltar a acreditar no valor da escola, reconhecer o significado maiúsculo da palavra que as férias adormeceram no colo: Trabalho.
Já tocou. O professor apresenta-se. Os alunos também. Marcam no mapa os mesmos caminhos. Têm de saber o nome uns dos outros. Têm de respeitar o lugar uns dos outros. Têm de amar o tempo em que estão juntos, porque o tempo é de estar.
A Escola sorri. Os pátios humanizam-se.
Conheço bem esta ansiedade. Muito bem. E peço, na pequenez dos meus desejos, que, este ano, em todas as escolas, professores, alunos, encarregados de educação e toda a comunidade trabalhem juntos, no sentido de acordar a esperança de um País que anda demasiado triste para sonhar.
Por favor, que os professores nunca desistam de lutar, que os alunos ponham, de novo, a escola na moda, que os pais participem da vida que há-de ser de todos, amanhã. E que ninguém, em nenhum momento deste ano, fique perplexo sem saber o que fazer do seu abraço.
Um bom ano lectivo!
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segunda-feira, 20 de setembro de 2010
sábado, 18 de setembro de 2010
É só um instante...

Sente-se aqui. Ouça comigo a canção azul do mar que beija esta cidade, cada manhã. Deixe-se levar pela suavidade deste silêncio que acorda as gaivotas e abraça o desenho da calçada.
A cidade espreguiça-se no vagar marinheiro deste momento. Aos poucos, a vida acende as janelas e as ruas povoam-se de cores. Aos poucos, o tempo alumia os sorrisos e abre
- bons dias!
nos passos que ganham o tempo.
São horas, eu sei. Fique só mais um bocadinho. Aprecie comigo as lágrimas azuis dos jacarandás, o fogo laranja da praça, os meninos que, nos telhados, acompanham os pombos na vigia das casas. Veja o bordado das varandas que se debruçam nas ruas. Aproveite o cheiro do café acabado de fazer que escapa das portas. Sinta o afago calado desta hora antes que os carros se lembrem de passar.
Só um instante. Deixe-se levar nesta bebedeira de olhar. Olhe as paredes da cidade. Escondem segredos de pedra e guardam músculos de basalto. As casas da minha cidade têm veias de História a correr no corpo. Olhe as árvores que rasgam o céu. O céu da minha cidade têm as cores que as árvores lhe dão. Às vezes, rouba o azul ao mar. Outras vezes, tem sombras feiticeiras a ameaçar a alegria.
É só um minuto. Prometo-lhe que não chegará atrasado. Permita-se olhar para os outros olhares que, hoje, pararam também. E sorria. Mesmo que chova, o sol do seu sorriso acenderá outro sorriso, que acenderá outro sorriso, que acenderá outro sorriso.
Deus há-de ver. Há-de sorrir também. E o sorriso de Deus há-de dar-nos, a si, a mim e a cidade, um dia feliz.
Pronto. Temos de ir trabalhar. Obrigada por me ter feito companhia. Até amanhã.
sábado, 11 de setembro de 2010
Mercês, 37
Venha comigo, por favor.
Quero levá-lo, hoje, a um lugar onde fui muito feliz: a Escola das Mercês. Traga espaço para as memórias e reserve um bocadinho de coração para abrigar as saudades. As minhas e as de muita gente que fez deste lugar uma parte muito importante da sua vida.
Arrumo os passos para subir uma rua que conheço de cor. Bato à porta do 37 para um
- bom dia, senhora doutora,
que tem um sorriso pendurado nas palavras. Levo muitos sorrisos desta escola. Ao longo de mais de vinte anos, eles foram ajudando a resolver as dificuldades, a atenuar os cansaços, a ultrapassar as incapacidades.
Entre, por favor. Deixe-se levar pelo eco das gargalhadas dos miúdos que já não estão aqui. Elas estão desenhadas no arrepio velho das paredes e escondidas debaixo das camadas de tinta que lhes foram disfarçando a idade. Afaste-se comigo da bola que atravessa o campo e que vem aterrar inevitavelmente aos nossos pés,
- desculpe, professora,
que ouvi centenas de vezes, em centenas de manhãs, antes do toque das oito.
Tenho os meus passos marcados no ranger das escadas da Casa Velha. Escondi, ali, os segredos que os alunos me contaram, o desespero dos pais sem respostas para a juventude dos filhos, a saudade dos amigos que já só encontro dentro de mim, a cumplicidade dos colegas-amigos-irmãos de todas as horas. Escondi, ali, os funcionários que me ajudaram a ser a professora que fui, a pessoa que sou. Escondi, ali, a possibilidade que a vida me deu em participar em projectos novos, em decisões inovadoras, na vida de gente que, hoje, ajuda a mover a sociedade.
Comecei a trabalhar nesta Escola ainda menina com vontade de crescer. Encontrei aqui um dos lemas da minha vida: é sempre possível fazer melhor. Percebi, nesta casa, que a missão de um professor não se esgota nas paredes das salas de aula. Entendi que a vida também se ensina nos pátios, nos palcos, no exemplo que somos e que oferecemos aos alunos, todos os anos lectivos.
Vou-me embora, agora. A Escola das Mercês está a fechar. Os quadros estão mortos. As salas estão vazias. Já não há alunos a enfeitar os varões da rua. Era preciso, eu sei.
O Santo António do Conselho Executivo há-de zelar pelo resto. Por nós. A missão daquela casa será outra, certamente. Mas, a sua alma há-de chamar-se, para sempre, “Escola das Mercês”.
Vou ter saudades.
A si, muito obrigada por me ter acompanhado. Um abraço. Agora, vou fechar a porta.
Quero levá-lo, hoje, a um lugar onde fui muito feliz: a Escola das Mercês. Traga espaço para as memórias e reserve um bocadinho de coração para abrigar as saudades. As minhas e as de muita gente que fez deste lugar uma parte muito importante da sua vida.
Arrumo os passos para subir uma rua que conheço de cor. Bato à porta do 37 para um
- bom dia, senhora doutora,
que tem um sorriso pendurado nas palavras. Levo muitos sorrisos desta escola. Ao longo de mais de vinte anos, eles foram ajudando a resolver as dificuldades, a atenuar os cansaços, a ultrapassar as incapacidades.
Entre, por favor. Deixe-se levar pelo eco das gargalhadas dos miúdos que já não estão aqui. Elas estão desenhadas no arrepio velho das paredes e escondidas debaixo das camadas de tinta que lhes foram disfarçando a idade. Afaste-se comigo da bola que atravessa o campo e que vem aterrar inevitavelmente aos nossos pés,
- desculpe, professora,
que ouvi centenas de vezes, em centenas de manhãs, antes do toque das oito.
Tenho os meus passos marcados no ranger das escadas da Casa Velha. Escondi, ali, os segredos que os alunos me contaram, o desespero dos pais sem respostas para a juventude dos filhos, a saudade dos amigos que já só encontro dentro de mim, a cumplicidade dos colegas-amigos-irmãos de todas as horas. Escondi, ali, os funcionários que me ajudaram a ser a professora que fui, a pessoa que sou. Escondi, ali, a possibilidade que a vida me deu em participar em projectos novos, em decisões inovadoras, na vida de gente que, hoje, ajuda a mover a sociedade.
Comecei a trabalhar nesta Escola ainda menina com vontade de crescer. Encontrei aqui um dos lemas da minha vida: é sempre possível fazer melhor. Percebi, nesta casa, que a missão de um professor não se esgota nas paredes das salas de aula. Entendi que a vida também se ensina nos pátios, nos palcos, no exemplo que somos e que oferecemos aos alunos, todos os anos lectivos.
Vou-me embora, agora. A Escola das Mercês está a fechar. Os quadros estão mortos. As salas estão vazias. Já não há alunos a enfeitar os varões da rua. Era preciso, eu sei.
O Santo António do Conselho Executivo há-de zelar pelo resto. Por nós. A missão daquela casa será outra, certamente. Mas, a sua alma há-de chamar-se, para sempre, “Escola das Mercês”.
Vou ter saudades.
A si, muito obrigada por me ter acompanhado. Um abraço. Agora, vou fechar a porta.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
ONTEM, HOJE, AMANHÃ
Ontem, a ilha era verde; hoje, os esqueletos pretos das árvores rasgam o céu, cinzento de tristeza.
Ontem, os caminhos subiam a montanha fazendo das copas, túneis de frescura; hoje, o cheiro a lume inunda os pulmões de quem está lá, de quem está longe, de quem acompanha as imagens pela televisão.
Ontem, Agosto era mês dos piqueniques na serra, do cheiro a eucaliptos e a gargalhadas; hoje, Agosto é o mês da terra em fogo, da bola vermelha a incendiar o céu, da noite a descer cedo, sob a manta das cinzas.
Ontem, falava-se da beleza das nossas escarpas, do azul transparente do nosso mar, da gentileza das gentes, da paisagem impressionista dos jardins; hoje, fala-se da luta contra o fogo, da destruição da floresta, da descaracterização da terra.
Ontem, foi a água; hoje é o fogo. O ar está pesado de folhas de eucaliptos moribundas, choradas das árvores. A terra está dramaticamente negra e queimada.
Ontem, as mãos ressuscitavam as árvores cansadas do tempo; hoje, as mesmas mãos e outras mãos regam a desgraça do que é de todos e que já não é de ninguém, porque o fogo engoliu.
Ontem, as mãos. Hoje, as mãos. Queimadas. Fortes. Cansadas. Desanimadas. Corajosas. Dadas. Postas.
Ontem, a luz; hoje, o lume.
Ontem, a luta; hoje, o medo.
Ontem, a vida; hoje, a morte.
Amanhã, talvez amanhã, talvez já amanhã, se recomece.
Ontem, os caminhos subiam a montanha fazendo das copas, túneis de frescura; hoje, o cheiro a lume inunda os pulmões de quem está lá, de quem está longe, de quem acompanha as imagens pela televisão.
Ontem, Agosto era mês dos piqueniques na serra, do cheiro a eucaliptos e a gargalhadas; hoje, Agosto é o mês da terra em fogo, da bola vermelha a incendiar o céu, da noite a descer cedo, sob a manta das cinzas.
Ontem, falava-se da beleza das nossas escarpas, do azul transparente do nosso mar, da gentileza das gentes, da paisagem impressionista dos jardins; hoje, fala-se da luta contra o fogo, da destruição da floresta, da descaracterização da terra.
Ontem, foi a água; hoje é o fogo. O ar está pesado de folhas de eucaliptos moribundas, choradas das árvores. A terra está dramaticamente negra e queimada.
Ontem, as mãos ressuscitavam as árvores cansadas do tempo; hoje, as mesmas mãos e outras mãos regam a desgraça do que é de todos e que já não é de ninguém, porque o fogo engoliu.
Ontem, as mãos. Hoje, as mãos. Queimadas. Fortes. Cansadas. Desanimadas. Corajosas. Dadas. Postas.
Ontem, a luz; hoje, o lume.
Ontem, a luta; hoje, o medo.
Ontem, a vida; hoje, a morte.
Amanhã, talvez amanhã, talvez já amanhã, se recomece.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
PROJECTO PARA UM DIA DE VERÃO
O sol acorda a manhã que lava a cara no mar. A cidade levanta-se, no vagar das férias e procura ver o que não viu durante o ano: a brancura das casas que sobem a montanha, o remate branco do mar na orla da ilha, o bailado das gaivotas a namorar os beirais, o bordado a xadrez da calçada do chão.
E pensamos,
- vai ser hoje
porque o sol sorri lá em baixo no mar e temos mais tempo. Dentro de nós, fazemos a lista do que nos falta fazer: telefonar ao amigo que não vemos há muito tempo, visitar o que cala, sozinho, a sua solidão, sorrir para quem se cruza connosco no azul fresco das ruas.
Hoje, vamos dizer
- bom dia,
e obrigar quem leva os olhos no chão, a olhar para a nossa voz e a iluminar o seu olhar com a luz dos nosso.
Hoje, vamos criar clareiras de alegria. Vamos falar de esperança e de coragem. Vamos inventar tempo para ver, para escutar, para sentir o ar que nos sacode os cabelos. Vamos fazer a vida acontecer, como faz a natureza que explode em flores, rompendo a lama, iluminando a negrura das rochas, abrindo gargalhadas na dureza das coisas.
Hoje, vamos redescobrir o calor dos abraços. O Verão entra assim, dentro de nós, aconchegando o bater dos corações, um no outro. Vamos desfazer os abismos que nos separam. Vamos voltar a confiar no amigo, como dantes, como quando não tínhamos medo das traições ou das palavras que têm dois gumes e que cortam como se fossem facas.
Não custa nada: nem suor, nem dinheiro. Um instante, apenas. A eternidade guarda-se no silêncio de um abraço. Quando nos abraçamos, não somos dois nem estamos sós, somos felizes.
- Dá-me um abraço?
Então, será mesmo Verão. Mesmo que o sol não precise de ir ao mar lavar a cara, porque a chuva o molhou.
E pensamos,
- vai ser hoje
porque o sol sorri lá em baixo no mar e temos mais tempo. Dentro de nós, fazemos a lista do que nos falta fazer: telefonar ao amigo que não vemos há muito tempo, visitar o que cala, sozinho, a sua solidão, sorrir para quem se cruza connosco no azul fresco das ruas.
Hoje, vamos dizer
- bom dia,
e obrigar quem leva os olhos no chão, a olhar para a nossa voz e a iluminar o seu olhar com a luz dos nosso.
Hoje, vamos criar clareiras de alegria. Vamos falar de esperança e de coragem. Vamos inventar tempo para ver, para escutar, para sentir o ar que nos sacode os cabelos. Vamos fazer a vida acontecer, como faz a natureza que explode em flores, rompendo a lama, iluminando a negrura das rochas, abrindo gargalhadas na dureza das coisas.
Hoje, vamos redescobrir o calor dos abraços. O Verão entra assim, dentro de nós, aconchegando o bater dos corações, um no outro. Vamos desfazer os abismos que nos separam. Vamos voltar a confiar no amigo, como dantes, como quando não tínhamos medo das traições ou das palavras que têm dois gumes e que cortam como se fossem facas.
Não custa nada: nem suor, nem dinheiro. Um instante, apenas. A eternidade guarda-se no silêncio de um abraço. Quando nos abraçamos, não somos dois nem estamos sós, somos felizes.
- Dá-me um abraço?
Então, será mesmo Verão. Mesmo que o sol não precise de ir ao mar lavar a cara, porque a chuva o molhou.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
SOBRE O SILENCIO

“O silêncio é a maior sabedoria do homem” (Píndaro)
Shshshiu!!!
Deixem falar o silêncio. Ouçam-no na alegria dos dias de sol, nas ondas que despenteiam os calhaus, na brisa verde dos campos. Ouçam-no no olhar dos amigos que se abraçam, no riso dos meninos na babugem do mar, nos segredos que o vento conta às árvores, quando o sol se despe e a noite cai.
O silêncio tem muitas coisas para dizer: fala de lugares secretos onde a serenidade adormece, fala da nascente das lágrimas, fala da raiz branca da paz. Com ele, é possível irmos à procura do princípio, daquele tempo em que a felicidade se escrevia com histórias pequeninas e se desenhava nas papoilas, nas gargalhadas penduradas nos beirais, na segurança da mão do pai, no nome mãe dito na aflição.
O silêncio, o verdadeiro, vive num lugar escondido dentro da terra, dentro do mar, dentro de nós. Derrama verdades na nossa consciência e acende os recantos nocturnos que guardámos dentro do peito. Não é fácil escutá-lo. Eu sei. Então, aumentamos o volume da nossa voz, falamos mais alto, cada vez mais alto, para nos fazermos ouvir. Andamos na rua, com os ouvidos tapados com músicas do mundo e não ouvimos a nossa.
E estamos sós. Cada vez mais longe dos outros. Cada vez mais longe de nós. Cada vez mais longe de Deus. Cada vez mais longe.
Talvez ainda estejamos a tempo. Vá, só um bocadinho. Vamos ouvir o silêncio, antes que seja demasiado tarde?
sábado, 17 de julho de 2010
PORTO SANTO
Querem que eu conte? Eu conto.
Naquele tempo, as palavras calavam-se para ouvir passar a vida. A terra tinha as luzes acesas até tarde, porque era Verão. Agosto, talvez, que é o mês em que o céu está mais feliz. O mar, de um azul - azul, abria-se no cais, caseado de espuma.
No barco, o mundo. No peito, a aventura. Na gargalhada, a alegria de ir de férias e de levar dentro das caixas tudo o que era preciso para ser feliz: a toalha, o bronzeador, o bacalhau para o enjoo, o medo da Travessa, a vontade de chegar e pisar o chão louro de um Porto Santo que nos enfeitiçava os sentidos.
Depois, o desembarque mareado nas colunas do cais velho, o andar de marinheiro mesmo depois da amurada, os amigos à espera, os olhos gulosos de mar e o cheiro brilhante do sol.
Esses eram os dias da liberdade merecida. O bafo quente dos cardos e dos canaviais inebriava-nos de tudo. Éramos miúdos inocentes e felizes. Não precisávamos de mais nada, porque não tínhamos medo: nem do sol, nem do cancro, nem da vida. Estávamos juntos e tínhamos tempo para sermos uns dos outros. Partilhávamos a casa com outra família, vivíamos em comunidade durante duas semanas: tudo era de todos: o pão e as uvas, a água da Fonte da Areia e os figos do quintal.
Quando a tarde caía, vermelha e quente e o sol tomava banho no horizonte, um banho de mangueira à porta de casa tirava-nos a areia e refrescava-nos o espírito.
O resto? Uma mesa de gente
- abençoa, Senhor, o alimento que vamos tomar,
a fome de que quem é novo, as conversas cruzadas sobre os pratos, as histórias de um dia em que o mundo se guardara na praia, na sesta do alpendre, no passeio de jerico, no queimor da pele sem medo de escaldões, na roda da eira,
- ei, Morena!
As noites do Porto Santo tinham sabor a liberdade. Andávamos à solta no Largo das Palmeiras, provando os gelados do quiosque, entoando Zeca Afonso, nas escadinhas do cais, contando anedotas à volta da fogueira, ao pé das casas dos barcos.
Não tínhamos dinheiro, nem televisão, nem sabíamos que um dia, um aparelho chamado computador havia de mandar na nossa vida.
Não tínhamos nada. Apenas amigos e vontade de viver. Tínhamos tudo o que era preciso e éramos felizes.
Naquele tempo, as palavras calavam-se para ouvir passar a vida. A terra tinha as luzes acesas até tarde, porque era Verão. Agosto, talvez, que é o mês em que o céu está mais feliz. O mar, de um azul - azul, abria-se no cais, caseado de espuma.
No barco, o mundo. No peito, a aventura. Na gargalhada, a alegria de ir de férias e de levar dentro das caixas tudo o que era preciso para ser feliz: a toalha, o bronzeador, o bacalhau para o enjoo, o medo da Travessa, a vontade de chegar e pisar o chão louro de um Porto Santo que nos enfeitiçava os sentidos.
Depois, o desembarque mareado nas colunas do cais velho, o andar de marinheiro mesmo depois da amurada, os amigos à espera, os olhos gulosos de mar e o cheiro brilhante do sol.
Esses eram os dias da liberdade merecida. O bafo quente dos cardos e dos canaviais inebriava-nos de tudo. Éramos miúdos inocentes e felizes. Não precisávamos de mais nada, porque não tínhamos medo: nem do sol, nem do cancro, nem da vida. Estávamos juntos e tínhamos tempo para sermos uns dos outros. Partilhávamos a casa com outra família, vivíamos em comunidade durante duas semanas: tudo era de todos: o pão e as uvas, a água da Fonte da Areia e os figos do quintal.
Quando a tarde caía, vermelha e quente e o sol tomava banho no horizonte, um banho de mangueira à porta de casa tirava-nos a areia e refrescava-nos o espírito.
O resto? Uma mesa de gente
- abençoa, Senhor, o alimento que vamos tomar,
a fome de que quem é novo, as conversas cruzadas sobre os pratos, as histórias de um dia em que o mundo se guardara na praia, na sesta do alpendre, no passeio de jerico, no queimor da pele sem medo de escaldões, na roda da eira,
- ei, Morena!
As noites do Porto Santo tinham sabor a liberdade. Andávamos à solta no Largo das Palmeiras, provando os gelados do quiosque, entoando Zeca Afonso, nas escadinhas do cais, contando anedotas à volta da fogueira, ao pé das casas dos barcos.
Não tínhamos dinheiro, nem televisão, nem sabíamos que um dia, um aparelho chamado computador havia de mandar na nossa vida.
Não tínhamos nada. Apenas amigos e vontade de viver. Tínhamos tudo o que era preciso e éramos felizes.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
da ilha e de mim

Quando me sento na boca do vulcão, olho para dentro da ilha. O seu ventre de fogo e magma guarda os segredos da força que rasga a terra em partos de verde. É daqui que caseio o mundo. Cada ponto do meu bordado esconde as raízes que me prendem a este lugar. Bordo a minha vida, embalada pelas palavras do vento que vem do chão onde me plantei.
Conta-me histórias antigas de lágrimas do céu que caíram em chuva e afogaram o fogo do princípio dos tempos. Fala-me de homens que vieram do mar e desbravaram os gritos calados da floresta. Fala-me da bravura das mãos que abriram rugas na terra e subiram as encostas e construíram as casas no abraço das vides. Fala-me do arrepio das paredes da serra, quando a água escorre em cascatas, riscando os montes de branco.
Derramo o bordado sobre o colo. Calo o bater do meu peito para ouvir o silêncio da ilha. E olho para o horizonte, porta de entrada de gente, porta de saída de sonhos. Está lá o mar, a abraçar de azul e futuro a minha vida. Há mais mundo para além da praia. Muito mais.
Agora, deixo falar as marés. E elas contam de um mar branco de açúcar, enfunando as velas das caravelas. Contam de regressos e de desenhos sagrados da Flandres, guardados em arcas e depositados na beira do vulcão. Falam de saques de piratas, de fomes e de lutos. Falam de um tempo que já não é, porque as gaivotas o levaram.
Estou sentada na boca do vulcão, mesmo à porta do mar. E sei que viver aqui é ter o mundo dentro de mim e tê-lo também a meus pés, imenso, à minha espera.
Tenho o bordado no colo, os olhos no horizonte. Da varanda da ilha, vejo a vida. Do alto do Monte, a Senhora sorri. E eu sou feliz.
sábado, 26 de junho de 2010
FERIAS GRANDES

Dantes, quando Junho chegava ao fim, desenhávamos planos para os três meses de sol e de praia, de gargalhadas e de amigos. Sonhávamos com o momento de arrumar a pasta, de guardar os livros, de levantar as notas e de nos deslumbrarmos com essa liberdade que vinha a cavalo do Verão. Era o tempo das cerejas e dos balões pendurados nos quintais. Era o tempo dos dias grandes, das tardes anoitecidas a olhar para o mar, das aventuras planeadas, dos lanches estendidos sobre a toalha da nossa alegria.
Dantes, quando Junho chegava ao fim, dourávamos a pele sem medo do sol, embriagávamo-nos de juventude e éramos felizes.
Agora, não. Já não sabemos o gosto que a felicidade tinha na nossa boca quando o dia acordava e nós agradecíamos à vida a simples oferta de estarmos vivos e de termos saúde. Andamos à procura da alegria nos bolsos que se esvaziam, no fundo de um copo, num prato que já nã podemos comer, numa viagem que, afinal, ainda não havemos de fazer este ano.
E Junho está no fim. Exactamente igual a outros Junhos do tempo em que sabíamos viver. Vamos tentar?
Vamos deixar descansar o trabalho que nos tirou o sono durante este ano, as lutas que tivemos de ganhar para que não nos faltasse a coragem de acordar às segundas-feiras e dizer
- mais uma semana,
com vontade de que fosse sábado outra vez .
Vamos deixar que o tempo durma no baloiço do mar ou no segredo verde das montanhas. Vamos deixar que o sol nos beije a pele. Vamos voltar a abraçar quem se perdeu de nós. Vamos rir. Vamos ser felizes. Outra vez. Como dantes.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
DE PALAVRAS...
“A gratidão é a memória do coração.”
(Antístenes)
Tenho, às vezes, abraços agarrados às palavras. Redondos. Quentes. São abraços de casa, são abraços de amigos, são abraços da terra onde me guardo todos os dias. São abraços de um Deus que me escreveu a vida como se escreve um poema: escolhendo as imagens mais doces, procurando as rimas mais ricas, fazendo de mim uma mulher feliz.
Tenho palavras para dar. As minhas. As de outros. As que o silêncio me segreda quando fecho os olhos e procuro dentro de mim o que me falta.
A minha palavra de hoje é, por si só um abraço. É a palavra obrigada!, assim exclamada pela força da minha verdade. Tem um coração à volta para a proteger do frio do esquecimento, da falta de humildade que, às vezes também, se quer sentar comigo à mesa para me falar do futuro.
Tenho palavras. E mãos. E abraços. E tenho uma Força que não é minha e que me diz, todos os dias, que é preciso falar de esperança, de paz, de um Amor infinito e de um mundo que pode ser um bocadinho melhor.
Tenho palavras. E coração. Sei que o tempo é de agradecer e de pedir à Senhora que ficou comigo que me ensine a sabedoria dos simples.
(Antístenes)
Tenho, às vezes, abraços agarrados às palavras. Redondos. Quentes. São abraços de casa, são abraços de amigos, são abraços da terra onde me guardo todos os dias. São abraços de um Deus que me escreveu a vida como se escreve um poema: escolhendo as imagens mais doces, procurando as rimas mais ricas, fazendo de mim uma mulher feliz.
Tenho palavras para dar. As minhas. As de outros. As que o silêncio me segreda quando fecho os olhos e procuro dentro de mim o que me falta.
A minha palavra de hoje é, por si só um abraço. É a palavra obrigada!, assim exclamada pela força da minha verdade. Tem um coração à volta para a proteger do frio do esquecimento, da falta de humildade que, às vezes também, se quer sentar comigo à mesa para me falar do futuro.
Tenho palavras. E mãos. E abraços. E tenho uma Força que não é minha e que me diz, todos os dias, que é preciso falar de esperança, de paz, de um Amor infinito e de um mundo que pode ser um bocadinho melhor.
Tenho palavras. E coração. Sei que o tempo é de agradecer e de pedir à Senhora que ficou comigo que me ensine a sabedoria dos simples.
MEU SIMAO DAQUELA TARDE
Amigos
A vossa presença foi um abraço para a vida. A felicidade que me vestiu o dia 25 de Maio deveu-se a todos os que fizeram do Meu Simão o Seu Simão.
Muito obrigada!
A vossa presença foi um abraço para a vida. A felicidade que me vestiu o dia 25 de Maio deveu-se a todos os que fizeram do Meu Simão o Seu Simão.
Muito obrigada!
domingo, 23 de maio de 2010
MEU SIMÃO DAQUELA TARDE.
Onde moram as hitórias antes de um autor as passar para o papel?
Onde começa a ficção e acaba a vida?
Será que o Simão, poeta em busca de si, conseguirá escrever um romance de Amor?
À procura das respostas:
Feira do Livro; Pavilhão dos Autores, dia 25 de Maio, terça-feira; 18.30H
Onde começa a ficção e acaba a vida?
Será que o Simão, poeta em busca de si, conseguirá escrever um romance de Amor?
À procura das respostas:
Feira do Livro; Pavilhão dos Autores, dia 25 de Maio, terça-feira; 18.30H
domingo, 2 de maio de 2010
PORQUE MÃE É BEIJO DE DEUS
Quando o grito do princípio se cala, o olhar do menino fixa o rosto de Deus. E o rosto de Deus está colado ao olhar da mãe que lhe embala o sono. E é um olhar de amor infinito, capaz de dar o que tem, capaz de inventar o que não tem para o fazer feliz.
Mãe é o primeiro nome de Deus. E tem gosto a leite e a promessas. Tem música de beijos e de perdão. Tem cheiro a terra quando a Primavera a acorda e Maio lhe enfeita os caminhos com flores pequeninas.
Mãe é o colo sem limites onde se guarda o caminho de casa quando nos perdemos de nós, as lágrimas que nos refrescam a febre, o perdão de todos os crimes. Porque as mães são os anjos que Deus criou para nos amparar nas quedas, para nos proteger do frio, para dizer a cada um
- meu filho
e sermos únicos no meio da humanidade.
O beijo da Mãe é o beijo de Deus, quando a inocência se escreve no nosso olhar, quando a adolescência nos obriga a fazer perguntas, quando a juventude nos dá a ilusão de acreditar na nossa força, quando a vida nos obriga a procurar outros mares e outros abraços, quando o Outono nos mostra as fragilidades do nosso corpo e a solidão dos sentidos.
O regaço da Mãe é o regaço de Deus, quando a noite cai e temos medo, quando o sol se abre em alegrias, quando o tempo se faz eterno, quando a dor cala os pássaros ou as amoras nos tingem a boca com o sangue da terra.
Por ela, conhecemos as fadas e os heróis. Por ela, conhecemos o dom das palavras caladas e das lágrimas tatuadas no peito à espera que os nossos passos regressem a casa. Por ela, conhecemos uma Mulher que ficará connosco, mesmo quando ela adormecer nos braços frios da morte.
Por ela, aprendemos a rezar:
- Ave-Maria, Santa Maria, rogai por nós, agora e na hora da nossa morte.
Mãe é palavra de Deus levada à letra: “Amai-vos como eu vos amei!”. Até ao fim, portanto. Até depois do fim. Até à saudade que fica depois dela se ter ido embora. Até sempre.
Mãe é o coração de Deus ensinado aos homens.
Mãe é o primeiro nome de Deus. E tem gosto a leite e a promessas. Tem música de beijos e de perdão. Tem cheiro a terra quando a Primavera a acorda e Maio lhe enfeita os caminhos com flores pequeninas.
Mãe é o colo sem limites onde se guarda o caminho de casa quando nos perdemos de nós, as lágrimas que nos refrescam a febre, o perdão de todos os crimes. Porque as mães são os anjos que Deus criou para nos amparar nas quedas, para nos proteger do frio, para dizer a cada um
- meu filho
e sermos únicos no meio da humanidade.
O beijo da Mãe é o beijo de Deus, quando a inocência se escreve no nosso olhar, quando a adolescência nos obriga a fazer perguntas, quando a juventude nos dá a ilusão de acreditar na nossa força, quando a vida nos obriga a procurar outros mares e outros abraços, quando o Outono nos mostra as fragilidades do nosso corpo e a solidão dos sentidos.
O regaço da Mãe é o regaço de Deus, quando a noite cai e temos medo, quando o sol se abre em alegrias, quando o tempo se faz eterno, quando a dor cala os pássaros ou as amoras nos tingem a boca com o sangue da terra.
Por ela, conhecemos as fadas e os heróis. Por ela, conhecemos o dom das palavras caladas e das lágrimas tatuadas no peito à espera que os nossos passos regressem a casa. Por ela, conhecemos uma Mulher que ficará connosco, mesmo quando ela adormecer nos braços frios da morte.
Por ela, aprendemos a rezar:
- Ave-Maria, Santa Maria, rogai por nós, agora e na hora da nossa morte.
Mãe é palavra de Deus levada à letra: “Amai-vos como eu vos amei!”. Até ao fim, portanto. Até depois do fim. Até à saudade que fica depois dela se ter ido embora. Até sempre.
Mãe é o coração de Deus ensinado aos homens.
terça-feira, 30 de março de 2010
O(S) PARTO(S) DA ILHA
O céu derramou-se em estrondos líquidos sobre a cidade. Na manhã desse dia 20, rebentaram as águas à terra e a montanha pariu o desamparo num leito de dor e de morte.
A água, feiticeira, desceu a serra, invadiu as casas e as almas, marcou de sangue o que antes era verde e sereno e feliz. Um instante. Uma eternidade.
De joelhos, a ilha entregava ao mar os restos do parto da terra. De joelhos, lutava para não morrer. De joelhos, pedia à chuva que parasse, ao vento que se calasse e ao tempo que deixasse de ser infinito. Um instante. Uma eternidade.
Foi um instante para que as sirenes se sobrepusessem ao grito das ribeiras e rasgassem a ilha. Foi então que as mãos se encontraram e a abraçaram. Foi então que as noites foram dias e a força dos braços trataram das dores, reanimaram os desencantos, restauraram a esperança. Uma eternidade. Um instante.
Um mês depois, a cidade espreguiça-se, devagar. A Primavera, envergonhada, vai acordando do medo. A minha terra também. E eu. Talvez seja, então, tempo de lembrar: que ninguém se esqueça das mãos. Nem do trabalho. Nem da coragem. Que ninguém se esqueça dos que não voltaram a casa. Nem dos que, à procura de alguma coisa, se tornaram húmus desta terra, grávida outra vez. Que ninguém se esqueça dos que, com as mãos cheias de lama, limparam as lágrimas e acreditaram no milagre. Que ninguém se esqueça que a angústia dura um instante. Uma eternidade. Exactamente como a felicidade. Como a morte. Como a vida.
Há um mês, os olhos da ilha choraram no mundo inteiro. Hoje, o mundo inteiro tomou a ilha nos seus braços e ajudou a levantá-la do chão. Connosco dentro. Com a serra, imponente outra vez, a olhar o céu. Com o mar a querer ser de novo azul e porta aberta de entrada.
Há um mês, rebentaram as águas à terra. Hoje, rebentam flores nos beirais da lama.
Há um mês, a manhã do dia 20 anoiteceu. Hoje, a manhã é quase amanhã. Porque futuro. Porque luz. Porque a ilha está grávida, de novo. Mas, desta vez, as andorinhas já anunciaram que o parto será feliz. As janelas estão abertas. O sol já vem.
A água, feiticeira, desceu a serra, invadiu as casas e as almas, marcou de sangue o que antes era verde e sereno e feliz. Um instante. Uma eternidade.
De joelhos, a ilha entregava ao mar os restos do parto da terra. De joelhos, lutava para não morrer. De joelhos, pedia à chuva que parasse, ao vento que se calasse e ao tempo que deixasse de ser infinito. Um instante. Uma eternidade.
Foi um instante para que as sirenes se sobrepusessem ao grito das ribeiras e rasgassem a ilha. Foi então que as mãos se encontraram e a abraçaram. Foi então que as noites foram dias e a força dos braços trataram das dores, reanimaram os desencantos, restauraram a esperança. Uma eternidade. Um instante.
Um mês depois, a cidade espreguiça-se, devagar. A Primavera, envergonhada, vai acordando do medo. A minha terra também. E eu. Talvez seja, então, tempo de lembrar: que ninguém se esqueça das mãos. Nem do trabalho. Nem da coragem. Que ninguém se esqueça dos que não voltaram a casa. Nem dos que, à procura de alguma coisa, se tornaram húmus desta terra, grávida outra vez. Que ninguém se esqueça dos que, com as mãos cheias de lama, limparam as lágrimas e acreditaram no milagre. Que ninguém se esqueça que a angústia dura um instante. Uma eternidade. Exactamente como a felicidade. Como a morte. Como a vida.
Há um mês, os olhos da ilha choraram no mundo inteiro. Hoje, o mundo inteiro tomou a ilha nos seus braços e ajudou a levantá-la do chão. Connosco dentro. Com a serra, imponente outra vez, a olhar o céu. Com o mar a querer ser de novo azul e porta aberta de entrada.
Há um mês, rebentaram as águas à terra. Hoje, rebentam flores nos beirais da lama.
Há um mês, a manhã do dia 20 anoiteceu. Hoje, a manhã é quase amanhã. Porque futuro. Porque luz. Porque a ilha está grávida, de novo. Mas, desta vez, as andorinhas já anunciaram que o parto será feliz. As janelas estão abertas. O sol já vem.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
SOBRE AS MÃOS QUE RESSUSCITAM ESTA CIDADE
Na tragédia, as mãos. Dadas ou postas, procuram apoios para limpar as lágrimas, para enterrar os mortos, para proteger o que resta. São mãos de uma cidade que, ajoelhada aos pés do mar, procuram restaurar o que a água levou, na avidez de chegar ao destino. São centenas de mãos que se unem para redesenhar as ruas, as casas, as esperanças de quem perdeu o que tinha, de quem perdeu quem tinha, de quem perdeu o que era há dias atrás.
Hoje, só posso falar dessas mãos: das que organizam as operações, das que suportam, das que limpam, das que manobram as máquinas, das que lavam o rosto desta cidade ferida de morte.
Hoje só posso falar das mãos: calejadas, cansadas, doridas, exaustas. Mãos de homens vergados sob o silêncio de bronze da lama. Mãos que entregam o que têm, o que lhes falta. Mãos que procuram no chão quem não chegou a casa. Mãos de gente. Mãos de irmãos, filhos da mesma vontade.
Ajoelho-me, hoje, perante essas mãos. Valem o que as minhas palavras não sabem dizer. Valem o silêncio dos homens. Valem o sorriso de Deus.
Na tragédia, outras mãos. Dadas ou postas. As de uma cidade que tem de reaprender a enfeitar de flores os beirais, a receber os salpicos brancos do mar, a ouvir a água das ribeiras sem sobressaltos e a rir, vestindo de verde as montanhas, vestindo as noites de luz.
Quisera ser poeta, hoje. E poder beijar com as minhas palavras essas mãos que procuram o futuro que se escondeu debaixo dos escombros.
Hoje, só posso falar dessas mãos: das que organizam as operações, das que suportam, das que limpam, das que manobram as máquinas, das que lavam o rosto desta cidade ferida de morte.
Hoje só posso falar das mãos: calejadas, cansadas, doridas, exaustas. Mãos de homens vergados sob o silêncio de bronze da lama. Mãos que entregam o que têm, o que lhes falta. Mãos que procuram no chão quem não chegou a casa. Mãos de gente. Mãos de irmãos, filhos da mesma vontade.
Ajoelho-me, hoje, perante essas mãos. Valem o que as minhas palavras não sabem dizer. Valem o silêncio dos homens. Valem o sorriso de Deus.
Na tragédia, outras mãos. Dadas ou postas. As de uma cidade que tem de reaprender a enfeitar de flores os beirais, a receber os salpicos brancos do mar, a ouvir a água das ribeiras sem sobressaltos e a rir, vestindo de verde as montanhas, vestindo as noites de luz.
Quisera ser poeta, hoje. E poder beijar com as minhas palavras essas mãos que procuram o futuro que se escondeu debaixo dos escombros.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
de silêncios e de regressos...
O tempo foge de mim.
Tenho andado por outras escritas, em outros lugares. Voltei agora para um beijo. Continuo a amar as palavras.
Tenho andado por outras escritas, em outros lugares. Voltei agora para um beijo. Continuo a amar as palavras.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
O amanhã já é hoje
porque é ano novo;
porque penduramos ternuras nas asas dos beirais;
porque ainda há restos da festa espalhados pela toalha;
porque o sorriso ainda guarda a esperança;
porque o mar se cala para nos ver passar;
porque
porque penduramos ternuras nas asas dos beirais;
porque ainda há restos da festa espalhados pela toalha;
porque o sorriso ainda guarda a esperança;
porque o mar se cala para nos ver passar;
porque
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Este Natal serei sino
Este Natal, serei sino. Hei-de anunciar que, na Belém da minha terra, entre a luz e a alegria, vai nascer o Salvador. Hei-de falar de um amor-menino que incendiará o mar que banha a minha cidade. Hei-de pendurar a música das minhas palavras nos ramos do meu presépio e calar os gritos com cantos e as solidões com abraços.
Este Natal, serei sino. E, à meia-noite em ponto, quando a Senhora me disser:
- nasceu. É teu,
cada badalar há-de acordar os silêncios negros da noite e acender as estrelas.
Então, a minha voz terá sentido. E eu oferecerei as doze badaladas. Um presente de Natal. O meu:
- aos que me amam e aos que não me conhecem;
- aos que me encontram e aos que fogem de mim;
- aos que me limpam as lágrimas e aos que se derramam no meu choro;
- aos que me dão o seu tempo e aos que nunca sabem de mim;
- aos que me abraçam e aos que me viram a cara;
- aos que me ajudam na luta e aos que me fazem desistir.
Este Natal, serei sino, serei a voz dos que falam e a dos que não têm voz. E a música do meu Glória há-de ser
- Deus nasceu! É teu.
Este Natal, serei sino. O verdadeiro sino de Natal.
Este Natal, serei sino. E, à meia-noite em ponto, quando a Senhora me disser:
- nasceu. É teu,
cada badalar há-de acordar os silêncios negros da noite e acender as estrelas.
Então, a minha voz terá sentido. E eu oferecerei as doze badaladas. Um presente de Natal. O meu:
- aos que me amam e aos que não me conhecem;
- aos que me encontram e aos que fogem de mim;
- aos que me limpam as lágrimas e aos que se derramam no meu choro;
- aos que me dão o seu tempo e aos que nunca sabem de mim;
- aos que me abraçam e aos que me viram a cara;
- aos que me ajudam na luta e aos que me fazem desistir.
Este Natal, serei sino, serei a voz dos que falam e a dos que não têm voz. E a música do meu Glória há-de ser
- Deus nasceu! É teu.
Este Natal, serei sino. O verdadeiro sino de Natal.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Outras guerras?

Estou a voltar. Devagarinho. Tenho andado por aí, a fazer outras coisas, a pensar noutras coisas, a escrever outras coisas. Os meus dias têm sido um bocadinho assim: peças que vou juntando, no cuidado de deixar poucas coisas pelo caminho, organizando a minha guerra.
Se tem sido bom? Tem. Mas já tinha saudades de voltar.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
do fundo da terra

Algar do Carvão. Ilha Terceira. Açores.
De dentro da terra, um buraco de luz. Um sorriso dos céus. Apesar do frio. Apesar da chuva. Apesar da noite que nos guarda o medo. Apesar do silêncio que nos afoga os gritos. Apesar de tudo. apesar do tempo. A Luz.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
SETEMBRO
Já as uvas beberam o sol. Já o silêncio dos pátios se enfeita de gente. Já são novos os livros e as esperanças e os futuros. Já a escola nos chama de manhã. Já.
Vai começar. Outra vez. que seja um começo feliz! Porque, se vamos começar, é sinal de que podemos começar.
Por isso, mesmo que já não haja uvas, nem silêncios, nem férias, nem mares, há o milagre da saúde que nos permite trabalhar.
Um bom ano lectivo!
Vai começar. Outra vez. que seja um começo feliz! Porque, se vamos começar, é sinal de que podemos começar.
Por isso, mesmo que já não haja uvas, nem silêncios, nem férias, nem mares, há o milagre da saúde que nos permite trabalhar.
Um bom ano lectivo!
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Em S. Miguel...
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Lisboa...
Lisboa acordou cedo, na pressa de ser azul. Gaiata, desceu a Avenida, balançando as ancas, gritando pregões antigos e baixando a cabeça , não fossem os braços das árvores lhe despentearem os cabelos.
Vai à procura do Tejo que, nestes dias claros de Verão, brinca que é mar e espreguiça-se, iluminando a cidade, sua amante, com quem dormiu a noite toda, embalado num fado que vem não sei de onde e vai por aí, à procura de mundo.
Talvez fosse esta a Lisboa do meu antigamente. Porque, agora, apenas guarda o azul, o céu claro de outros tempos, o grito silencioso dos pregões e mais nada. Estava um bocadinho triste a cidade, esta manhã. Vazia. Fechada. O passado esconde-se atrás das grades que cerram as montras, as portas, os olhos dos empregados (poucos, já) que olham o deserto das ruas.
Lisboa tem saudades de ser feliz, de não ter medo das esquinas, de vender flores aos namorados. Lisboa tem saudades de ser azul. E eu, tenho saudades de Lisboa.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
ABRAÇO AZUL
( a propósito da exposição "Abraço Azul " de Carla Cabral, Galeria dos Prazeres)
Guardo as minhas palavras neste abraço azul. Redondo como todos os abraços. Fecho-as num coração que se desenha na linha perfeita da filigrana e penduro-o ao peito.
Ato as minhas palavras ao bordado das formas e deixo-as ser mar, porque azul. Deixo-as ser maré e envolver as telas. Deixo-as entrar em cada quadro para dizer que há gritos que escondem silêncios, que há braços à espera de abraços, que há segredos (quase) meninos à espera de tempo, que há sonhos (quase) reais à espera de vez.
Perdi palavras pelo caminho. Deixei-as nos olhos que fechei e enterrei no colo, outra vez. Foi então que uma ave, a asa de uma ave, o sopro azul do voo de uma ave as salvou. Um abraço. Redondo. Azul. Um abraço apertado como são todos os abraços.
Ato as minhas palavras ao bordado das formas e deixo-as ser mar, porque azul. Deixo-as ser maré e envolver as telas. Deixo-as entrar em cada quadro para dizer que há gritos que escondem silêncios, que há braços à espera de abraços, que há segredos (quase) meninos à espera de tempo, que há sonhos (quase) reais à espera de vez.
Perdi palavras pelo caminho. Deixei-as nos olhos que fechei e enterrei no colo, outra vez. Foi então que uma ave, a asa de uma ave, o sopro azul do voo de uma ave as salvou. Um abraço. Redondo. Azul. Um abraço apertado como são todos os abraços.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Venham sempre...
Não riam. Mas fiquei com saudades dos meus companheirinhos de blogue. Fiquei com saudades dos comentários e dos mimos. Fiquei com saudades das gargalhadas da Agapê, dos cuidados da Nanda, da ternura da Seni, da força da Tina, do apoio do Jordas, da seriedade da Nobita. Fiquei com saudades da Dêpê que eu tinha perdido há tantos anos e que agora voltou, disponível, para me ensinar estas coisas dos tempos novos.
Não riam. Ainda ninguém se foi embora e
Ok! Vai passar… até porque percebi que este é mais um lugar de encontros, mais um sítio onde se vê os amigos, mais um lugar nosso.
Um agradecimento especial à Dêpê. Por causa dela, fizemos aqui um ninho. Por causa de um tempo que ela faz render e de uma força que parece não acabar.
Um beijo a todos. Boas Férias. Fico à espera que apareçam. Eu digo o que diziam as velhas da minha meninice:
- Venha sempre!
Não riam. Ainda ninguém se foi embora e
Ok! Vai passar… até porque percebi que este é mais um lugar de encontros, mais um sítio onde se vê os amigos, mais um lugar nosso.
Um agradecimento especial à Dêpê. Por causa dela, fizemos aqui um ninho. Por causa de um tempo que ela faz render e de uma força que parece não acabar.
Um beijo a todos. Boas Férias. Fico à espera que apareçam. Eu digo o que diziam as velhas da minha meninice:
- Venha sempre!
domingo, 12 de julho de 2009
Ao M&M e aos outros

Passamos o ano a sonhar com Julho, mas quando a última actividade se realiza, há um travo amargo na boca, apesar das gargalhadas, apesar da alegria, apesar do sol e do calor. Talvez porque se fecha alguma coisa. Talvez porque se acaba sempre por perder algumas pessoas que nos acompanharam ao longo de parte da nossa vida. Talvez porque.
Hoje, aproveito este lugar que a Dêpê nos mostrou, para agradecer a todos os que, ao longo deste ano (e dos outros,claro!) contribuíram para que a minha vida fosse mais feliz, enfeitando-a de gargalhadas, de palavras boas “das que nos beijam como se tivessem boca”, de abraços redondos e quentes, de gestos-beijos.
Passem por aqui, de vez em quando. A minha casa é a vossa casa. E, para o ano, nas Mercês, em S. Martinho, ou noutro sítio qualquer, sempre que precisarem de mim, contem comigo!
Hoje, aproveito este lugar que a Dêpê nos mostrou, para agradecer a todos os que, ao longo deste ano (e dos outros,claro!) contribuíram para que a minha vida fosse mais feliz, enfeitando-a de gargalhadas, de palavras boas “das que nos beijam como se tivessem boca”, de abraços redondos e quentes, de gestos-beijos.
Passem por aqui, de vez em quando. A minha casa é a vossa casa. E, para o ano, nas Mercês, em S. Martinho, ou noutro sítio qualquer, sempre que precisarem de mim, contem comigo!
domingo, 28 de junho de 2009
Um bocadinho de azul

Apenas para contrariar.
Apenas para lembrar que, apesar da chuva, Junho já anda por aí, de arco e balão, a molhar os pés na babugem do mar.
Estamos a um passo das férias. Apetece-me pensar em mar e sossego, em paisagens de longes desconhecidos. Apetece-me dizer
- está quase,
mesmo sabendo que não é já, que ainda há o resto do ano para arrumar.
Um bocadinho de azul - apenas para contrariar a chuva e o nevoeiro que batem à minha janela.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Quase.
No vagar de quem tem pressa, Junho vai chegando, mais ou menos azul, mais ou menos preguiçoso, mais ou menos.
No olhos dos miúdos, o desejo do fim. Como nos nossos. Um desejo de silêncio e de distância. Um desejo. Apenas um desejo.
Antevemos o mar das férias a encaracolar a espuma na areia ou a despentear os calhaus. Vislumbramo-lo pelas frestas das nossas janelas. Porque, por agora, fazemos de conta: que os papeis são o mar, que o cansaço é mentira, que não há exames, nem reuniões, nem vida para além da nossa.
Por enquanto, a nossa gargalhada vai abrindo clareiras. Como os sorrisos. Os abraços. Nossos.
No olhos dos miúdos, o desejo do fim. Como nos nossos. Um desejo de silêncio e de distância. Um desejo. Apenas um desejo.
Antevemos o mar das férias a encaracolar a espuma na areia ou a despentear os calhaus. Vislumbramo-lo pelas frestas das nossas janelas. Porque, por agora, fazemos de conta: que os papeis são o mar, que o cansaço é mentira, que não há exames, nem reuniões, nem vida para além da nossa.
Por enquanto, a nossa gargalhada vai abrindo clareiras. Como os sorrisos. Os abraços. Nossos.
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Um pingo de sol...no Porto Santo (a pedido da Agapê)

Foi assim:
a convite da Escola do Porto Santo, fui participar na Feira do Livro. Largo das Palmeiras - convocatória para as 9 da noite, na tenda montada pela única livraria da ilha - Orpheu Rebelde. Reunião de Grupo de Português, com a presença dp presidente da escola e da presidente do CCE. Ordem de trabalhos: livros. Estivemos na conversa até à meia-noite, falámos do Pingo, os colegas leram alguns excertos e houve sessão de autógrafos. Até houve apostas quanto a casa de que falo no livro. Entretanto, foi chegando gente e a roda de cadeiras foi aumentando. Vieram professores de outros grupos com as familias e a conversa foi animada.
No dia seguinte, porem, havia trabalho e a delegada foi buscar-me a casa às 8h15. Madrugada. A ideia era que eu participasse na apresentação dos trabalhos dos alunos de 11º ano que tinham estudado o Pingo de Sol.
Sabem, o nó que aperta a garganta? Nunca pensei em mim assim. O meu conto deu origem a peças de teatro, a apresentações em PP, a canções, a caixas com fotografias de outros tempos, a canções feitas de propósito, a poemas declamados, a marcadores, a uma exposição de pintura.
Fiquei um pavão.
Depois, falei eu. Nada do que tinha preparado. Fui atrás das questões deles que me imaginavam outra que não eu.
E pronto: o trabalho acabou no Restaurante Salinas. A cultura; por si só, não enche a barriga
a convite da Escola do Porto Santo, fui participar na Feira do Livro. Largo das Palmeiras - convocatória para as 9 da noite, na tenda montada pela única livraria da ilha - Orpheu Rebelde. Reunião de Grupo de Português, com a presença dp presidente da escola e da presidente do CCE. Ordem de trabalhos: livros. Estivemos na conversa até à meia-noite, falámos do Pingo, os colegas leram alguns excertos e houve sessão de autógrafos. Até houve apostas quanto a casa de que falo no livro. Entretanto, foi chegando gente e a roda de cadeiras foi aumentando. Vieram professores de outros grupos com as familias e a conversa foi animada.
No dia seguinte, porem, havia trabalho e a delegada foi buscar-me a casa às 8h15. Madrugada. A ideia era que eu participasse na apresentação dos trabalhos dos alunos de 11º ano que tinham estudado o Pingo de Sol.
Sabem, o nó que aperta a garganta? Nunca pensei em mim assim. O meu conto deu origem a peças de teatro, a apresentações em PP, a canções, a caixas com fotografias de outros tempos, a canções feitas de propósito, a poemas declamados, a marcadores, a uma exposição de pintura.
Fiquei um pavão.
Depois, falei eu. Nada do que tinha preparado. Fui atrás das questões deles que me imaginavam outra que não eu.
E pronto: o trabalho acabou no Restaurante Salinas. A cultura; por si só, não enche a barriga
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Um pouco de mar...

Cheguei de lá. Fui falar de livros e ouvir falar do meu Pingo de Sol. Lembrei-me de vocês. O mar e a areia mandam saudades.
sábado, 30 de maio de 2009
Irene Lucília - em jeito de homenagem
CARTA A IRENE
Perdi palavras pelo caminho. Ontem, sabia de cor as histórias que o vento contava ao ouvido da minha infância. Ontem, acreditava que o Tordo cantava para mim e me enfeitiçava os sonhos de palavras verdes. Ontem, eu era Angélica e amava o mar e a serra e tinha olhos de horizontes e amanhãs. Ontem, também eu tinha corpo de ilha e ia consigo, com um pé dentro d’água e um poema na mão.
Voltei, agora, Irene, a lembrar-me dos cisnes, porque a hora se imobilizou nos versos que reli e que voltaram a derramar Água de Mel na solidão branca desta folha vazia.
Talvez tenha vergonha das palavras, porque Atena não canta e o Tempo protesta porque não tem tempo de abrir mais portas, porque o vento reclama a vida, porque, Irene, as minhas mãos não sabem amansar os frutos, nem desfazer as tintas, nem dizer as notas que se penduram nos beirais das pautas, quando o sol se põe e a rua adormece.
Só me resta o silêncio do fim do caminho, que não é o da Penteada, mas o dos afectos, o dos significados imprecisos, o das sintaxes imperfeitas.
Assim: espalhei as memórias sobre a mesa e peguei nos silêncios - silêncios de asas, silêncios de mar alto, silêncios de gaivotas que dormem nas “folgas do sol”[1]. Fui em busca de mim na ternura azul com que canta a ilha, no arrepio que faz estremecer os jacarandás, na simplicidade pequenina da voz que tem derramado por esta cidade à beira do mar, à beira do desejo, à beira de ser barco, à beira de qualquer coisa maior.
E encontrei cheiros antigos a subir as calçadas, gritos de estrelas no vazio das noites; encontrei “a luz grega de Setembro”[2] dentro dos cestos que transportaram as minhas angústias e que eu transformei em vinho.
Pelas suas mãos, sentei-me “à sombra do grande mistério / de pensar”[3], para que o tempo pudesse amadurecer as palavras. Pelas suas mãos, Irene, como pela mão de outros poetas, conheci as luzes e as sombras, abracei, perplexa, o coração das ruas e quis ser porto e navio, terra e gaivota. Às vezes, gostaria de ter sido eu a escrever que “O sol vem pôr-se em meus olhos / porque a montanha sou eu”[4]. Às vezes, Irene, tenho vontade de ser poeta. Como agora, neste instante vazio em que me faltam as metáforas.
Dá-me licença, Irene? Deixe-me defini-la assim: “Repartida. Presa pelo sentir. Liberta pelo pensar. Pedra e nuvem; raiz e asa; fogo e orvalho; amarra e oceano”[5] . Vejo-a assim: ancorada ao porto com vontade de partir; ilha e viagem. Leio-lhe uma alma maior que o corpo, que se derrama no desenho desta cidade que partilha comigo.
Devolvo-lhe o silêncio que me cura as palavras. E digo-lhe que sim, que vale a pena, que o seu nome continua a acordar as marés. Permita-me outra ousadia, Irene. Lembra-se da Rosa Panchera[6]? Vou roubar-lhe a frase e fazer dela a minha voz: “Não se vive por acaso, meu amor!”[7]
[1] Andrade, Irene Lucília, Angélica e a sua espécie, Ed. Signo, Ponta Delgada, Açores, 1993: 15
[2] Andrade, Irene Lucília, A mão que Amansa os Frutos, Ed. Cadernos da Ilha, nº 4, Funchal, 1991: 14
[3] Idem, ibidem: 19
[4] Andrade, Irene Lucília , Ilha que é Gente, DRAC, Funchal, 1986:21
[5] Andrade, Irene Lucília, Angélica e a sua espécie, Ed. Signo, Ponta Delgada, Açores, 1993: 30
[6] Ref. a personagem de Andrade, Irene Lucília, Angélica e a sua espécie, Ed. Signo, Ponta Delgada, Açores, 1993
[7] Andrade, Irene Lucília, Angélica e a sua espécie, Ed. Signo, Ponta Delgada, Açores, 1993: 62
In: Revista Margem, 29 de Maio de 2009
Perdi palavras pelo caminho. Ontem, sabia de cor as histórias que o vento contava ao ouvido da minha infância. Ontem, acreditava que o Tordo cantava para mim e me enfeitiçava os sonhos de palavras verdes. Ontem, eu era Angélica e amava o mar e a serra e tinha olhos de horizontes e amanhãs. Ontem, também eu tinha corpo de ilha e ia consigo, com um pé dentro d’água e um poema na mão.
Voltei, agora, Irene, a lembrar-me dos cisnes, porque a hora se imobilizou nos versos que reli e que voltaram a derramar Água de Mel na solidão branca desta folha vazia.
Talvez tenha vergonha das palavras, porque Atena não canta e o Tempo protesta porque não tem tempo de abrir mais portas, porque o vento reclama a vida, porque, Irene, as minhas mãos não sabem amansar os frutos, nem desfazer as tintas, nem dizer as notas que se penduram nos beirais das pautas, quando o sol se põe e a rua adormece.
Só me resta o silêncio do fim do caminho, que não é o da Penteada, mas o dos afectos, o dos significados imprecisos, o das sintaxes imperfeitas.
Assim: espalhei as memórias sobre a mesa e peguei nos silêncios - silêncios de asas, silêncios de mar alto, silêncios de gaivotas que dormem nas “folgas do sol”[1]. Fui em busca de mim na ternura azul com que canta a ilha, no arrepio que faz estremecer os jacarandás, na simplicidade pequenina da voz que tem derramado por esta cidade à beira do mar, à beira do desejo, à beira de ser barco, à beira de qualquer coisa maior.
E encontrei cheiros antigos a subir as calçadas, gritos de estrelas no vazio das noites; encontrei “a luz grega de Setembro”[2] dentro dos cestos que transportaram as minhas angústias e que eu transformei em vinho.
Pelas suas mãos, sentei-me “à sombra do grande mistério / de pensar”[3], para que o tempo pudesse amadurecer as palavras. Pelas suas mãos, Irene, como pela mão de outros poetas, conheci as luzes e as sombras, abracei, perplexa, o coração das ruas e quis ser porto e navio, terra e gaivota. Às vezes, gostaria de ter sido eu a escrever que “O sol vem pôr-se em meus olhos / porque a montanha sou eu”[4]. Às vezes, Irene, tenho vontade de ser poeta. Como agora, neste instante vazio em que me faltam as metáforas.
Dá-me licença, Irene? Deixe-me defini-la assim: “Repartida. Presa pelo sentir. Liberta pelo pensar. Pedra e nuvem; raiz e asa; fogo e orvalho; amarra e oceano”[5] . Vejo-a assim: ancorada ao porto com vontade de partir; ilha e viagem. Leio-lhe uma alma maior que o corpo, que se derrama no desenho desta cidade que partilha comigo.
Devolvo-lhe o silêncio que me cura as palavras. E digo-lhe que sim, que vale a pena, que o seu nome continua a acordar as marés. Permita-me outra ousadia, Irene. Lembra-se da Rosa Panchera[6]? Vou roubar-lhe a frase e fazer dela a minha voz: “Não se vive por acaso, meu amor!”[7]
[1] Andrade, Irene Lucília, Angélica e a sua espécie, Ed. Signo, Ponta Delgada, Açores, 1993: 15
[2] Andrade, Irene Lucília, A mão que Amansa os Frutos, Ed. Cadernos da Ilha, nº 4, Funchal, 1991: 14
[3] Idem, ibidem: 19
[4] Andrade, Irene Lucília , Ilha que é Gente, DRAC, Funchal, 1986:21
[5] Andrade, Irene Lucília, Angélica e a sua espécie, Ed. Signo, Ponta Delgada, Açores, 1993: 30
[6] Ref. a personagem de Andrade, Irene Lucília, Angélica e a sua espécie, Ed. Signo, Ponta Delgada, Açores, 1993
[7] Andrade, Irene Lucília, Angélica e a sua espécie, Ed. Signo, Ponta Delgada, Açores, 1993: 62
In: Revista Margem, 29 de Maio de 2009
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Bem Vindos, amigos!
Porque somos mais. Porque estamos juntos. Porque a família vai crescendo. Porque nos enriquecemos. Porque sim.
Bem vindos, colegas! O meu espaço é tambem a vossa casa. Partilhemos as palavras. Porque as palavras são redondas como abraços.
Bem vindos, colegas! O meu espaço é tambem a vossa casa. Partilhemos as palavras. Porque as palavras são redondas como abraços.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Vamos acordar as fadas? - II
- Era uma vez.
Começou assim a minha história de amor: eu e os livros, eu e as florestas encantadas, eu e o tempo do
- foram felizes para sempre.
Cresci, assim, embalada no beijo que se seguia à história e me aconchegava o dia num sono reparador com mão de mãe:
- Dorme bem, meu amor.
E eu dormia. Porque os anjos e as fadas velavam os meus sonhos e impediam que as bruxas e os dragões me acordassem o medo. Depois, cresci. Os livros cresceram comigo e trouxeram – me as aventuras dos Cinco e dos Sete, os lanches que apeteciam comer, a liberdade de um mundo sem adultos, a alegria do dever cumprido.
Mas a vida (a minha vida, meus amigos) precisou de outras palavras, de outras histórias, de outros lugares, de descobertas de coisas reais. Percebi, então, que eu vivia dentro dos livros, que as histórias que eu lia eram as minhas histórias que alguém tinha passado a limpo. Lê-las era recebê-las de presente.
- É tua. Foi por ti que a escrevi.
Com os livros, ri e chorei. Foram eles que me aqueceram o peito quando a noite me encontrou triste ou cansada. Com eles, ouvi a música das palavras, fui à lua, olhei directamente para o sol e acreditei que a felicidade era possível.
A vida, porém, levou-me a guardar as fadas e os príncipes no fundo de mim. Escondi as palavras no baú do que fui. E fiquei mais só. Esqueci-me de que o lugar dos livros é no coração e que o tempo para ler é um tempo roubado ao tempo social de viver, de trabalhar, de estar na moda. Onde é que eu perdi aquela espécie de feitiçaria em que o escritor se encontrava comigo e éramos felizes?
Mas, a verdade é que, todos os dias, somos os protagonistas da nossa própria historia. Todos os dias, lemos e escrevemos a nossa vida. Mas, só nos livros, podemos escolher sonhar ou sofrer, partir ou ficar, voltar para trás, reler, saltar páginas, ou simplesmente, suspender a viagem.
Os livros querem morar dentro de nós. Querem construir connosco um amor para a vida. No silêncio que guardam as palavras. Na saudade do tempo em que o
- era uma vez
tinha voz de mãe ou de professora, voz de mel e de cerejas.
Eu gostava muito de tentar. Outra vez.
Ajudem-me, então, a acordar as fadas que dormem nos livros e que nos enfeitavam as noites de antigamente. Ajudem-me a restaurar as minhas asas para irmos, juntos, à floresta encantada das personagens de papel, à clareira onde se esconde o beijo com que o Príncipe acordou a Bela Adormecida. Preciso de gente de boa vontade. É urgente restaurar o sonho que se perdeu de nós numa das ruas da nossa vida.
(texto publicado na página da DRE- Baú de leitura)
Começou assim a minha história de amor: eu e os livros, eu e as florestas encantadas, eu e o tempo do
- foram felizes para sempre.
Cresci, assim, embalada no beijo que se seguia à história e me aconchegava o dia num sono reparador com mão de mãe:
- Dorme bem, meu amor.
E eu dormia. Porque os anjos e as fadas velavam os meus sonhos e impediam que as bruxas e os dragões me acordassem o medo. Depois, cresci. Os livros cresceram comigo e trouxeram – me as aventuras dos Cinco e dos Sete, os lanches que apeteciam comer, a liberdade de um mundo sem adultos, a alegria do dever cumprido.
Mas a vida (a minha vida, meus amigos) precisou de outras palavras, de outras histórias, de outros lugares, de descobertas de coisas reais. Percebi, então, que eu vivia dentro dos livros, que as histórias que eu lia eram as minhas histórias que alguém tinha passado a limpo. Lê-las era recebê-las de presente.
- É tua. Foi por ti que a escrevi.
Com os livros, ri e chorei. Foram eles que me aqueceram o peito quando a noite me encontrou triste ou cansada. Com eles, ouvi a música das palavras, fui à lua, olhei directamente para o sol e acreditei que a felicidade era possível.
A vida, porém, levou-me a guardar as fadas e os príncipes no fundo de mim. Escondi as palavras no baú do que fui. E fiquei mais só. Esqueci-me de que o lugar dos livros é no coração e que o tempo para ler é um tempo roubado ao tempo social de viver, de trabalhar, de estar na moda. Onde é que eu perdi aquela espécie de feitiçaria em que o escritor se encontrava comigo e éramos felizes?
Mas, a verdade é que, todos os dias, somos os protagonistas da nossa própria historia. Todos os dias, lemos e escrevemos a nossa vida. Mas, só nos livros, podemos escolher sonhar ou sofrer, partir ou ficar, voltar para trás, reler, saltar páginas, ou simplesmente, suspender a viagem.
Os livros querem morar dentro de nós. Querem construir connosco um amor para a vida. No silêncio que guardam as palavras. Na saudade do tempo em que o
- era uma vez
tinha voz de mãe ou de professora, voz de mel e de cerejas.
Eu gostava muito de tentar. Outra vez.
Ajudem-me, então, a acordar as fadas que dormem nos livros e que nos enfeitavam as noites de antigamente. Ajudem-me a restaurar as minhas asas para irmos, juntos, à floresta encantada das personagens de papel, à clareira onde se esconde o beijo com que o Príncipe acordou a Bela Adormecida. Preciso de gente de boa vontade. É urgente restaurar o sonho que se perdeu de nós numa das ruas da nossa vida.
(texto publicado na página da DRE- Baú de leitura)
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Romeiro, quem és tu?
"- Romeiro, quem és tu?- Ninguém."
- E tu, professor?
Nada. O professor não diz nada. Cala as palavras no silêncio, porque não sabe que resposta dar: já foi saber, já foi pilar, já foi abraço.
- Quem és tu, professor?
Nada. O professor não diz nada. E, mesmo que dissesse... E mesmo que explicasse ...
A sala está deserta. Os miúdos esconderam-se dentro dos computadores. O professor não conhece esse mundo. E tem medo. Dentro do computador, não há lugar para o seu nome, não há lugar para a sua voz, não há lugar para a doçura do seu olhar.
O professor está perplexo - não sabe o que há-de fazer do seu abraço.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
E agora?
Onde fica o futuro? Onde estão os alunos que sempre tivemos, os que sempre quisemos ter, os que gostariamos de ter tido e nunca tivemos? Onde está a sede de saber outras coisas? Onde está o
- professora (que é pressora), o toque , já?
Parámos no cansaço antigo das aulas de quadro e giz, de uns bonecos para o pontapé de saída das aulas. Ficámos aí. Juntos. Completamente sozinhos. Nós e os alunos.
E tal como o poeta dizemos que não vamos por aí. Mas então, vamos para onde? Como? POr onde? Com quem?
- professora (que é pressora), o toque , já?
Parámos no cansaço antigo das aulas de quadro e giz, de uns bonecos para o pontapé de saída das aulas. Ficámos aí. Juntos. Completamente sozinhos. Nós e os alunos.
E tal como o poeta dizemos que não vamos por aí. Mas então, vamos para onde? Como? POr onde? Com quem?
terça-feira, 12 de maio de 2009
Porque é 12 de Maio...

Mãe,
guardei a lua para te oferecer esta noite. Trouxe-te a luz dos caminhos, o canto dos peregrinos, o silêncio das noites. Trouxe-te o melhor de mim, apesar da vida e do tempo e do medo. Trouxe-te quem sou: às vezes sorriso, às vezes desespero, às vezes abraço, às vezes solidão.
Vim, Mãe Santíssima, porque em ti encontrei a minha casa. Mesmo quando a noite me apagou a esperança, quando a dor me choveu nos olhos e me derramei no chão. Vim, Senhora de todos meus passos, porque sempre houve lugar para mim no abrigo azul do teu manto, na ternura branca dos teus silêncios, nas palavras caladas, guardadas na cruz do teu Filho.
Esta noite, olhaste outra vez para os meus olhos e disseste – me:
- Eu estou contigo.
Eu sei, Mãe. Senti-te à beira da minha cama, nos momentos de pedra; senti-te estrela, nas alturas de alegria; senti-te presença na hora das lágrimas.
Por isso, só me resta colar os meus olhos aos teus, as tuas mãos às minhas e agradecer-te, da pequenez da minha humildade por nunca teres largado o meu coração.
Senhora de Fátima, peço-te, esta noite, aquilo que eu, no segredo de mim, pedia à minha mãe antes de dormir: Se eu me perder, encontra-me. Ámen.
guardei a lua para te oferecer esta noite. Trouxe-te a luz dos caminhos, o canto dos peregrinos, o silêncio das noites. Trouxe-te o melhor de mim, apesar da vida e do tempo e do medo. Trouxe-te quem sou: às vezes sorriso, às vezes desespero, às vezes abraço, às vezes solidão.
Vim, Mãe Santíssima, porque em ti encontrei a minha casa. Mesmo quando a noite me apagou a esperança, quando a dor me choveu nos olhos e me derramei no chão. Vim, Senhora de todos meus passos, porque sempre houve lugar para mim no abrigo azul do teu manto, na ternura branca dos teus silêncios, nas palavras caladas, guardadas na cruz do teu Filho.
Esta noite, olhaste outra vez para os meus olhos e disseste – me:
- Eu estou contigo.
Eu sei, Mãe. Senti-te à beira da minha cama, nos momentos de pedra; senti-te estrela, nas alturas de alegria; senti-te presença na hora das lágrimas.
Por isso, só me resta colar os meus olhos aos teus, as tuas mãos às minhas e agradecer-te, da pequenez da minha humildade por nunca teres largado o meu coração.
Senhora de Fátima, peço-te, esta noite, aquilo que eu, no segredo de mim, pedia à minha mãe antes de dormir: Se eu me perder, encontra-me. Ámen.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Regresso aos livros
Voltei. Tenho andado um pouco por aí, a falar de livros, de palavras e da importância que a leitura tem na nossa vida.
Será impressão minha ou os miudos do campo ainda acreditam no poder dos livros? No entanto, têm (quase) todas as modernices que os nossos têm.
Será que nós, profs da cidade, desistimos de ensinar a gostar de ler?
Será impressão minha ou os miudos do campo ainda acreditam no poder dos livros? No entanto, têm (quase) todas as modernices que os nossos têm.
Será que nós, profs da cidade, desistimos de ensinar a gostar de ler?
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Vamos acordar as fadas?
Não me perguntem porquê, mas a minha relação com os livros é (quase) uma história de amor. De amores, talvez. Um lugar de encontros e desencontros, de procuras e de descobertas, de memórias minhas que alguém passou a limpo e delas fez uma história que, no momento em que a leio, é minha.
Isto é assim desde que me lembro de mim, desde o tempo do
- era uma vez
que coroava os dias da minha meninice. Lembro-me ainda do beijo que se seguia ao
- e foram felizes para sempre,
um beijo que curava todos os males que as tropelias do dia tinha trazido. Todos.
Depois, cresci. E como todos os adolescentes, guardei as fadas e os príncipes no fundo de mim e fui à procura de outras coisas. Elas também estavam nos livros: a aventura, a liberdade, o amor, o desencanto. Com os livros, ri e chorei, descobri que havia muito mundo para além da minha janela, descobri o encantamento das palavras, percebi que não tenho de ter medos, porque o meu caminho já foi pisado por outros.
Só mais tarde percebi que o lugar dos livros é no coração. Uma espécie de feitiçaria em que o escritor e o leitor se encontram e são felizes. A vida ensinou-me que os bons livros aquecem o peito quando a noite chega e nós estamos tristes. Os bons livros permitem que os nossos olhos ouçam as palavras e nos convidem a ir com elas, numa viagem em que se pode chegar perto do sol sem nos queimarmos ou roubar a lua, apenas pelo prazer de a guardar no bolso. Os bons livros escondem os beijos que não damos, as palavras que escondemos, a vida que gostaríamos de ter. Um dia. Qualquer dia.
Todos os dias somos os protagonistas da nossa própria historia. Todos os dias, lemos e escrevemos a nossa vida. Mas, só nos livros, podemos escolher sonhar ou sofrer, partir ou ficar, voltar para trás, reler, saltar páginas, ou simplesmente, suspender a viagem.
É por isso que me entristece saber que há gente que ainda não descobriu a magia de ler, gente que, simplesmente, matou as fadas que enfeitavam as noites de antigamente.
Os livros querem morar dentro de nós. Querem construir connosco um amor para a vida. No silêncio que guardam as palavras. Na saudade do tempo em que éramos felizes.
E mais: quando todos falham, quando os amigos se vão embora, quando as estrelas se apagam na noite, é lá que encontramos abrigo, porque é lá que dorme o beijo com que o Príncipe acordou a Bela Adormecida e os sonhos que desejam morar no corpo de quem tem coragem de aceitar o convite que um livro nos faz:
- Dança comigo esta dança?
Isto é assim desde que me lembro de mim, desde o tempo do
- era uma vez
que coroava os dias da minha meninice. Lembro-me ainda do beijo que se seguia ao
- e foram felizes para sempre,
um beijo que curava todos os males que as tropelias do dia tinha trazido. Todos.
Depois, cresci. E como todos os adolescentes, guardei as fadas e os príncipes no fundo de mim e fui à procura de outras coisas. Elas também estavam nos livros: a aventura, a liberdade, o amor, o desencanto. Com os livros, ri e chorei, descobri que havia muito mundo para além da minha janela, descobri o encantamento das palavras, percebi que não tenho de ter medos, porque o meu caminho já foi pisado por outros.
Só mais tarde percebi que o lugar dos livros é no coração. Uma espécie de feitiçaria em que o escritor e o leitor se encontram e são felizes. A vida ensinou-me que os bons livros aquecem o peito quando a noite chega e nós estamos tristes. Os bons livros permitem que os nossos olhos ouçam as palavras e nos convidem a ir com elas, numa viagem em que se pode chegar perto do sol sem nos queimarmos ou roubar a lua, apenas pelo prazer de a guardar no bolso. Os bons livros escondem os beijos que não damos, as palavras que escondemos, a vida que gostaríamos de ter. Um dia. Qualquer dia.
Todos os dias somos os protagonistas da nossa própria historia. Todos os dias, lemos e escrevemos a nossa vida. Mas, só nos livros, podemos escolher sonhar ou sofrer, partir ou ficar, voltar para trás, reler, saltar páginas, ou simplesmente, suspender a viagem.
É por isso que me entristece saber que há gente que ainda não descobriu a magia de ler, gente que, simplesmente, matou as fadas que enfeitavam as noites de antigamente.
Os livros querem morar dentro de nós. Querem construir connosco um amor para a vida. No silêncio que guardam as palavras. Na saudade do tempo em que éramos felizes.
E mais: quando todos falham, quando os amigos se vão embora, quando as estrelas se apagam na noite, é lá que encontramos abrigo, porque é lá que dorme o beijo com que o Príncipe acordou a Bela Adormecida e os sonhos que desejam morar no corpo de quem tem coragem de aceitar o convite que um livro nos faz:
- Dança comigo esta dança?
quarta-feira, 29 de abril de 2009
O tempo é agora.

Não. Não desapareci. Estou aqui em busca de um tempo que desaparece. Um instante. Um momento.
Se voltei agora, foi apenas para não se esquecerem de mim. Não se esqueçam de que as palavras estão por aqui, voo de andorinha numa primavera preguiçosa. Preciso que me ajudem a fazer o ninho.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Um momento

Deixem-me partilhar um momento. Hei-de guardá-lo no aperto que me ficou na garganta, na ternura do olhar, no futuro que espreitava de um lugar imprevisível - uma estação de serviço, algures a caminho de Sines.
Deixem-me partilhar o sorriso, andorinha de beiral, à procura da vida.
Deixem-me experimentar as palavras . Mas, por favor, não me deixem a falar sozinha. ajudem-me a dizer que sim, que se faz um ninho de um qualquer lugar.
Deixem-me ler-vos tambem. O sopro das vossas palavras empurrará as minhas para fora do ninho
terça-feira, 21 de abril de 2009
Sobre o livro Leituras Soltas
Entro, primeiro, na taberna, apenas para fazer uma festa ao gato que, vindo do nada, se instalou na prateleira e dela fez um altar. Não bebo a esta hora. Quero embalar-me com a ternura da lenda que fez nascer a ilha, esta: uma lágrima, uma pérola e o fogo que a ilumina na noite de S. Silvestre, que esventra a terra e explode entre mar e céu, também dentro dos olhos de Carlo Fortuna.
Quando puder, hei-de parar para um café, numa esplanada da Ribeira Brava e rever Pedro, o engraxador, sombra de saudade de um tempo que já morreu.
E hei-de perguntar ao Pescador se precisa de ajuda, mesmo sabendo que ele me vai dizer que não, deslembrado de alegrias e afogando os olhos no mar.
Mas é Novembro em Lisboa. Eu estou dentro da solidão da cidade e procuro em vão a minha alma. Quero parar nas coisas paradas, ao frio e ficar por lá à espera de mim.
Sei então que as palavras de Florbela virão ter comigo. As dela e as de todos os poetas que são a minha vida: “Amo as pedras, os astros e o luar”.
Agora sim. Já posso mostrar as linhas das minhas mãos e deixar que a cigana me leia a sina. Sem medo.
Vou-me embora. Só me falta guardar as palavras na minha bolsa já cheia de tanto tudo. À pressa. Hei-de arrumá-la mais tarde. Tenho de ir tratar do Menino que a Rosairinha roubou, ir com o Agapito até a raiz quadrada da fantasia e abrir as gavetas para fazer ressuscitar as palavras.
Quando puder, hei-de parar para um café, numa esplanada da Ribeira Brava e rever Pedro, o engraxador, sombra de saudade de um tempo que já morreu.
E hei-de perguntar ao Pescador se precisa de ajuda, mesmo sabendo que ele me vai dizer que não, deslembrado de alegrias e afogando os olhos no mar.
Mas é Novembro em Lisboa. Eu estou dentro da solidão da cidade e procuro em vão a minha alma. Quero parar nas coisas paradas, ao frio e ficar por lá à espera de mim.
Sei então que as palavras de Florbela virão ter comigo. As dela e as de todos os poetas que são a minha vida: “Amo as pedras, os astros e o luar”.
Agora sim. Já posso mostrar as linhas das minhas mãos e deixar que a cigana me leia a sina. Sem medo.
Vou-me embora. Só me falta guardar as palavras na minha bolsa já cheia de tanto tudo. À pressa. Hei-de arrumá-la mais tarde. Tenho de ir tratar do Menino que a Rosairinha roubou, ir com o Agapito até a raiz quadrada da fantasia e abrir as gavetas para fazer ressuscitar as palavras.
domingo, 19 de abril de 2009
Um blogue, para quê?
Talvez porque os tempos mudaram e estamos cada vez mais sozinhos. Talvez porque este seja um lugar onde se pára para ouvir, porque se tem de parar. Talvez para partilhar.
Penso que vou por aí. Quero partilhar textos e impressões, primeiro com os colegas e, depois, talvez, com os alunos. Quero fazer deste lugar um sítio de livros lidos e por ler, de dúvidas e de certezas.
Penso que vou por aí. Quero partilhar textos e impressões, primeiro com os colegas e, depois, talvez, com os alunos. Quero fazer deste lugar um sítio de livros lidos e por ler, de dúvidas e de certezas.
quarta-feira, 18 de março de 2009
Porquê?
As palavras respiram. Como as casas. Como nós. Pretende-se, então que cada um (se) mostre com palavras suas ou dos outros, partilhando escritos, fazendo deste sítio um lugar de entregas, um lugar de palavras, um lugar de liberdades.
Aqui, procuraremos a ilusão de sermos deuses, de criar, de dominar o mundo e as coisas. Nós, os autores da nossa propria história
Aqui, procuraremos a ilusão de sermos deuses, de criar, de dominar o mundo e as coisas. Nós, os autores da nossa propria história
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